A influência do Blues no Lynyrd Skynyrd: a história de The Ballad of Curtis Loew


O conteúdo dessa postagem foi retirada da tese "Southern Rock music as a cultural form" escrita pelo Brandon P. Keith em 2009 e traduzida pelo Southern Rock Brasil em 2013. Esse trecho explica um pouco da influência do Blues no som do Lynyrd Skynyrd, mostrando que aquela formação estava longe de ser racista como muitos afirmam. Confiram:

A história de The Ballad of Curtis Loew


O Blues foi uma tremenda influência nas músicas originais do Lynyrd Skynyrd. A primeira música de seu álbum de estréia, "Pronounced 'lĕh-'nérd 'skin-'nérd", "I Ain’t The One", é uma música otimista, que gira em torno de um riff de guitarras funk, e estruturalmente é uma variação no padrão comum da sequência IIV-V, mas também outras características. A influência do Blues também é evidente no segundo álbum do Lynyrd Skynyrd, "Second Helping". Em adição à música de J.J. Cale "Call Me the Breeze", que segue a estrutura I-IV-V, "Second Helping" traz também outra canção de Blues, uma composição original chamada "The Ballad of Curtis Loew". Na música, que incorpora slide guitar e soa muito como Blues, Van Zant conta a história de um velho homem negro que tinha uma loja no interior, e daria dinheiro ao narrador de dez anos de idade, pelo retorno das garrafas de vidro. A essência da música, contudo, está no refrão:

Cante-me uma canção Curtis Loew, Curtis Loew
Eu ganhei seu dinheiro de bebida, toque sua guitarra
As pessoas disseram que ele era inútil, elas que são bobas
Pois Curtis Loew foi o melhor cantor a jamais cantar o Blues

O refrão da música mostra o ódio e discriminação sofridos pelos negros no Sul. Embora não houvesse um Curtis Loew real, o protagonista da música era descrito como "inútil", termo que é remanescente das descrições odiosas que brancos racistas davam aos negros, no Sul. O jovem narrador, como representado por Van Zant, chamava os humilhadores de Loew (supostamente brancos) de "bobos" por não reconhecerem o talento do "melhor cantor a jamais cantar o Blues". Esse é um exemplo, não só da admiração que os músicos do Southern Rock sentiam pelos músicos negros que eram influências importantes no gênero, mas também da admiração estendida aos negros com quem os músicos do Southern Rock tinha relações pessoais.

Van Zant parece insistir que aqueles que têm má vontade com os negros estão perdendo algo porque eles não reconhecem o talento genuíno e a boa vontade mesmo no mais improvável personagem. Além disso, ele mostra que esse homem, que sofria tão pouco caso de outros, foi uma figura inspiradora e influenciadora na juventude do músico ao qual o público está ouvindo. Nesse caso, Van Zant está apontando o paradoxo, ou talvez a hipocrisia, em ser um fã de Southern Rock e, ao mesmo tempo, racista.

Inversamente, o próprio Van Zant pode estar reforçando os estereótipos raciais com seu sentimentalismo de Curtis Loew. Na música, Loew é apresentado como um homem pobre e negro, que confia no jovem narrador por seu "dinheiro de bebida". Van Zant tenta mostrar como Loew causou um impacto positivo na vida do jovem narrador, no entanto, ele retrata Loew em um foco desfavorável, declarando, na canção, que quando Loew "perdeu a vida, isso era tudo que ele tinha para perder". Além disso, Van Zant afirma que Loew "viveu uma vida inteira tocando o Blues do homem negro". Ao descrever Loew dessa forma, Van Zant pode estar reforçando os estereótipos raciais através do sentimentalismo de um homem pobre e negro, do qual a vida dura equivale apenas à sua importância para um jovem garoto branco. Embora não se saiba se essa era intenção de Van Zant, essa descrição de Loew demonstra as complexidades e ambiguidades quando se lida com relações raciais sulistas. É importante notar, no entanto, que Curtis Loew não era uma pessoa real, mas uma composição de muitas pessoas que tinham influenciado Ronnie Van Zant, um fato não visto por outros acadêmicos que analisaram essa música.

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Curtis Loew é um composto de vários pessoas que foram influências importantes para Van Zant, incluindo ícones legendários do Blues, como Robert Johnson e Muddy Waters, o amigo da família, Shorty Medlock, e o dono do armazém do bairro, Claude Hammer.

A música foi mais fortemente influenciada, no entanto, por Hammer, que era dono da Claude's Midway Grocery, no bairro de Jacksonville onde Van Zant cresceu. Quando era criança, Van Zant fazia bicos na loja, fosse separando garrafas ou varrendo o chão, e outras várias tarefas que lhe pediam. Hammer tocava guitarra e ensinou ao jovem Van Zant alguns acordes. Como afirmou Gene Odom, "Ronnie tinha muita consciência de que muitos artistas talentosos do Blues nunca tiveram as oportunidades que ele teve, simplesmente porque eles eram negros. E então, para homenagear todos eles, junto com os homens que ele conhecia, Ronnie criou 'Curtis' como um velho homem negro com cabelo cacheado."

De acordo com o acadêmico Michael Butler, a inclusão da música no álbum "Second Helping" "demonstra que o Skynyrd aprovava uma forma de integração racial e aceitação negra que se desviava das atitudes tradicionais sulistas, o que contribuiu para e refletiu na percepção de uma mudança de conceito da masculinidade branca no Sul dos anos 70."

"The Ballad of Curtis Loew" foi uma das diversas músicas do Southern Rock sobre afro-americanos. Algumas bandas do gênero eram ainda mais específicas nas suas referências aos negros, na sua música, e escreveram canções em tributo a um afro-americano que eles veneravam muito – Dr Martin Luther King Jr. Bandas de Southern Rock que compuseram, gravaram e lançaram tributos ao líder assassinado dos direitos civis se aventuraram a sofrer reações e protestos, para não mencionar baixas vendas de discos e baixo comparecimento nos shows, de fãs que pudessem não ser tão empáticos à causa dos direitos civis.
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