Blues: nascimento, trajetória e contribuição na formação da identidade dos EUA #01


Hoje lançamos uma nova série no Southern Rock Brasil, Blues: nascimento, trajetória e contribuição na formação da identidade dos EUA, monografia escrita e apresentada pela Thalyta Zuchinalli em 2009 como requisito para obtenção do grau licenciado e bacharel no curso de História da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC.

O trabalho tem como ponto de partida a análise de um dos aspectos culturais surgido nos Estados unidos: O blues. Analisa em que aspecto o Blues não é totalmente Africano, nem somente negro, mas sim americano num conceito geral. Nesse sentido, para nós, sobretudo em função destes contatos, não e possível encontrar um único referencial identitário nos Estados Unidos, abordamos que o Blues contribuiu para a formação da cultura popular. Nesse processo de reconstrução cultural, que foi o que aconteceu com os negros nas Américas, eles elaboraram sua cultura na junção de África e América, nesse caso uma contra-cultura, gerando uma pluralidade cultural muito grande, que desconsidera uma única fonte de identificação. Na possibilidade de explicar essa "impureza" cultural, a ideia de homogeneidade é quebrada e apresentada buscando aspectos que a justifiquem. O conceito proposto nesse momento é um conceito de identidade cultural formado fora do seu lugar originário, que pode ser compreendida através de movimentos culturais, como foi o caso do Blues. A identidade abordada terá uma perspectiva cultural, racial e étnica que se desenvolve nesse novo contexto em que se encontraram os povos que sofreram a diáspora africana, arrancados de sua pátria e submetidos a pleno estado de submissão em um mundo desconhecido. Mostrando essas raízes, o objetivo proposto é entender o Blues não só como um processo superficial, mas formador de uma identidade plural no cenário dos Estados Unidos.

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Sumário

Parte #01 - Introdução


Introdução

Num primeiro momento gostaríamos de explicar o porquê da escolha deste objeto de estudo. Vivendo em uma sociedade em que os preconceitos, sobretudo raciais, estão presentes no estabelecimento das relações sociais, gostaríamos de apresentar uma visão positiva da influência que as populações de origem africana exerceram na formação da sociedade Estadunidense, influências estas que se traduziram através de suas manifestações culturais.

Nesse sentido, procuramos trazer para discussão aspectos mais claros e presentes, da contribuição das populações de origem africana na formação cultural dos Estados Unidos, expondo uma realidade escrava não passiva às condições em que seus sujeitos foram submetidos, mas ao contrário, arrojada no contexto em que estes se encontravam. 

Na história da humanidade, cada sociedade "gerou" espaços para diversas construções e reconstruções culturais em diferentes aspectos e dimensões. No contexto das expansões ultramarinas europeias e da colonização das Américas, o deslocamento de grandes levas populacionais das mais variadas regiões do mundo possibilitou os contatos intersociais e, consequentemente, a mescla de seus referenciais culturais. Nesse sentido, com a influência da cultura africana na construção da identidade Estadunidense não foi diferente, já que a introdução da mão-de-obra escrava no desenvolvimento da economia colonial permitiu também a introdução, nas Américas, dos referencias culturais dos povos escravizados.

É indiscutível declarar essas populações de origem africana, mesmo que oprimidas, não fizeram parte da construção identitária dos Estados Unidos. Isso porque afirmar que houve extermínio cultural dessas populações e origem africana é um pouco perigoso, já que, como dito anteriormente, com a introdução da mão-de-obra de origem africana nas Américas, através da escravidão, observou-se a junção de culturas e a sua remodelação dos Estados Unidos. O presente trabalho tem como ponto de partida a análise da pluralidade cultural, através da nascente cultura musical de origem escrava, no sul dos Estados Unidos da América: o Blues. Essa expressão cultural surgiu com o primeiro escravo africano que chegou à América, mas para entender melhor esse processo é imprescindível apresentar o contexto da escravidão, da diáspora africana, sua expansão e o cotidiano dos escravos no Novo Mundo.

O Blues tem sua gênese nas plantações de algodão e cresceu no contexto do pós abolição. Os Estados Sulistas Norte-Americanos foram muito mais opressivos devido ao sistema econômico que se enquadrava; fundamentado na mão-de-obra escrava. Como escape aos sofrimentos e à opressão que a sociedade impunha aos escravos de origem africana, o Blues se constituiu como um espaço de inserção das populações de origem africana na sociedade. O período compreendido entre (1880-1920) relata a dinâmica cultural dessas populações de origem africana na sociedade branca, sua exclusão, seu reconhecimento, enfim, seu resultado dentro da sociedade americana, mas períodos antecedentes a esse serão abordados.

Assim, não trataremos aqui de defender ou retratar as configurações identitárias dessas populações de origem africana sob a tônica da pureza, da essência. Buscaremos, mais que isso, compreender de que forma o universo cultural de diferentes povos se uniu, dentro da dinâmica diaspórica, reconfigurando-se a partir da pluralidade cultural, sendo o Blues um de seus exemplos.

Enquanto futuros historiadores procuramos estabelecer uma coerente justificativa para o nascimento de resistência dessas populações de origem africana escrava, não romantizando a condição escrava, expondo acontecimentos históricos. Utilizamos como base para nossa reflexão, referenciais bibliográficos sobre a escravidão, o Blues e identidade cultural, buscando embasamento teórico que dessem fundamentação à nossa análise sobre a história do Blues a partir da ideia da pluralidade cultural dos estados Unidos, cuja influência das populações de origem africana foi significativa. 

A intenção de evidenciar os elementos culturais dessas populações de origem africana não significa brutalizar a imagem do homem branco, mas sim trabalhar com o imaginário social que existia na época e que gerou a incompreensão cultural dessas populações, que em algum momento tomou voz na reconstrução do "seu novo mundo‟‟ sob diferentes aspectos. 

Para nós, esses conceitos são necessários para compreender, posteriormente, por quais razões o Blues nasceu nos Estados Unidos e o que ele representou para as populações de origem africana que lá viviam e que fizeram parte da dinâmica da diáspora africana no contexto de sua formação.

Buscando compreender melhor o desenvolvimento do Blues no cenário Estadunidense, fizemos, no primeiro capítulo de nossa pesquisa, uma pequena retrospectiva histórica sobre a presença das populações de origem africana na América a partir do trabalho escravo, sobretudo nos Estados Unidos. Para tanto, achamos importante discutir o significado da escravidão na história sob diferentes aspectos, procurando evidenciar, ao final, o universo da escravidão das populações de origem africana sob o olhar de seus atores sociais, cujos mecanismos de resistência às condições em que viviam foram manifestados de diferentes maneiras, inclusive no desenvolvimento de suas práticas culturais, mesmo no contexto do pós-abolição. 

Para esse capítulo, utilizamos como referências bibliográficas as obras de Milton Meltzer (2004), Leandro Karnal (1990), Catherine Coquery (2004) e Eugene Genovese (1988), dentre outras. Cabe lembrar que a obra de Genovese se caracterizou relevante uma vez que discute a trajetória negra na América do Norte, analisando a formação da cultura do país não a partir de uma visão separada, mas como um todo, reconhecendo as diferenças entre as culturas africana e americana sob a ótica do encontro entre as duas e a contribuição de ambas na constituição da nacionalidade. Igualmente importante para nossa pesquisa foi a obra de Karnal. Para o autor, tanto índios quanto os negros tornaram-se donos da memória dos Estados Unidos da América. Nesse sentido, entende os escravos enquanto contribuidores da formação cultural norte-americana, abordando a não passividade e as formas de expressão manifestadas pelos negros no contexto da escravidão. 

Em nosso segundo capítulo, discutimos a trajetória do Blues, como e porque ele surge, qual sua importância e relevância no contexto americano da época em que surgiu e sua trajetória até 1920. Procuramos, ainda, identificar como o Blues sustenta a ideia de diversidade para o contexto identitário americano.

Para apresentarmos o Blues, num primeiro momento, pontuaremos a ideia da reconfiguração cultural, utilizando a obra de Paul Gilroy (2001) que traz uma definição da contracultura existente nas Américas enquanto expressão contra o sistema opressor. Essa reconfiguração decorre da situação de uma exclusão, da necessidade que as populações de origem africana tiveram em sentirem-se parte formadora de um contexto cujos seus personagens estiveram inseridos. Nessa pesquisa, o escravo, que se expressa em meio à opressão, em meio a sua marginalização, manifestou-se de diversas maneiras culturais, sendo o Blues uma delas. Paul Gilroy pontua o desenvolvimento de uma dupla personalidade por parte desses escravos que foram trazidos à América, manifestada através de sua cultura matriz africana em junção com as influências da cultura europeia ocidental.

Partindo para a história do surgimento do Blues, utilizaremos a obra de Roberto Muggiati (1995), que trará uma ideia geral do que foi o Blues. Esse autor pontua também a biografia de alguns pioneiros do Blues o que ajuda a entender a essência desse estilo musical, embora essa questão não seja trazida para discussão neste trabalho. Ainda tendo Muggiati (1995) como referência, pontuamos a técnica instrumental (elementos característicos da música africana e a apropriação de outros instrumentos) que o Blues utilizou em sua formação, o que contribui para entendermos a diversidade deste estilo musical não só em seu âmbito social. 

A partir da obra de Eric Hobsbawn (1990), cuja abordagem traz para discussão alguns elementos da história do jazz, encontramos subsídios para verificarmos as influências exercidas pelo Blues sobre esta forma de expressão musical, não somente no âmbito da musicalidade, mas também no contexto social de seu surgimento.

Sob o aspecto de outras manifestações musicais, Edoardo Vidossich (1975) apresenta algumas características da musicalidade africana, buscando desvelar de que forma elas se estenderam para as Américas. A exemplo de alguns autores já citados, Vidossich também pontua a influência da cultura musical europeia na musicalidade das populações de origem africana criada na região norte-americana. Seguindo essa linha de pesquisa, evidenciamos na obra de Gilberte Chase (1955) também traz elementos para a compreensão do Blues como forma de expressão das populações de origem africana nos Estados Unidos, a exemplo de outras, como o estilo spiritual. 

Ao final de nosso trabalho, procurando refletir sobre a problemática da identidade no âmbito da formação do Blues, a obra de Stuart Hall (2001) se caracterizou relevante. Através dela buscamos compreender o processo de junção cultural enquanto um desdobramento da diáspora e que resultou na formação de uma identidade plural, construída na modernidade, e isenta de características puras, mas ao contrário, imersa de elementos identificatórios de múltiplas influências.

Esta pesquisa, não se trata de um trabalho acabado. A ausência de fontes documentais mais profundas sobre a história do Blues, sua trajetória e suas várias possibilidades de interpretação, sugere que ela deva ser melhor investigada. Isso porque, dar visibilidade às experiências das populações de origem africana nos Estados Unidos em suas múltiplas faces objetiva contribuir para a revisão da história, para a contribuição destes personagens na construção da memória da humanidade. Esperamos que ela possa, pelo menos, servir de incentivo para isso.


Ari Frello
Thalyta Zuchinalli, possui graduação em História - Bacharelado e Licenciatura- pela Universidade do Extremo Sul Catarinense -UNESC (2010). Possui mestrado pelo Programa de Pós Graduação em História na Universidade do Estado de Santa Catarina- UDESC (2016).
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