Blues: nascimento, trajetória e contribuição na formação da identidade dos EUA #02


UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO: TRAJETÓRIAS E ESPAÇOS

A trajetória da escravidão no mundo ocidental

A escravidão tem uma história antiga no mundo e aconteceu por diferentes motivos e de diferentes formas desde as primeiras formações de clãs e comunidades humanas. Para entender em que contexto social ela surgiu, é preciso entender qual a sua finalidade nas diferentes sociedades, para uma possível compreensão de que justificativa cada sociedade acreditou ser o bastante para inferiorizar outras pessoas. Cada sociedade é única e estabeleceu diferentes relações entre sociedade e escravidão. Como avalia Meltzer (2004, p. 18): "Em qualquer sociedade, a escravidão não escapa à influência de uma dada cultura. Obviamente, a escravidão também influencia a cultura, mas essa é o molde em que é modelada a escravidão." 

Desde o estabelecimento das sociedades mais remotas, a escravidão esteve presente - exceto com os povos judeus, de forma muito diferente de como aconteceu no início dos séculos XV e XVI. Contudo, a condição do que é ser escravo não mudou. No mundo ocidental, o escravo era visto como algo, como uma coisa, um objeto; fonte de trabalho barato e era resultado de um aprisionamento, que logo se transformou em uma propriedade de alguém que detinha direitos totais sobre o mesmo. Essa condição era tida como algo natural, não havia senso de culpa nessa relação entre senhor e escravo. Essa mentalidade era comum para os senhores, pois os escravos sabiam que eram escravos e que não eram favorecidos, mostrando em diferentes contextos históricos suas reivindicações de melhora social, o que demonstra que a condição escrava não era vista como natural por eles. Nesse contexto, o escravo poderia ser qualquer pessoa que não se identificava com um grupo, comunidade ou império dominante, era alguém fora do padrão, tido como bárbaro.

A escravidão oscilou na história, sendo mais intensa em alguns períodos e menos em outros. A guerra proporcionava o acúmulo de escravos e a troca deles. Contudo, a preocupação com essa instituição, como caracteriza Meltzer (2004) começou já na Antiga Grécia, por parte de alguns poetas, filósofos e dramaturgos. Mas essa "preocupação" não se deu num sentido unânime e em favor dos escravos, apenas foi caracterizada como problemática para reflexão. 

Na concepção de Platão, por exemplo, a escravidão deveria ser restrita aos bárbaros. Já para Aristóteles o escravo era, por natureza, tido como submisso ao senhor, sendo este alguém que o ajudava e o protegia. Contrariando essa visão, no século IV a.C. um poeta grego de nome Filemon considerava a escravidão como algo não tão normal. Embora para ele "[...] um indivíduo possa ser escravo, ele não é menos do que tu, senhor, ele é feito da mesma carne. Ninguém é escravo por natureza, o destino é que escraviza o corpo" (FILEMON, Apud MELTZER, 2004, p. 84).

A ideia de que o escravo era um modo de se ganhar dinheiro se deu no século IV a.C., através dos romanos, sendo o padrão básico da escravidão ocidental. Os escravos, na antiguidade, tinham diferentes afazeres. Podiam ser domésticos, públicos, e tinham um espaço mais largo na sociedade, sob algumas circunstâncias, podendo exercer profissões variadas, entre elas as de médico, cirurgião, enfermeiro, alfabetizadores dos filhos de seus senhores. Contudo, não foi raro a existência de movimentos de contestação, já que o sistema escravista também usava como mecanismo de coerção, a punição, manifestada sob diferentes formas, e por vezes bastantes cruéis.

Nesse sentido, táticas contestatórias se deram de formas diversificadas, inclusive através de rebeliões coletivas. Essas táticas de enfrentamento se caracterizam importantes eventos para se refletir acerca de uma historiografia mais tradicional que insiste em evidenciar o sujeito escravo como coisa e não como agente social.

A escravidão das populações de origem africana nas Américas

Ainda no mundo ocidental, a queda do Império Romano teve como desdobramento a redução significativa do sistema de escravidão. No entanto, ele não deixou de existir no contexto do período medieval, ao lado de outro sistema de trabalho, a servidão. Foi, contudo, no bojo das expansões ultramarinas europeias que o uso mais intenso da mão-de-obra escrava ressurgiu. Essa população foi retirada quase que exclusivamente da África, sobretudo em função das representações concebidas sobre seus povos, e transportada para as colônias europeias nas Américas, sendo utilizada para diferentes formas de trabalho forçado, e sob as mais duras condições de sobrevivência. 

Em um período de transição entre Idade Média e Idade Moderna, outra forma de escravidão, baseada em diferenças culturais também, mas, sobretudo, físicas nasce, uma nova forma de escravidão dessa vez; baseada na cor, em 1530 surgem as primeiras teorias sobre a inferioridade do negro. Catherine Coquery (2004) reflete sobre a imagem negativa que foi construída sobre os negros ao longo da história. Segundo a autora, na literatura árabe, por exemplo, estes aparecem como malcheirosos, de fisionomia repulsiva, sexualidade descontrolada, tendo sinais de selvageria e debilidade. Analisa, ainda, a posição com que a Bíblia aborda a problemática da cor negra enquanto instrumento de punição, tendo como exemplo a passagem que se refere à maldição de Can.

Tendo por fundamento princípios religiosos, mais uma vez a escravidão foi incorporada como sistema de trabalho legítimo. Com o apoio da Igreja e tendo como justificativa a redenção dos pecados, ela foi concebida pelos povos europeus e exercida sobre os africanos negros.

A trajetória dos escravos africanos nas Américas não é desconhecida. O escravo foi a mão-de-obra que sustentou por séculos a economia de países que cresciam no cenário mundial e que nasceram desse processo, como é o caso dos Estados Unidos e de muitos outros.

Quando Meltzer afirma que a sociedade influencia o sistema de escravidão estabelecido, é preciso compreender o contexto de cada época, sobretudo o sistema econômico existente em determinada sociedade. Sabendo que a escravidão é uma fonte para obter ganhos econômicos, é necessário compreender a dinâmica do sistema, nesse contexto o sistema que vinha crescendo e predominando os grandes estados modernos. O surgimento de um mercado mundial, o desenvolvimento de novos gostos de manufaturas, que precisavam de matérias-primas não europeias, tudo isso incentivou a expansão de um sistema colonial.

A ideia de acúmulo de riquezas nessa época era a mentalidade dirigente da nobreza, a mão-de-obra escrava era a única fonte para buscar e cultivar essas riquezas. O tráfico escravo violentamente crescente no Atlântico (século XVI) deixou desastrosas consequências no continente africano, e no estilo novo de vida daquele povo não só na África, mas na América também. Esse processo desastroso era frequente na mentalidade e nas ações europeias, os africanos não foram as únicas vítimas desse processo. Os fazendeiros do Novo Mundo, de acordo com Eric Willians (Apud MELTZER, data, 271), "[...] conseguiram o que queriam, e os negros" foram roubados na África‟ [...] para trabalhar nas terras roubadas dos índios da América."

O processo de exterminar culturas foi praticado com frequência e naturalidade desde a antiguidade, justificando-se pela soberania de algumas culturas sobre outras.

Escravidão nos Estados Unidos

A América foi construída pelos ombros escravos, sobretudo dos escravos africanos. Mas a história escrava das populações de origem africana nos Estados Unidos é tardia, somente no século XVII, quando chegaram africanos à Virgínia, mas não com a função de escravos, pois as plantations não existiam ainda. 

Em 1640 aparecem os primeiros registros de escravidão das populações de origem africana, pois antes o trabalho efetuado era por servos ingleses e índios. A escravidão no norte dos Estados Unidos apareceu mais cedo do que no Sul, porém era menos rude, devido a cultura da plantation ser menor do que nas colônias do Sul, a pequena mão de obra contratada supria as necessidades da plantação. Decretos de proibição a escravidão já existiam por parte de colônias do Norte, sobretudo, mas a ideia de lucro atropelava a ideia de liberdade e esses decretos não eram respeitados. Contudo, em quase todos os Estados Unidos, a escravidão era muito forte; impregnada nos padrões sociais, era uma instituição legal nas colônias e tinha sua essência fundamentada na hereditariedade já no século XVII. 

Existia no pensamento de alguns senhores a visão de que a escravidão era algo errado, mas não havia mobilização para a libertação desses escravos, pois a pressão que o sistema impunha era mais convincente. Os Estados do Norte vivenciaram a revolução da liberdade mais cedo, mas para os estados sulinos a libertação dos escravos não seria boa, a constituição dos estados do Sul permitia a escravidão para a manutenção da economia, contudo, a palavra liberdade já aparecia na Constituição dos Estados Unidos. 

No século XVIII, com o aumento do consumo de algodão na Europa, a demanda pelo produto disparou, aumentando o uso de mão-de-obra escrava. Vinte mil escravos foram introduzidos na Geórgia e na Carolina do Sul, três quartos da produção mundial vinha do sul dos Estados Unidos. (MELTZER, 2004)

Os escravos, ao contrário do que parece, não se estabeleciam apenas no campo, mas nas cidades também, executando diversas funções. Sempre foi preocupante, aos senhores, controlar os escravos, a ideia da humanidade escrava era percebida, muitas vezes, a partir de formas de conduta contrárias à ordem escravocrata estabelecida. 

Após o século XIX, leis específicas para negros foram surgindo, muitas delas negando-lhes os direitos e imputando a eles caracteres depreciativos. Segundo Meltzer (2004), o Black Code negava severamente a liberdade e a expressão pessoal: "Negros serão negros em astúcia, estupidez e teimosia [...]. É impossível pensar em mudar sua natureza, a não ser pelo chicote, que é uma ótima instituição para esticar a pele dos negros e entediá-los" (MELTZER, 2004, p. 415).

Assim, todos os direitos básicos lhes eram negados: casamento, religião, alfabetização, instruções de trabalho. Isso porque, era considerado perigoso ter um escravo inteligente, pois assim poderiam rebelar-se diante de sua cruel situação, saindo do controle dos senhores brancos.

O modo como a historiografia tradicional sobre a escravidão procurou retratar o escravo foi caracterizada por certo romantismo. Isso porque, muitas vezes, fez dele um ser pacífico e conformado com a situação em que vivia. 

Através de novas abordagens, foi possível verificar que, no conjunto da história do escravismo, inúmeros sentimentos fizeram com que os escravos resistissem às situações a que eram submetidos. O medo, o ódio, a servidão, a falta de liberdade, a punição se desdobraram em táticas de enfrentamento manifestadas através de agressividade, rebelião, suicídio, assassinato, auto-mutilação, fuga, só para citar alguns exemplos.

[...] como todas as vítimas da opressão, os escravos norte-americanos reagiam de várias maneiras à sua condição. Alguns aceitavam a posição inferior que o homem branco lhe atribuía. Alguns tentavam adaptar-se à cultura do proprietário para conquistar um lugar nela. Alguns fechavam os olhos à realidade do dia-a-dia, escondendo-se no seio da religião. Alguns nunca se entregavam à escravidão, mas sempre lutavam contra ela (MELTZER, 2004, p. 428).

Muitas revoltas de escravos ocorreram no sul dos Estados Unidos em suas buscas pela liberdade, sobretudo, após as proibições da escravidão nos Estados do Norte. As leis de "proteção" para escravos eram precárias, ainda no século XIX, mas a consciência racial dos povos escravizados parecia crescer à medida em que os negros se organizavam, de forma independente, ou por meio das igrejas, fraternidades e convenções. A luta também contava com a participação de brancos, mas havia um embate entre negro e branco, mesmo que esse branco fosse abolicionista. Os abolicionistas negros, segundo Meltzer (2004, p. 443), "[...] insistiram que não seriam beneficiários passivos dos esforços do homem branco. Essa era uma luta do homem negro, e ninguém mais bem equipado para liderá-la que ele próprio." Assim, já em 1832 havia uma sociedade antiescravista organizada na Igreja Batista em Boston que lutava pela liberdade dos escravos.

Genovese enfatiza que, a escravidão norte americana foi uma das mais cruéis, caracterizando-a como um dos maiores crimes da história. A partir disso, avalia o esforço das populações de origem africana para sobreviverem, tanto em nível espiritual quanto físico naquele novo contexto em que estavam se inserindo. A relação entre negro e branco gera um aspecto, muito interessante, que ele julga como nascimento de uma relação paternalista. A ideia do servo feudal que acabou moldando a ideia de paternalismo nos estados do Sul.

O paternalismo sulista, como todos os demais paternalismos, poucos tinha a ver com a ostensiva benevolência [...] ele surgiu da necessidade de disciplinar e justificar, moralmente, um sistema de exploração. Estimulava a bondade e a afeição, mas também, simultaneamente, a crueldade e o ódio. A distinção racial entre senhor e escravo acentuava a tensão inerente a uma ordem social justa. (GENOVESE, 1988, p. 22)

Apesar de brancos e negros serem povos diferentes compartilhavam suas vidas num mesmo contexto, mas com grandes diferenças. A escravidão, para Genovese (1988, p. 13) "[...] principalmente no ambiente da plantation e em seu aspecto paternalista, tornou os sulistas, brancos e negros, um único povo, ao mesmo tempo em que os dividia em dois." Contudo, o paternalismo acabou por gerar uma resistência coletiva aos senhores, essa ideia de proteção acabou conquistando um discurso de defesa de sua gente, através dos líderes negros. 

Parece paradoxal a ideia de paternalismo, pois, segundo Genovese, gerou dois sentidos. O paternalismo acabou gerando uma identificação com determinada comunidade, a do seu senhor, não oportunizando os escravos para de identificarem com sua classe escrava. Os escravos sentiam-se dependentes em relação aos brancos, mas também nasce nesse processo uma forma de defesa, a religião, que foi uma das mais importantes. Mesmo que se desenvolvesse um sistema estável entre senhor e escravo, o escravo continuava sendo escravo. Pontua Genovese (1988) "(o paternalismo) Fazia uma mediação, embora injusta e até cruel, entre senhores escravos, e disfarçava, mesmo que imperfeitamente, a apropriação do trabalho de um homem por outro."

O paternalismo sulista não negava, até reconhecia a humanidade escrava, seus talentos e capacidade, e foi por esse meio de reconhecimento que os escravos encontraram uma oportunidade de produzir um paternalismo contrário ao imaginado pelos senhores. Junto com essa ideia de proteção, vinha também a ideia de que a escravidão era algo natural, o que fez os escravos entenderem que o senhor não era um pai para eles, mas um patrão. Parindo dessa ideia pode-se afirmar que o paternalismo contribuiu para a rebelação e luta escrava.

O paternalismo pode ter reforçado o racismo, assim como a exploração de classes, mas também, inadvertidamente, induziu suas vítimas a plasmar sua própria interpretação da ordem social que pretendia justificar. Por fim, os escravos, recorrendo a uma religião que se supunha garantir-lhes submissão e a docilidade, rejeitaram a essência da escravidão ao descobrir seus próprios direitos e seu valor como seres humanos. (GENOVESE, 1988, p 25)

A escravidão se firmou nos estados do Sul na era do Reino do Algodão, aos olhos dos administradores, (os senhores que não moravam nas comunidades de plantation, moravam perto, mas a plantação muitas vezes ficava aos olhos dos administradores) esses escravos das plantation trabalhavam sob cruéis assistências. Mas os senhores escutavam as reclamações de seus escravos quanto ao tratamento que recebiam, e os senhores preferiam dar crédito aos escravos, não porque achavam justo, mas porque os administradores eram substituídos, já os escravos, esses permaneciam.
Os Estados do Norte apresentavam diferenças grandes, comparados aos estados do Sul, quanto a questão da escravidão, aristocratas nortistas apoiavam a liberdade dos escravos, opondo-se ao sul que sobrevivia do trabalho escravo e logicamente não apoiava abolição. Cada estado tinha uma lei específica, nessas leis as diferenças também apareceram, pois, as mesmas eram moldadas de acordo com os interesses dos senhores.

O Supremo Tribunal da Carolina Do Sul, a princípio, negava a humanidade do escravo, o via como uma propriedade, aos poucos foi percebendo que escravo tinha seus direitos naturais mesmo sendo escravos, isso no ano de 1836: "O sul havia descoberto, como todas as demais sociedades escravistas anteriores, que não podia negar a humanidade do escravo, malgrado os muitos absurdos jurídicos que inventasse" (GENOVESE, 1988, p.53). Essa margem de reconhecimento foi observada pelos escravos o que, sob lei ou não, acabaram conquistando e o fizeram ser respeitados.

As vésperas da Guerra da secessão, os estados escravistas, de modo geral, adotaram normas mais rígidas para manter as condições dos escravos e pôr fim às esperanças de emancipação individual ou coletiva. Os senhores sempre justificavam a vida escrava fazendo comparações com a vida operária, já no século XIX, comparavam a alimentação a jornada de trabalho dos escravos melhor que a dos operários. Na opinião dos senhores os castigos faziam muito mais bem do que mal, e que o segredo do sucesso deles era a força motivadora contida naquele pequeno instrumento; o chicote. Os senhores acreditavam que realmente não eram maus para os escravos e os poupavam de uma vida ainda mais dura.

Após a guerra da secessão uma angústia tomou os senhores dos Estados do Sul, alguns senhores ficaram chocados com o abandono de seus escravos mais próximos, principalmente os escravos domésticos. Para os senhores esse era um ato de ingratidão, infidelidade, deslealdade, de traição. Os negros percebiam esse trauma dos senhores, mas estavam decididos a se firmar. Através desse contexto apresentado por Genovese é possível compreender o que ele classificou como paternalismo. Esse espírito aparece em uma carta escrita por um senhor da Carolina do Sul, em 1865:

[...] a conduta dos negros na recente crise me convenceu de que estávamos todos laborando em erro. Senhores bons e senhores maus tiveram o mesmo destino, a maré da revolução confundiu o bem e o mal; e na turbulência caótica, todos sofreram o seu quinhão. Nascido e criado na instituição, como tantos outros, eu a considerava necessária não só a nosso bem estar, mas a nossa própria existência. Acreditava que os escravos fossem pessoas felizes, satisfeitas e apegadas aos senhores. [...] Se os escravos eram tão felizes, alegres e apegados aos seus senhores, porque os abandonaram quando estes precisavam deles e se bandearam para o inimigo que não conheciam, deixando seus amos, talvez até muito bons, que conheciam desde a infância? (GENOVESE, 1988, p. 150)

Os escravos libertos tinham a intenção de possuir terras, o que demonstra que queriam romper definitivamente sua antiga posição e se firmarem como homens livres, a relação de paternalismo havia sido rompida, os escravos já não aceitavam mais sua antiga condição. Nesse momento, "ex-escravos", começam a se perceberem como importantes no contexto e na sociedade norte Americana. Foi na participação das guerras e nas lutas, que os negros, em geral se encontraram e começaram a se sentir parte integrante da "nação negra".

Formas de Resistência: a "Nação Negra"

Afirmar que a cultura e identidade americana têm sua construção baseando-se na separação e não na junção de muitas culturas é errôneo, principalmente quando se coloca a cultura africana em questão. Houve uma troca de influências, tanto dos brancos para com os negros quanto o contrário, "na América pode-se considerar negro e branco uma nação ou duas, ou uma nação dentro de outra nação, mas não há como negar que uns e outros, por sua história comum, são americanos" (GENOVESE, 1988, p. 314).

Nesse sentido pode-se perceber como se deu essa construção plural de diferentes culturas que configuram a América. A cultura africana influenciou muito a cultura das populações de origem africana nas Américas, se revelando na maioria das vezes como uma forma de resistência diante de um mundo branco opressor.

A religião reconstruída pode expressar uma grande pluralidade cultural, que afirma a projeção de uma religião Afro-americana construída na América. Algumas Igrejas como a Batista foram adotadas pelos negros que viram nela uma maneira de se unirem e se manifestarem com mais liberdade que as Igrejas Católicas. A religião não era apenas uma forma de orar, mas uma forma de analisar e expor sua visão de mundo. A princípio negros e brancos uniam-se em uma mesma Igreja, mas logo houve a separação, o que acabou gerando uma autonomia para os negros.

[...] as reuniões contribuíam principalmente para criar nos escravos um sentimento de autonomia, a noção não apenas de que formavam eles mesmos uma comunidade, mas também de que os líderes dessa comunidade eram de sua própria escolha. (GENOVESE, 1988, p. 347).

Não só a religião, mas práticas medicinais diferentes das brancas foram nascendo na cultura popular e se fortalecendo no meio branco, por vezes até superava o mundo negro e cativava senhores. Muitos negros eram procurados por brancos para curar doenças, apesar das acusações negativas aos negros, eles eram respeitados por muitos fazendeiros. 

Em meio à rotina dura e rígida que tinham os escravos se manifestavam de maneiras diferentes. Foi diante do mundo em que viviam que os escravos rejeitaram no, e foram criando uma luta contínua contra ele, o que viria a se transformar numa força social, mas para isso era fundamental ser livre. Os escravos criam seu mundo como oposição a cultura branca imposta, lutando contra a agressão paternalista que ideologizava o contexto em que viviam. Suas reações se manifestaram na cultura popular e hoje a forma absolutamente. Esses resquícios permanecem na cultura popular da América do Norte, a não passividade escrava e sua constante tentativa de lutar não só pela sua liberdade física, mas espiritual que sustenta.

Em meio a essas manifestações, ligadas diretamente a sua vida escrava, as populações de origem africana criaram uma maneira de se lamentar e logo acabaram se identificando com esse novo estilo de lamento, que foi se transformando, resultando no Blues.


Ari Frello
Thalyta Zuchinalli, possui graduação em História - Bacharelado e Licenciatura- pela Universidade do Extremo Sul Catarinense -UNESC (2010). Possui mestrado pelo Programa de Pós Graduação em História na Universidade do Estado de Santa Catarina- UDESC (2016).
Tecnologia do Blogger.