Rosanne Cash fala da sua relação com June Carter Cash


O texto abaixo foi escrito em 2003 por Rosanne Cash para June Carter Cash e aparece em "Woman Walk the Line: How the Women in the Country Music Changed Our Lives" (Tradução livre: Mulheres em Cena: Como as mulheres da música Country mudaram nossas vidas), uma compilação de homenagens as artistas Country favoritas das autoras. A reprodução a seguir foi publicada originalmente no site Country Living com permissão de seu autor e traduzido pela colaboradora Manuela Couto.

John Carter Cash, Johnny Cas, Rosanne Cash e June Carter
Há alguns anos atrás, eu estava sentada com June na sala de casa e o telefone tocou. Ela atendeu e começou a conversar com alguém e, após alguns minutos, acabei indo para outro comodo e quando retornei, ela continuava ao telefone. Cerca de 20 minutos depois, quando ela finalmente desligou, eu estava sentada na cozinha. Ela estava com um enorme sorriso estampado no rosto enquanto me dizia: "Eu acabo de ter a melhor conversa" e começou a comentar sobre uma mulher e sua filha, que acabara de perder seu pai, onde moravam e outras coisas...Eu a questionei: "Afinal, June quem era?" e ela disse "Bem,  eu não sei, foi engano."

Essa era June. Através de seus olhos enxergava apenas dois tipos de pessoas: aquelas que ela conhecia e amava e aquelas que ela não conhecia e amava. Ela sempre buscava o melhor para todos. Era a sua maneira de viver a vida. Se você apontasse alguém que talvez não merecesse seu carinho e talvez de fato não merecesse, ela diria: "Bem, querido. Nós ainda devemos fazer nossa parte e anima-lo". Ela sempre fazia questão de animar as pessoas. Levou um tempo para perceber que quando ela tentava fazer alguém se sentir melhor, na verdade, ela só reforçava os melhores aspectos daquela pessoa para si mesmo. Era como uma investigadora espiritual: ela compreendia suas partes mais obscuras, entendia seus potenciais, seu futuro e até mesmo os pontos positivos que você jamais imaginou ter. Com isso, fazia questão de "aumentar" para que pudesse ser visto. Ela fazia isso com todos nós, diariamente e continuamente.

Sua maior missão e paixão era fazer o melhor para o meu pai. Se ser esposa significa ser uma corporação, June teria sido a CEO. Era sua melhor personagem. Ela iniciava o dia dizendo: "O que eu posso fazer por você, John?" O amor que ela tinha tomava conta dos ambientes que Johnny estivesse. Iluminava por onde quer que ele andasse. Toda essa devoção por ele permitiu que ambos pudessem viver um relacionamento estimulante e sem desmotivação. Meu pai perdeu sua adorável companhia, sua parceira musical, sua alma gêmea e sua melhor amiga.

O relacionamento entre madrasta e enteada é complicado, mas June eliminou esse problema proibindo os termos enteado e madrasta.

O relacionamento entre uma madrasta e uma criança é definido sempre como complicado, entretanto, June acabou com esse problema evitando o uso dos termos como enteada e madrasta do seu e do nosso vocabulário. Quando ela se casou com meu pai em 1968, junto com ela vieram mais suas duas filhas: Carlene e Rosie. Meu pai, por outro lado, trouxe suas quatro filhas: Kathy, Cindy, Tara e eu. Juntos tiveram um filho, John Carter. Apesar disso, June sempre dizia: "Eu tenho sete filhos". Sem equívocos. Eu sabia desde sempre que isso era algo difícil de se lidar, mas June era inabalável e considerava isso uma honra.

A família Carter Cash em 1976
Em um determinado momento da minha vida, quando mais jovem onde eu me sentia confusa e depressiva e sem ter ideia do que a vida tinha para me oferecer, ela me mostrou a possibilidade de crescer em um ambiente de alegria e poder. Ela não deu me deu a luz mas me ajudou a dar a luz para o meu Eu do futuro. Recentemente, um amigo estava falando sobre a importância que ela teve na Familia Carter e sua notória participação na música americana. Ele contou também que perguntou pra ela o que ela achava sobre seu legado e com delicadeza ela respondeu: "Bem, eu era apenas uma mãe."

June nos deu vários presentes, alguns diretamente e outros sendo um exemplo de pessoa. Ela era meiga, charmosa e divertida. Criava palavras malucas que todos de alguma maneira conseguiam entender. Carrega consigo músicas como alguém que carrega seus glóbulos vermelhos – sempre tinha à sua disposição imediata. Conseguia recordar detalhes de cada palavra e nota e compartilhava espontaneamente. Ela gostava de um tom de azul em particular, que até nomeou à sua própria maneira: Azul June. Ela gostava de flores e sempre as tinha ao seu redor. Pra falar a verdade, não me lembro de uma vez sequer que seu quarto estivesse sem flores, nem mesmo um closet, um quarto de hotel e muito menos sua própria casa. Até parecia que as flores brotavam a medida que ela andava. John Carter sugeriu que a última linha de seu obituário estivesse escrito: "Ao invés de doações, me envie flores." E nós fizemos. Pensamos o quanto ela iria gostar disso.

Ela apreciava seus amigos e fazia o seu melhor por eles. Ela era uma ótima mãe substituta para aqueles músicos que vinham até ela com suas loucuras e corações partidos. Os chamava de seus filhos. Ela amava sua família e lar com todas suas forças. Ela inspirou décadas de inabalável lealdade em Peggy e seus funcionários. Ela nunca estava mal humorada, nunca era rude e fazia sempre o possível para que você se sentisse em casa. Ela era tremendamente digna e graciosa. Eu nunca a vi falando palavrões ou até mesmo aumentando seu tom de voz. Ela tratava um caixa de supermercado da mesma maneira que trataria o presidente dos Estados Unidos.

Ela tratava um caixa de supermercado da mesma maneira que trataria o presidente dos Estados Unidos.

Eu tenho muitas, mas muitas boas lembranças dela. Ainda me lembro de seus murmúrios para os beija-flores no terraço do Cinnamon Hill na Jamaica e esses mesmos beija-flores de uma maneira inexplicável se mantinham bem em frente ao seu rosto para ouvi-la cantando. Eu ainda a vejo deitada de costas e rindo enquanto suas netas penteavam seu cabelo por inteiro. Ainda a vejo de mãos abertas com anéis em cada um de seus dedos e dizendo as garotas: "Escolham um!" Ainda posso vê-la dançando com suas pernas lado a lado, simultaneamente e seus punhos a frente, ou segurando seu autoharp ou então trabalhando em seu jardim.

Mas a memória que melhor guardo é de seu aniversário em Virginia há dois verões atrás. Meu pai havia orquestrado uma reunião da qual chamou de "Semana do Neto". June teve uma semana totalmente dedicada para ela. Todos os dias seus netos liam homenagens a ela, enquanto nós tocávamos músicas e fazíamos coisas engraçadas para diverti-la. 

June e Johnny em 1969
Um dia, ela levou todos nós, filhos e netos, para um passeio de canoa junto ao seus conhecidos de Virginia para descer o Rio Holston. Foi incrível, um dia mágico. Alguns de nossos familiares mais urbanos nunca haviam estado em uma canoa. Nós remamos algumas horas e na última curva do rio, retornando para onde havíamos partido, estava June nos esperando em uma pequena clareira entre algumas árvores. Ela havia ido na nossa frente de carro para nos surpreender e nos receber ao final de nossa aventura. Ela vestia um de seus grandes chapéus floridos e usava uma longa saia branca e nos acenava com seu lenço dizendo "Olááaá!". Eu nunca havia visto ela tão feliz.

Hoje, todos nós, um marido desolado, sete filhos tristes, dezesseis netos e três bisnetos acenamos, daquela mesma prainha, enquanto ela parte de nossas vidas. Que legado ela deixou; que grande mãe ela foi. Eu sei que ela partiu para um lugar mais distante. Tenho fé que quando todos nós estivermos em nossa última curva do rio ela estará nos esperando com seu grande e florido chapéu e sua saia branca, debaixo de um céu Azul June, acenando com seu lenço para nos dar boas vindas.

18 de Maio de 2003
Hendersonville, Tennessee

"Eulogy for a Mother" do livro "Woman Walk the Line: How the Women in Country Music Changed Our Lives" © copyright 2017 by Rosanne Cash.

Manuela Couto
Manuela Couto é estudante do último ano de Administração pelo Centro Universitário FEI. Gosta de Country, Rock e Folk. Nas horas vagas, além de relaxar, curte ouvir uma boa música sempre.
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