Escutem In Times Like These do Rev. Sekou


Mesmo com o movimento e a conquista dos direitos civis, a tensão racial nos Estados Unidos nunca deixou realmente de existir, mesmo depois que o primeiro presidente negro da história do país foi eleito, em 2008. Nos últimos anos há uma nova escalada nos conflitos raciais, colocada em evidência pela violência policial contra a população jovem negra, sempre as vítimas preferíveis dos policiais. O caso emblemático que estourou a onda de protestos pelo país e ligou o alerta para o movimento social negro norte-americano aconteceu em 9 de agosto de 2014, em Ferguson, depois que um jovem de 18 anos chamado Michael Brown foi baleado por um policial branco depois de um assalto a uma loja de conveniência. O assassinato de Brown desencadeou várias ondas de protestos entre novembro de 2014 e agosto de 2015, em que a população negra se uniu para a situação da população jovem negra em relação à violência policial, já que o caso em Ferguson não foi o único que um jovem morreu nessas circunstâncias de violência desproporcional empregada pelas forças policiais. Durante esses protestos em Ferguson, um pastor e ativista chamado Reverend Osagyefo Uhuru Sekou foi preso depois que se ajoelhou para rezar entre os policiais e os manifestantes. E é sobre ele que iremos falar agora, pois ele transferiu sua energia, sua fé e seu protesto na forma de Blues e Gospel no ótimo álbum "In Times Like These", criando um dos mais impactantes álbum-manifesto do gênero.

Essa tensão recente já foi transplantada para a música em vários momentos, especialmente no que se refere ao hip-hop. Já Mavis Staple também usou sua música como o reflexo desse momento no seu ótimo disco "Livin' On a High Note", de 2016. "In Times Like These", de Rev. Sekou, vem para acabar com o silêncio incômodo que pairava pelos novos lançamentos no meio do Blues.

O disco foi produzido por Luther e Cody Dickinson, do North Mississippi Allstars, que recebem o crédito de unir os elementos diversos em um som coeso e forte de gospel-blues-rock presente por todas as faixas do disco. Mas o grande astro mesmo é Rev. Sekou, ou melhor, a potência de sua voz que traduz toda a sua vitalidade e energia para lugar por um mundo melhor. Esse vigor pode ser percebido já nos primeiros segundos do disco, pois a faixa de abertura "Resist" tem trechos do discurso que Rev. Sekou deu nos protestos de Ferguson. No refrão, o reverendo clama com toda força "We want freedom and we want it now - Resist". Sekou ainda apela para a autodeterminação, afirmando para sempre resistir quando dizem o que você pode ou não fazer, quem você pode ou não amar, ou se você deve ou não voltar a estudar e coisas do tipo.  A ideia é resistir, seja que hora for. A banda grande e as músicas cheias de arranjos de metal bem posicionados também chamam atenção. No final tem a continuação do discurso de Rev. Sekou nos protestos: é dessa geração - que está resistindo, lutando, se colocando diante da brutalidade policial - que a história irá falar depois.

Na faixa título, com uma batida mais para o Funk, Sekou continua o apelo pela mudança e a chamada para a contínua mobilização social, pois percebe que não tem nenhum político ou algum santo ou herói que irá fazer com que suas reivindicações sejam ouvidas. É através da luta contínua que um povo conquista e/ou amplia seus direitos. Ao mesmo tempo em que Sekou situa a luta contemporânea da população negra, ele não esquece o histórico de perseguição, violência e exploração que seu povo sofreu por séculos:

Persecuted but not forsaken
Been 400 years, and they still can't break us
Sometimes I feel like giving up, I cannot lie
Too busy working for my freedom, ain't got time to die.
In times like these, we need a miracle,
Ain't nobody gone save us, we're the ones we've been waiting for.

Na faixa seguinte, Sekou recria a faixa "Burnin' and Lootin'", de Bob Marley, direcionando a música para o campo do Gospel e do Blues. "Lord, I Am Running (99 ½ Won't do)", um Blues cheio de riffs e solos de guitarra, é mais um dos vários destaques do disco. Para cantá-la, Rev. Sekou conta com a ajuda de Raina Sokolov-Gonzalez. Na letra, Rev. Sekou recria a situação de milhares de afro-americanos que tentava fugir das plantações correndo até a exaustão pela sua própria vida, ouvindo o latido dos cachorros no seu rastro. A repetição da letra funciona como se o corredor estivesse cantando para si mesmo, buscando forças para completar os 100 porque 99 e meio não seriam suficientes. "Muddy and Rough" é um Blues cru e bem marcado, alternando solos de órgão e de guitarra, inclusive com o melhor solo de guitarra do disco. A improvisação e a variação do vocal de Rev. Sekou certamente é uma influência da sua vida de pregação na sua Igreja pentecostal. 

A tradição familiar entre Blues, Gospel e Soul, além de sua trajetória de vida como pastor, teólogo, poeta, documentarista, também leva os temas do gospel para a mesa. "The Devil Finds Work". A estrutura da música é incrível. Começa com um blues arrastado, com uma guitarra pesada acompanhando a música e depois, de súbito, muda totalmente para um ritmo frenético de um spiritual. É quase como nos vermos dançando no meio da congregação, com palmas e tudo. Incrível. 

O momento iluminado do disco continua com "Old Time Religion" acompanhado do órgão. "When The Spirit Says Move" é mais um gospel animado para acompanhar batendo palmas. O disco encaminha-se para o final com a balada soul "Loving You Is Killing Me" e a balada no piano “Problems”. 

"In Times Like These" é um álbum daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo: independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a alma. Estamos precisando.

André Espínola é formado em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, e um grande apaixonado pelo Blues, Jazz, Folk e Rock. É editor do blog O Filho do Blues, onde escreve sobre as novidades e novos lançamentos.
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