Blues: nascimento, trajetória e contribuição na formação da identidade dos EUA #05


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do Blues como formador na construção da identidade dos Estados Unidos se manifesta também como uma história escrava negra que revela uma maneira não passiva de comportamento. O Blues representa uma das formações de resistência negra, resultado da diáspora africana como movimento de expressão contra uma cultura opressora dominante.

As populações de origem africana que se estabeleceram na América e tiveram contato com culturas diversas, viveram diferentes experiências, reorganizaram suas expressões culturais, gerando uma identidade mesclada, fruto de várias influências, cuja noção de pureza deixou de ser legítima. Essas influências foram se estabelecendo e se unindo por todo o cenário norte-americano, e por consequência foram se espalhando e se fixando na cultura popular desses Estados, sendo o Blues um exemplo.

Para entendermos melhor a história do trabalho forçado das populações de origem africana, alguns conceitos sobre escravidão são necessários, para que se compreenda o porquê da exploração dos povos africanos e também negros, como o processo de negação de sua cultura, de sua humanidade. Essa análise possibilitou também a compreensão do imaginário das classes dominantes e dominadas em diferentes períodos históricos e suas formas de legitimação na dinâmica social.

É importante ressaltar que a história negra na América não foi passiva, e tampouco lamento. Foi, antes de tudo, uma história de reconstrução cultural inteligente e ousada para o contexto da época. Foi através das condições de estranhamento que os negros se viram obrigados a ser parte integrante dessa nova sociedade, estabelecendo formas de se identificarem consigo, com a comunidade negra e americana. Essas "identidades" devem ser avaliadas como diferentes, mas unificadoras de uma mesma nação, contribuindo para oportunizar e valorizar a diferença, vendo-a como grande contribuinte na formação de um povo.

Analisar o Blues, a musicalidade afro-americana, a pluralidade cultural, a identidade negra e todos esses processos de unificação de uma nação dentro de outra, como afirma Genovese, deve estar diretamente ligada à questão da escravidão e das formas de sobrevivência desenvolvidas pelos negros dentro de mundo da exploração e da negação de sua cultura.

A música aparece nesse processo atroz e explorador como uma fonte de defesa. Nesse sentido, a situação de vida em que se encontravam as populações de origem africana se refletiu na música, em suas vivências, seus desejos, suas mágoas, mas, sobretudo, através da união desses trabalhadores negros e de suas reflexões sobre a sociedade em que estavam inseridos.

Considerando esses aspectos, o Blues surgiu do resultado de mais de duzentos anos de escravidão nos Estados Unidos. Além disso, também da discriminação dos povos que foram escravizados e seus descendentes, no período de pós-abolição. Foi uma forma de relatar uma vida difícil comum entre negros, e que acabou ganhado espaço em um cenário mundial, identificando não somente os seus primeiros representantes, mas todos aqueles que participaram da dinâmica diaspórica a partir da configuração de um universo plural.

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Ari Frello
Thalyta Zuchinalli, possui graduação em História - Bacharelado e Licenciatura- pela Universidade do Extremo Sul Catarinense -UNESC (2010). Possui mestrado pelo Programa de Pós Graduação em História na Universidade do Estado de Santa Catarina- UDESC (2016).
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