Blues: nascimento, trajetória e contribuição na formação da identidade dos EUA #04


UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DO BLUES: DA DIÁSPORA À PLURALIDADE CULTURAL

O Blues e suas características híbridas

O Blues é tanto um estado de espírito quanto um sentimento - não necessariamente de tristeza e depressão, embora na maioria das vezes seja assim (HORSBAWN, 1990, p. 35)

Apresentar a pluralidade na formação cultural de uma determinada sociedade pode ser feita também através da música, apresentando sua diversa composição, o seu contexto, pode-se afirmar que ela não apresenta apenas uma característica ou uma raiz, pelo contrário, apresenta sincretismos. O que acaba tornando-a tão rica.

Na raiz do cantor de Blues estava à tradição do griot africano (uma mistura de menestrel medieval e do cantor da sinagoga). O grito que esses ex-escravos de origem africana liberavam nas plantações surpreendeu devido a sua diferença de tudo o que já havia ouvido antes. O canto era a expressão musical característica da África, mas o Blues não se resumia a isso, trazendo em sua composição instrumentos que também ajudaram a formá-lo, como o banjo, a guitarra e o piano.

Embora o Blues tenha apresentando elementos de raízes africanas, estas se transportaram para um outro contexto e esbarraram com diversas fontes musicais existentes. Com outra linguagem, o Blues não pluralizou apenas a música, mas a língua, denominada também de Negro-English dentro da cultura dos Estados Unidos.

Nessa mescla de experiências culturais que os povos diaspóricos vivenciaram no Atlântico, de sua dupla consciência, as populações de origem africana foram se reconfigurando. Logo, sua cultura, sem abandonar suas estruturas africanas, acabou incorporando elementos e estruturas da civilização europeia assentadas no cenário da América que integravam.

Os negros acabam se familiarizando com os instrumentos do ocidente, já que seus instrumentos não foram carregados consigo na viagem além-mar. Com harmonia, foram aos poucos remodelando a sua cultura. "Assim, músicas do Velho Mundo e o acervo do Continente Negro, incorporam-se em diversas linguagens até se concretizarem na música popular afro-americana e suas múltiplas ramificações (Samba, Blues, Rumba, Calendas, Jazz, Merengues, Calypso, Cumbia, etc...)." (VIDOSICH, 1975, p. 24).

As Worksongs são a expressão mais fácil de identificar essa mescla cultural, pois unem a base vocal dos cantos africanos com instrumentos europeus. Sendo assim, é dessa junção que surgiu o Blues rural, nascido nos campos de algodão e sofrendo alterações à medida em que alcança os centros urbanos. O mais curioso é que a base dessas letras de Blues se concentrava na superstição, baseada nos mojos (magia ancestral que veio da África), além de trazerem aspectos cotidianos da vida na América.

Assim como o Blues, o Jazz também foi uma grande invenção musical negra, que não teve tanta ligação com os campos de algodão e a rotina de trabalho, mas que também representou uma camada desfavorecida, e uma grande hibridização musical, julgada uma das maiores invenções musicais, mas que jamais teria existido sem o Blues, assim como muitas estruturas musicais do século XX, como por exemplo, o Rock N Roll.

Dos campos do Sul às cidades do Norte

Não, querido, o Blues não é só tristeza. [...] É uma maneira de relembrar. O Blues fala dos negros, do modo como vivemos, do modo como éramos tratados. De como sobrevivemos e estamos aqui. Mama Rene (COBB, 2004, p.24)

Sendo o Blues a voz dos oprimidos e um relato em forma de música de sua vida cotidiana, é importante contextualizarmos as transformações, as ambições dos cantores de Blues e a sua expansão no processo de transição, campo cidade.

Relatando um cotidiano de sofrimento, o Blues também trazia em suas canções a possibilidade de uma vida melhor, que só poderia ser encontrada na cidade, nos grandes centros, onde havia trabalho e maiores possibilidades para música e onde os negros sofriam menos discriminação.

No final do século XIX, alguns negros já tinham abandonado o sul. Em 1920, 109 mil negros já estavam em Chicago, cidade que nas plantações do sul era conhecida como a "terra prometida". Essa nova ideia sobre os estados nortistas era a promessa de uma vida melhor menos segregada. "Meus filhos estão na mesma escola que os brancos e não preciso me humilhar diante de ninguém". A própria Chicago fazia publicações divulgando empregos e a esperança de uma vida melhor.

Em 1917, 80% dos negros moravam no sul dos Estados unidos. Com o início da Primeira Guerra Mundial, uma das cidades mais procuradas era Chicago, que necessitava de mão-de-obra. Sendo assim, os negros do sul eram muito bem-vindos, principalmente porque era um período de expansão industrial. Foi nesse cenário que o Blues fez trilha para os negros na cidade. "No século XX, o sonho dos negros oprimidos do Sul, de conquistar uma vida melhor trabalhando nas fábricas do Norte, tornava-se realidade graças às ferrovias. Muitas vezes sem dinheiro, o negro pegava carona num trem de carga" (MUGGIATI, 1995, p. 30). Muitos Blues expressavam sons de trilhos em suas melodias, o que para aqueles cantores significava o trajeto e saída da lama do Mississipi para os grandes centros, como Chicago.

A crise econômica, os acidentes naturais, a praga do algodão (citada em muitos Blues), contribuíram para a migração dos negros às cidades do Norte. Com essa esperança de nova vida, o Blues foi uma forma de identidade para aqueles negros que se restabeleciam, uma identidade musical que relatava um cotidiano sofrido e esperançoso, que logo acabou se popularizando nos meios urbanos. 

Como o que era cantado por Cow Cow Davenport: "Estou cansado deste racismo, vou deixar esta cidade racista. Aos diabos minha negra alma, estou a caminho da doce Chicago." (COW COW DAVENPORT, apud MUGGIATI, 1995, p. 18). 

Mas o sonho não se tornou de todo realidade. A vida na cidade era dura e apresentava uma grande barreira racial que separava bairros. Essa vida era menos cruel, mas não era, ainda, digna e justa. Os músicos tocavam nas esquinas e calçadas, e muitas vezes o chapéu de arrecadação não lhes garantia alimentação. Foi também nessas ruas que a musicalidade bluseira foi se transformando, agregando aspecto musicais das grandes cidades. Mesmo o Blues saindo do campo e indo à cidade, o negro que o cantava continuava sendo negro, independente do lugar onde se estabelecia. 

Essa condição preconceituosa que o negro enfrentava pode ser identificada através dos cantores de Blues que tentavam buscar um espaço no mundo da música e também na sociedade. "As vidas de muitos cantores de Blues mostram as cicatrizes da indiferença, da opressão e do racismo. Os tornozelos de Lightnin' Hopkins exibem as cicatrizes reais dos grilhões das penitenciárias rurais" (OLIVER Apud MUGIATTI, 1995, p. 107). Nesse sentido alguns cantores expressam a razão do Blues, como Big Bill Broonzy em sua canção: Black, Brown And White.

Esta pequena canção que eu estou cantando é sobre as pessoas e você sabe que é verdade. Trabalhe se você é negro e terá para viver, isso é o que eles vão dizer para você. Eles dizem: "se você fosse branco estaria tudo certo, se você fosse marrom fique por perto, mas se você irmão é negro; volte." Eu estava em um lugar uma noite, eles estavam todos se divertindo, eles estavam todos comprando cerveja e vinho, mas eles não queriam me vender nenhum. Eles disseram, "se você fosse branco, estaria tudo certo, se você fosse marrom, fique por perto, mas se você irmão é negro, hmm, volte." Eu estava do lado de um homem trabalhando, isto é o que significou. Eles lhe pagavam um dólar por hora, e eles estavam me pagando cinquenta centésimos. Eles disseram: "Se você fosse branco estaria tudo certo, se você fosse marrom fique por perto, mas como você irmão é negro; volte." Eu fui a um centro de emprego, eu tenho um número, entrei na fila. Eles chamaram o número de todos, mas nunca fiz o meu apelo. Eles disseram: "Se você fosse branco estaria tudo certo, se você fosse marrom fique por perto, mas como você irmão é negro; volte." Espero a doce vitória, com o meu arado e enxada. Agora eu quero você para me dizer irmão: o que você vai fazer sobre o Jim Crow, velho? Eles disseram: "Se você fosse branco estaria tudo certo, se você fosse marrom fique por perto, mas como você é negro; volte.

Em 1920, as portas abriram-se e "pareciam favorecer" o Blues dos negros oprimidos do sul; uma explosão tecnológica dava espaço a nova música, e as Race Records, discos destinados à comunidade negra, apareceram no cenário da música. A grande força dessas Race Records era o Blues urbano interpretado por cantoras.

O Blues da cidade tratava de outro contexto, diferente do Blues rural, mas ainda assim era uma música negra identitária, que tinha grande influência não pelas gravações, mas pelos shows que essas cantoras e cantores de Blues faziam. Assim, o Blues urbano relatava mais as experiências da cidade, a vida amorosa e sexual, as confusões em que se metiam esses cantores negros, que tinham um cotidiano tumultuado e assumiam isso em suas falas e canções, como demonstra um fragmento do Blues cantado por Leadbelly: "Nunca um branco foi capaz de fazer um Blues, porque não tem nada com que se preocupar, não tem problemas do tamanho dos nossos" (LEADBELLY, apud MUGGIATI, 1995, p. 38). Nesse aspecto, o Blues se identificava com uma vida dura que o negro possuía. 

O Blues rural que emergiu do Delta do Mississipi para o mundo, no começo do século, era uma música primitiva gutural, sexual e aterradora. Era a música de homens e mulheres calejados, sobreviventes de um mundo hostil, que viviam num lugar perigoso, onde sua integridade era frequentemente ameaçada. Por falar de assuntos tão espinhosos quanto delicados - como o amor. (HOBO, BLUES & RHYTHM MAGAZINE)

Nesse cenário, que se configurou desde a escravidão e se estendeu ao pós abolição, a música foi, talvez, a forma de expressão mais importante em que os negros, através do Blues, demarcaram sua identidade dentro da comunidade a que pertenciam, observando-a como marca das gerações negras.

Blues e identidade

O Blues é resultado de muitas experiências e reconfigurações plurais que aconteceram no processo diaspórico. Ele representa as novas identidades modernas híbridas e impuras, que rompem com uma ideia de identidade conservadora e pura. Como cita Hall: "As velhas identidades, que por muito tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado" (HALL, 2001, p. 28).

O Blues é a representação de vários sujeitos que se inspiraram nos referenciais africanos e, ao mesmo tempo, tiveram no cenário da América, dos Estados Unidos, das influências culturais decorrentes da diáspora, elementos para a sua construção identitária, múltipla, plural, assentada na dupla consciência. 

O contato com o outro permitiu que novas identidades fossem construídas, e mesmo que, em um primeiro momento, as influências que as identidades pessoal ou comunitária recebem não sejam percebidas, elas já fazem parte dessa formação de identitária.

No caso do Blues, a identidade que se manifesta devido ao contato com o outro e a maneira de como ele é projetado na sociedade, sofreu várias influências de várias culturas. Entendê-lo como uma criação essencialmente africana rompe definitivamente com a ideia de "impureza" e de deslocamento do sujeito moderno. "A Identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento" (HALL, 2001, p. 53).

Colocar a identidade no âmbito cultural, como é o caso do Blues, é uma tarefa difícil que exige, no mínimo, o entendimento de que as identidades sempre sofrem constantes adaptações e estabelecem relações dinâmicas na sociedade, principalmente na relação com o outro. Segundo Hall (2004, p. 71) "Ambivalência e antagonismo acompanham cada ato de tradução cultural, pois o negociar com a 'diferença do outro' revela uma insuficiência radical de nossos próprios sistemas de significados" (HALL, 2004, p. 71).

Inserir-se num referencial identitário é necessidade do ser humano, é uma forma de se proteger na sociedade, sentir-se participante, seguro. 

A condição de homem exige que o indivíduo, embora exista e haja como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, ao qual ele pode ate não dar um nome, mas que ele reconhece instintivamente como seu lar (SCRUTON, Apud HALL, 1986, p. 156).

No contexto da escravidão, os escravos, e depois os ex-escravos, sentiam essa necessidade de inserção num referencial identitário, de pertencimento. Através da escravidão conseguiram formar, criar possibilidades, que os amparassem ou que os unificassem, e através da música elaboraram essa consciência das identidades, do ser participante de algum aspecto social identitário. 

O negro nunca foi enxergado como parte integrante da sociedade. Ao contrário, isso lhe foi negado pela classe dominante. Nesse sentido, havia a necessidade de se inserir em algum aspecto da sociedade, e a partir dessa necessidade, foi desenvolvendo suas próprias formas de manifestação cujos elementos constitutivos eram bastante diversos.

Muitas sociedades estabelecem uma identidade nacional, em que as pessoas são enquadradas desde o nascer, mas que não serão reconhecidas como identidades definitivas, imutáveis para sempre.

A identidade nacional e homogeneizadora e bloqueia o contato, teoricamente, com outras identidades que constroem a nação, mas que muitas vezes não fazem parte da política dominante. [...] A identidade nacional é também muitas vezes simbolicamente baseada na ideia de um povo puro, original. No entanto uma nação não se forma apenas de indivíduos de uma cultura pura, mais sim podemos perceber a mescla de culturas dentro de uma sociedade nacional" (HALL, 2001, p. 53).

Portanto, mesmo que a as identidades das populações de origem africana não façam parte do processo na construção da identidade nacional, pregada e existente, ela não deve ser negada, pois ela existe e espalha suas características pela cultura popular, onde algum grupo se identifica com ela.

As identidades nacionais são generalizadoras e forçam integrações que passam por cima das diferenças entre as formações de uma nação. É diante dessas políticas formadoras de identidades nacionais que a etnia negra é esquecida e integrada nas culturas colonizadoras como se a formação de uma nação não possuísse diversidade. Sobre a problemática das identidades nacionais, Hall enfatiza: 

Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um dispositivo que representa a diferença como unidade ou identidade. A diferença entre as culturas nacionais é que irão formar esta unidade e identidade unificada. Elas são atravessadas por profundas divisões e diferenças internas, sendo unificadas apenas através do exercício de diferentes formas de poder cultural. No entanto são representadas como unificadas (HALL, 2001, p. 62).

Nesse sentido, toda identidade deve ser entendida como um processo composto por diversidade, assim como as identidades negras não devem ser avaliadas como puramente africanas, como não são. O Blues representa esses hibridismos culturais, composto por diferenças, mas que se unifica enquanto identidade dos negros oprimidos na sociedade Estado Unidense.

[...] na cultura popular negra. Estritamente falando, em termos etnográficos, não existem formas puras. Todas essas formas são sempre o produto de sincronizações parciais, de engajamentos que atravessam fronteiras culturais, de confluência de mais de uma tradição cultural, de negociações entre posições dominantes subalternas [...]. Essas formas são sempre impuras (HALL, 2003, p. 325).

É com esse olhar que se deve enxergar a parte contribuinte dos negros na formação da cultura e da identidade dos Estados Unidos, percebendo que a construção de uma identidade não deve limitar-se a apenas uma etnia, grupo, categoria social, mas sim a diferenças que convivem em um mesmo contexto e que estão diretamente relacionadas, podendo estar em constante processo de modificação.


Ari Frello
Thalyta Zuchinalli, possui graduação em História - Bacharelado e Licenciatura- pela Universidade do Extremo Sul Catarinense -UNESC (2010). Possui mestrado pelo Programa de Pós Graduação em História na Universidade do Estado de Santa Catarina- UDESC (2016).
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