Blues: nascimento, trajetória e contribuição na formação da identidade dos EUA #03


UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DO BLUES: DA DIÁSPORA À PLURALIDADE CULTURAL

Reconfigurações culturais através do Atlântico

Diante de todo o processo vivenciado pelas populações de origem africana no Novo Mundo, pode-se afirmar que eles criaram e reconfiguraram uma maneira de se estabelecerem em terra estranha, compondo sua identidade de forma híbrida e peculiar. Nesse espaço desconhecido, os negros também puderam mostrar sua importância na construção desse Novo Mundo, apresentando expressões não superficiais e sim absolutas na sociedade Americana, o que lhes foi negado pela cultura moderna racista (GILROY, 2001).

A cultura negra apareceu no processo da escravidão das Américas, em um espaço denominado por Paul Gilroy como Atlântico Negro. Segundo o autor, foi nesse cenário que os negros passaram por diversas experiências e alimentaram suas criações, possibilitando novas formas de se estabelecerem através múltiplas trocas culturais. Estas experiências se produziriam desde o tráfico negreiro até as mais diversas vivências de encantamento e estranhamento em viagens e exílios entre a América, a Europa e a África (GILROY, 2001). 

Sob a tônica das trocas híbridas e das experiências, é importante salientar que se produz uma cultura "impura" diante das relações, uma cultura aberta e heterogênea, que se reconfigura na América e acaba se constituindo como formadora de identidade cultural. Stuart Hall coloca que: "Em condições diaspóricas, as pessoas geralmente são obrigadas a adotar posições de identificação múltiplas e hifenizadas" (HALL, 2003, p.72). Nesse sentido, é a partir da diáspora que as manifestações culturais das populações de origem africana se desenvolveram, foram criadas e recriadas em novos cenários, entre eles, o continente americano.

Para Gilroy (2001, p.85) "as culturas negras não são atributos do passado africano, mas sim inovações, as vezes até subversão." Essa afirmação permite que se perceba a impureza já citada na formação de novas culturas ocidentais, que não exibem a transportação da cultura africana intacta, mas recriações a partir dela. 

Mas para compreendermos como esse processo se deu no âmbito de um entendimento sobre as manifestações culturais das populações de origem africana, é importante não nos limitarmos apenas a sua construção, mas aos caminhos que percorreram ao seu surgimento, os caminhos que a diáspora forjou e que a escravidão alimentou.

Hall enfatiza que:

Não importa o quão deformadas, cooptadas e inautênticas sejam as formas como os negros e as tradições e comunidades negras pareçam ou sejam representadas na cultura popular, nós continuamos a ver nessas figuras e repertórios, aos quais a cultura popular recorre, as experiências que estão por trás delas (HALL, 2003, p. 324).

Nesse sentido, enxergar a identidade das populações de origem africana, considerando-a apenas sob o aspecto de seu enraizamento, acaba por esfarelar o objetivo dessa identidade construída, que se preocupa mais como uma forma de mediação e movimento dentro do contexto em que passou a se inserir. Ou seja, a importância que essas identidades devem assumir não é apenas a de relembrar uma cultura africana, mas mostrar o desenvolvimento e a capacidade de recriação dessas populações de origem africana nos Estados Unidos.

Torna-se complexo avaliar o imaginário desses povos diaspóricos no processo transatlântico, pois os mesmos acabaram desenvolvendo uma espécie de dupla consciência, inserindo-se em expoentes identitários que parecem separados e distintos, mas que ao mesmo tempo estão ligados. Isso porque o conceito de dupla consciência sugere que no contexto de nossa modernidade, reflexo do processo da diáspora, as identidades são construídas considerando elementos múltiplos que a constituem. 

Nesse sentido, a dupla consciência faz com que sujeitos, embora marcados por referências comuns, busquem também a sua identificação a partir de uma perspectiva mais ampla, a exemplo das populações de origem africana que podem ter nas raízes africanas um segmento que as defina e, ao mesmo tempo, na construção de sua subjetividade no cenário americano, um outro, relacionado ao desejo e à necessidade de pertencimento a este lugar, estrutura ou sociedade, por de fato se vislumbrarem como parte dela, ainda que marginalizados.

Buscando compreender essas reconfigurações que através do Atlântico se firmaram nas Américas, é importante colocarmos em questão que essas novas criações foram se estabelecendo no território americano e deixando seus rastros, seja na cultura popular dos países, ou na formação de identidades de seus povos.

A cultura popular das populações de origem africana é facilmente encontrada nas identidades Americanas, tanto em seu cotidiano quanto no processo de extensão além Atlântico.  Essas populações criaram diversas expressões e manifestações, ou até mesmo buscaram se aproximar de sua cultura africana, como forma de sobrevivência no Novo Mundo. Contudo, os elementos dessa cultura criada sob a tônica da diáspora, jamais foram estáticos, presos a um único referencial, mas ao contrário, estiveram imersos em um conjunto inumerável de influências. 

Hall avalia que

[...] uma vez que fomos excluídos da corrente dominante – eram frequentes os únicos espaços performáticos que nos restavam e que foram sobre determinados de duas formas: parcialmente por suas heranças, e também, determinados criticamente pelas condições diaspóricas nas quais as conexões foram forjadas. A apropriação, cooptação e rearticulação seletiva de ideologias, culturas e instituições europeias, junto a um patrimônio africano. (HALL, 2003, p. 324).

Mas se a formação cultural das populações de origem africana nas Américas apresentou-se em diferentes caminhos, com diferentes contribuições, ela foi resultado de uma mesma experiência: a da escravidão, pano de fundo central ao processo diaspórico. Neste cenário da diáspora, as manifestações culturais dos povos de origem africana escravizados, assim como seus descendentes, desdobraram-se numa contracultura gerada (contra a cultura branca predominante), que acabou por representar a parte excluída da sociedade. Essa contracultura pode ser entendida, nesse sentido, também como um elemento de resistência à condição a que muitos foram submetidos por meio da escravidão, delineando as muitas faces das estratégias utilizadas pelos negros na reconquista da condição da humanidade que lhes foi negada.

Alguns autores, como Stuart Hall, consideram e julgam que a música foi uma das mais expressivas formas de manifestação da população de origem africana no que se refere às táticas de resistência. O autor enfatiza a força que a musicalidade teve dentro da dinâmica da diáspora, sobretudo a partir de seu viés contra cultural. Relacionando a música às formas de expressão e identificação dessas populações de origem africano cenário norte-americano; observando esta forma de manifestação artística sob a tônica da contracultura, torna-se interessante avaliar algumas criações musicais negras que surgiram no processo do pós-abolição. Isso porque, a ideia de "nação negra", neste contexto, começou a se intensificar, chocando-se também com uma vida social pós escrava, racializada e preconceituosa que os ex-escravos encontraram.

A escravidão e o Blues

O Blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O Blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do sínico. O Blues é a emoção pessoal do indivíduo que encontra na música um veículo para de expressar. Mas é também uma música social: o Blues pode ser diversão, pode ser música para dançar e para beber, a música de uma classe dentro de um grupo segregado. O Blues pode ser a criação de artistas dentro de uma pequena comunidade étnica, seja no mais profundo sul rural, seja nos guetos congestionados das cidades industriais. O Blues é a canção casual do guitarrista na varanda do quintal, a música do pianista no bar, o sucesso do rhythm and Blues tocando no jukebox. É o duelo obsceno de violeiros na feira ambulante, o show no palco de um inferninho nos arredores da cidade, o espetáculo de uma trupe itinerante, o último número de uma estrela de discos. O Blues é todas essas coisas e todas estas pessoas, a criação de artistas famosos com muitas gravações e a inspiração de um homem conhecido apenas por sua comunidade, talvez conhecido apenas por si mesmo. (OLIVER, Apud MUGGIATI, 1995 p. 27)

Partindo da análise sobre a diáspora e sobre reconfigurações que foram geradas a partir do Atlântico e da escravidão, propõe-se apresentar uma nascente musical, que se julga ter grande ligação, senão toda, com o cotidiano escravo e ex-escravo: o Blues. "O ponto importante a respeito do Blues é que ele marca uma evolução não apenas musical, mas também social: o aparecimento de uma forma particular de canção individual, comentando a vida cotidiana" (HOBSBAWN, 1990, p. 56).

Para alguns autores, como Paul Gilroy e Stuart Hall, a música se caracterizou o maior expoente de expressão da cultura das populações de origem africana. Nesse sentido, o Blues se caracterizou como uma nascente musical de grande influência, tanto na formação identidade de uma "nação negra" como na formação dos referenciais identitários dos Estados Unidos.

Ter uma aproximação com a história do Blues é ter uma aproximação com a história da não passividade das populações de origem africana devido às condições a que foram submetidas a partir da escravidão, da diáspora, do pós-abolição.  Além disso, é dar evidência à criatividade desses personagens, compreender como uma nação é construída por vários recortes culturais, assim como uma colcha de retalhos.

Partindo da gênese do Blues, é preciso identificar que antes de uma música que se globalizou, o Blues era uma espécie de lamento que as populações de origem apresentavam na sua vida nas plantations e nas fazendas norte-americanas, sobretudo, nos Estados do Sul; um lamento comum para aquele tipo de vida em que aquelas populações se encontravam.

Segundo Baraka, "Os gritos eram antes de tudo, lamentos estridentes. Eram também crônicas, mas crônicas de um modo de vida tão miserável que careciam de universalidade necessária a qualquer forma musical duradoura" (BARAKA, Apud GENOVESE, 1988, p. 486).

Antes da abolição da escravatura nos Estados Unidos, em 1865, a América do Norte recebia mais negros do que nunca. Esses eram a ferramenta de trabalho essencial para os campos de algodão nos Estados do Sul dos Estados Unidos. Como já foi colocado, a vida escrava era miserável e negava direitos básicos a esses trabalhadores, e a única forma de se sentirem vivos mais humanizados, naquele contexto, foi através de sua voz. 

O povo da diáspora negra tem, em oposição a tudo isso, encontrado forma profunda, a estrutura de sua vida cultural na música. [...] Pense como essas culturas têm usado o corpo como se ele fosse, e muitas vezes foi, o único capital cultural que tínhamos. Temos trabalhado em nós mesmos como em telas de representação. (HALL, 2004, p. 324).

Os negros não podiam fazer nada que tivesse ligação com sua cultura africana, pois os brancos tinham medo de que isso pudesse resultar numa forma de união, de identificação enquanto uma nação negra existente. Sendo assim, o único espaço que sobrava para os negros expressarem sua voz era no momento do trabalho. 

O Blues nasceu no Mississipi, no lamacento Delta do rio Yazoo, que gerou as terras ricas para as plantações de algodão e o trabalho escravo. "A região do Delta do Mississipi, com seu interior anglo-saxão protestante, seus braços se esticando até o Caribe espanhol, e sua cultura francesa nativa, combinaram todos esses ingredientes como nenhuma outra região" (HOBSBAWN, 1990, p. 53). Nasceu assim a semente que introduziria o Blues em um cenário mais amplo, as chamadas work-songs (canções de trabalho).

Não parece existir maneira de descobrir quem foi o primeiro cantor de Blues como o conhecemos, mas ele é uma forma de canção específica e em algum lugar, provavelmente numa cabana do Delta, um cantor conhecia as melodias e os versos improvisados das Work-Songs do Mississipi e decidiu cantá-las de uma maneira nova, e assim nasceu o Blues. (MUGGIATI, 1995, p. 11).

Embora tenham existido outros estilos de música negra, como os spirituals (canções negras criadas a partir da Bíblia), o Blues não deriva desse processo, teve uma característica em sua musicalidade diretamente ligada às worksongs, que nada mais eram do que gritos exagerados. Ao que parece, esses gritos muitas vezes serviam de comunicação nos campos dos Estados do Sul. "Assim, intimamente fundido com o trabalho, vai surgindo e se enriquecendo, em terras americanas, o acervo musical africano." (VIDOSSICH, 1975, p. 23).

A própria designação da palavra Blues traz um pouco de sua realidade no cenário americano. Seu significado passou por várias transformações na história, e somente a partir de 1960, momento de expansão do Blues, ele ganhou a conotação de tristeza. Contudo em 1862, no diário de uma professora de escravos negra, a palavra Blues parece relacionada a mistérios. "(...) quase todo mundo estava alegre ou feliz, eu, no entanto voltei para casa com os Blues" (MUGGIATI, 1995, p.16). Em vida no exército, de um tal de Gregg, aparece o desabafo: "Foi muito bom para mim, aquele dia em que pude enxergar o lado mais iluminado do caso e evitar um ataque severo dos Blues." (MUGGIATI, 1995, p.16).

Gilroy afirma que a música negra é o principal símbolo da autenticidade racial, e que a música também desempenhou um papel de contracultura distintiva da modernidade, relatando a vida vivida pelos negros no Novo Mundo. "Para compreendê-las é necessário realizar uma análise do conteúdo das letras e das formas de expressão musical, bem como das relações sociais ocultas nas quais essas práticas de oposição profundamente codificadas são criadas e consumidas" (GILROY, 2004, p. 95).

A biografia de muitos Bluesman (homens do Blues) mostra como a vida daqueles cantores era miserável e como encontravam na música uma forma de mudança, de ruptura com aquele contexto do Mississipi. Mas a entrada desses negros no mundo branco foi difícil e muitas vezes rotulada pelo próprio mercado fonográfico. 

O processo da musicalidade negra deve ser avaliado, sobretudo, no seu contexto social. É preciso perceber em que contexto ele aparece e qual sua importância nele. "Essa cultura musical fornece uma grande dose de coragem necessária para prosseguir vivendo no presente, ela é, ao mesmo tempo, produção e expressão dessa 'transvalorização de todos os valores' precipitada pela história do terror racial no Novo Mundo." (GILROY, 2004, p. 94).

A música negra, o Blues, nasceu após a abolição e retratou o cotidiano do ex-escravo que ainda vivia em condições miseráveis. Foi através dessa manifestação musical que apareceu a busca de metas, como a justiça não racializada. "Na atmosfera opressiva do delta, era natural que os negros se voltassem para o Blues. Ali vivia uma densa população afro-americana, pobre e isolada, forçada a criar suas próprias diversões" (MUGGIATI, 1995, p. 20).

A "nação negra" se manifestou com mais força quando ganhou o espírito de comunidade, de necessidades que só podiam ser percebidas na música e cuja ideia de luta escrava pôde ser representada através dessa forma de manifestação. Essa expressão e política cultural só pôde nascer diante da memória da escravidão.

A expressão artística, expandida para além do reconhecimento oriundo dos rancorosos presentes oferecidos pelos senhores como substituto simbólico para a liberdade da sujeição, torna-se dessa forma, o meio tanto para a auto modelagem individual como para a libertação comunal. (GILROY, 2004, p. 100).

É necessário reforçar que a música negra não é apenas uma forma criativa de os negros aparecerem no contexto em que viviam, não é apenas uma prática artística, como tem sido observada, mas é também através da musicalidade que a cultura popular vai trazendo novidade para a sociedade Americana. 

Em sua expressividade, sua musicalidade, sua oralidade e na sua rica, profunda e variada atenção à fala; e suas inflexões vernaculares e locais; em sua rica produção de contra narrativas; e sobretudo, em seu uso metafórico do vocábulo musical, a cultura popular negra tem permitido trazer à tona, até nas modalidades mistas e contraditórias da cultura popular, elementos de um discurso que é diferente - outras formas de vida, outras tradições de representação. (HALL, 2003, p. 324).

Entender o lugar e a importância das expressões musicais das populações de origem africana no mundo Atlântico vem acompanhada do entendimento acerca de como os músicos a produziram e a produzem, de como ela foi e é percebida, tanto no mundo negro, como no branco; de como ela foi e é percebida na cultura popular, inclusive como forma de resistência e luta, de identificação de uma comunidade, nação (nação negra) oprimida.


Ari Frello
Thalyta Zuchinalli, possui graduação em História - Bacharelado e Licenciatura- pela Universidade do Extremo Sul Catarinense -UNESC (2010). Possui mestrado pelo Programa de Pós Graduação em História na Universidade do Estado de Santa Catarina- UDESC (2016).
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