Reflexões de um One Man Band - Transformando tudo em fanatismo


Desde que o marketing percebeu que há um sentimento generalizado de culpa em nossa sociedade, um novo nicho comercial surgiu, a transformação de tudo em fanatismo. Seja para o aprimoramento profissional ou pessoal, convivemos com uma lista de cobranças que são jogadas em nossas caras quando nos desligamos brevemente de nossa rotina. Neste momento nos damos conta de algo importante que foi colocado em segundo plano, mas será que tudo é tão importante assim ou é mera técnica de venda?

Começar a ler aquela lista de livros que só vem crescendo mês a mês, ser uma pessoa mais preocupada com a saúde mental e física, iniciar aquela graduação que você tanto precisa em fim, poderia citar aqui muitos exemplos, mas uma coisa é certa, da mesma forma que não há quem tenha saco suficiente para se sentir tão devedor de si mesmo, também não há quem tenha tanto tempo livre para fazer tudo o que deveríamos.

Tudo bem, se devemos tanto a nós mesmos mais hora, menos hora a gente se obriga a começar a trabalhar essas demandas. Mas, o que acontece depois? Das frases que me deixam com o pé atrás a maior de todas é: somos uma família. Pois o meu receio tem como primazia a certeza de que quem tem a cara de pau de falar essa bobagem certamente está disposto a me cobrar mais do que dinheiro, esta pessoa quer também a minha disposição além do ambiente semanal rotineiro que nos liga.

Seja nas artes, na prática de esportes, na cultura ou na espiritualidade, a ideia de transformar tudo em fanatismo faz de nós pessoas insuportáveis, que se rodeiam sempre nos mesmos assuntos, gente de repertório escasso, que não respeita as individualidades dos outros, que se entrega de corpo e alma para apenas uma coisa na vida e para as outras vive como um zumbi, que sempre está apenas de corpo presente, mas sua alma já se foi a muito tempo.

"Quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer". Será que não é mais racional pensar que quando William Shakespeare escreveu isso ele quis dizer que o tempo é algo que precisa ser administrado? E não essa ideia infantil defendida por gente mau caráter que utiliza essa frase para dizer que se você não está fazendo algo que precisa é por simples falta de interesse. Qualquer físico discordaria do seu sentido óbvio, pois o tempo é soberano.

O sucesso é uma idealização constantemente cobrada para nós artistas, sempre recebemos diversos conselhos, formulas de sucesso que as vezes são demasiadamente surreais a ponto de nos dar a impressão de que o tempo é subjetivo. Em dezembro de 2016 eu iniciei o processo de concretização do meu último álbum, em março ele estava pronto e durante estes meses, todo o tempo livre que tive foi direcionado para o mesmo. Quando terminamos os áudios, adentramos nas gravações em vídeo e depois as edições. Durante o processo tive fortes dores de cabeça por dormir pouco e quando tudo estava pronto me veio um cansaço colossal. Em momento nenhum eu vi o tempo ser subjetivo e por isso, me sinto levemente incomodado com quem aparece dizendo o que fazer, tenho feito tudo o que posso, logo tenho muito trabalho e sou uma pessoa muito ocupada.

Penso que o sucesso vem da certeza de que nada surge do dia para a noite. Acho mais plausível um trabalho a longo prazo levando em conta a jornada que nos prepara para as grandes responsabilidades de quem é referencial de sucesso. Gente dizendo o que deveríamos fazer sempre existirá, mas temos visto que o fanatismo não se sustenta por muito tempo, pois ele transforma tudo o que é bom em uma cruz muito difícil de ser carregada.

Ari Frello
Ari Frello é guitarrista, violonista, gaitista, cantor, compositor, produtor musical e professor de música. Está na estrada desde 2008 e se tornou conhecido por seu trabalho como "One Man Band". Já lançou três álbuns autorais e já trabalha no próximo.
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