Reflexões de um One Man Band - O dia que eu disse não


Tudo começa muito bem, a disposição de fazer som, faz qualquer um encarar toda parada no início da estrada. Eventualmente o menor aviso de perigo é interpretado como uma crítica desnecessária. Quem é anônimo precisa se tornar conhecido e para isso, as vezes topa tocar numas paradas sinistras ou no pior dos casos por um valor bem irrisório.

Amigos, é imprescindível ter uma medida que eu sempre falo: é importante frisar o valor do seu cachê. Precisa levar em conta três coisas:
  1. A média de shows dentro dos 30 dias corridos do mês;
  2. A frequência que seus equipamentos precisam de reparos ou até mesmo reposições;
  3. Qual o valor semanal que você precisa arrecadar para manter as contas em dia.
É um papo quase surreal, porque todos nós sabemos que uma média de shows é quase impossível na maioria dos casos. Quando rola uma agenda fixa em algum lugar até tudo bem, mas em cidades pequenas isso raramente existe e quando acontece dura pouco.

Mas lá estava eu em Criciúma, usufruindo do razoável feedback que o projeto One Man Band estava me proporcionando naquela época. Até que um velho conhecido manda um de seus funcionários entrarem em contato com a gente (eu e minha esposa que atendemos as ligações de contratações). A ligação se tratava de uma proposta de show para um dia de semana especifico, sem mais. Para nós, foi uma ligação muito estranha, que despertou os nossos sensores de alerta, estes adquiridos ao longo dos anos, pois o tempo pouco a pouco nos deixa um tanto quanto cabreiros, principalmente numa ligação assim. Os dias foram passando e essa mesma pessoa retornou o contato, hora por e-mail, como a gente sempre pede, hora por telefone. Pouco a pouco foi dando mais informações sobre horário, local, e por fim o valor de cachê o nome do local. Pois bem, agora tínhamos tudo nas mãos e a decisão dependia apenas de nós, tínhamos que levar em conta um ocorrido de anos atrás. Anos antes deste fato, que também já faz algum tempo, eu havia vivido a experiência frustrante de confiar num semblante calmo de um empresário com cabelos grisalhos, que me aparentava tamanha paz de espírito. Topei desenvolver um trabalho com este senhor dentro da minha outra carreira, o design.

Bem, imprevistos acontecem e as vezes a gente se engana com as pessoas, principalmente quando se é mais novo. Além do mais, eu sou de uma geração que ainda presa pela sabedoria de quem possui anos à frente de experiência, mas é como diz o ditado:

A maturidade vem com os danos não com os anos.

Consideremos também que coisas inesperadas acontecem com nossas vidas, nos deixando em maus lenções com os outros, principalmente quando se trata de abrir uma empresa neste país ou melhor dizendo, quando se trata de dinheiro.

Mas infelizmente o cara se negou a me pagar, pelo menos em dinheiro, ele foi postergando a data até pegar o tradicional costume brasileiro do "passe amanhã". Até que um dia, em resposta a algumas palavras mais fortes ele alegou não ter dinheiro, e me propôs pagar as duas semanas de trabalho com roupas que haviam sobrado do estoque.

Neste momento, aquele senhor com semblante calmo e sereno, se revelou um sínico, f1lhx d4 p1ta, não era maturidade nem paz de espírito e sim Rivotril. Pois bem, ciente que não iria receber por ter visto outros credores pegando computadores, máquinas e tudo o que daria para ser carregado naquele galpão, aceitei a proposta.

Mas o tempo, como o tempo é maravilhoso, como você é bom as vezes.

Se você é bom de trama já deve ter imaginado quem me ligou não é verdade? Pois é, olha o mundo girando aí, e da mesma forma que eu não quis ter o meu pagamento em roupas, também não aceitaria receber em comida ou melhor.

A insistência em contratar a minha música tinha um grande motivo, uma empresa de um amigo, com reserva para pelo menos umas quarenta pessoas exigiu a minha apresentação.

O que foi mais engraçado, era o fato da rispidez nas ligações e nos e-mails, aquela velha ideia de tratar musico grosseiramente e pagar qualquer coisa para o mesmo.

Mas a conversa foi mudando de tom e toda a falta de respeito foi dando lugar a uma singeleza nas palavras, uma humildade de quem precisa agradar quem é visto como subalterno para conseguir seus objetivos.

Os últimos e-mails tinham como proposta um valor aberto de cachê, eles estavam dispostos a pagar o que pedíssemos para o projeto One Man Band, mas nós já havíamos entendido que mesmo se relevássemos o passado, o medo de viver novamente uma situação frustrante nos fez preferir deixar a oportunidade para outro artista.

Já vi muitos músicos começarem muito bem suas carreiras, com instrumentos caros, equipamentos importados, mas pelo fato de sempre se submeterem a cachês baixíssimos, tudo foi se deteriorando e quando este artista querido, gente fina da galera, que sempre deu o braço a torcer no leilão dos cachês, se deu conta, acabou sendo descartado com uma guitarra velha e sem cordas.

A resposta para a contratação do projeto One Man Band foi além de um posicionamento importante na minha carreira, também uma estratégia crucial para sobreviver no mercado. Quando o respeito não acontece naturalmente, é sinal de que ele precisa ser conquistado. Aquele musico gente boa da galera não perdeu apenas seu equipamento, ele perdeu o respeito, perdeu o valor de mercado, e será substituído por alguém que também fará o tipo gente boa da galera, com disposição para fazer tudo aquilo que ele não pode mais fazer.

Fica a dica.

Cuidado.

Muita calma nessa hora.

Ari Frello
Ari Frello é guitarrista, violonista, gaitista, cantor, compositor, produtor musical e professor de música. Está na estrada desde 2008 e se tornou conhecido por seu trabalho como "One Man Band". Já lançou três álbuns autorais e já trabalha no próximo.
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