Uma discussão de classe e uma história do Blues no sul dos EUA #05


Considerações finais

Tendo percorrido até este momento, retomo a pergunta inicial: diante dos variados eventos explicitados aqui, pode-se afirmar que já havia ali uma classe coesa e organizada? Acredito que tal afirmação seja imatura no contexto político, econômico e social nos Estados Unidos entre as décadas de 20 e 40; a Grande Migração do sul rural para as grandes cidades industriais, principalmente do norte, estava a pleno vapor; ao chegar nessas cidades, diferentemente do que sonhado por eles, encontravam o mesmo racismo e exclusão social que haviam experimentado até esse momento no sul de onde saíram; ao chegar nessas cidades, ainda, entravam em contato com uma onda crescente de movimentos e tendências políticas mais radicais do que a NAAPC (The National Association for the Advanced of Colored People), influenciadas pelas ideias de anticolonialismo, movimentos socialistas, como o "Novo Negro", do socialista Hubert Harrison, e do "black nacionalism", nacionalismo negro, a Associação Universal para o Melhoramento dos Negros (UNIA, em inglês), fundada pelo jamaicano Marcus Garvey, de caráter separatista, dentre outros. Melhores organizados, a atuação dos negros e negras alcançou outro patamar na década de 50 e 60, tanto em termos culturais, com o surgimento de outros estilos da "Black music", como o soul, funk, dentre outros, como em termos políticos, especialmente depois do famoso caso de Rosa Parks, em 1955, culminando numa pressão nunca antes vista dos movimentos sociais negros, atuando em conjunto, como um grupo de classe, pelos direitos civis.

No caso dos negros vivendo no Sul rural dos Estados Unidos do início do século XX, a consciência dessa classe em gestação dela mesma, mais do que encarnada em formas institucionais, é manifestada culturalmente, através de tradições e sistema de valores, através do Blues. O Blues, como manifestação cultural do povo afro-americano, remete a uma consciência que surge como resultado da experiência vivida pela própria classe no processo de fazer-se dela mesma. O Blues fica caracterizado como música de resistência, mas não a resistência de confrontação. Apesar de ter alguns nomes como Big Bill Broonzy, J. B. Lenoir, Nina Simone, que denunciaram em suas músicas e enfrentaram diretamente a situação, o confronto aberto contra o sistema dominante político segregacionista e a exclusão econômico-social era extremamente difícil e raro, especialmente no período em que Jim Crow estava com toda a força e os negros poderiam ser linchados por qualquer motivo aparente. A resistência do Blues, semelhante ao gospel, refere-se a uma forma que aquelas pessoas tinham de suportar as dificuldades e injustiças e seguirem frente, apesar de todas as probabilidades lhes serem contrárias. Afinal, como Memphis Slim, um dos maiores pianistas do Blues, falou na conversa sobre as origens do Blues com Lomax, Big Bill Broonzy e Sonny Boy Williamson numa noite no Mississipi em 1946: "Sim, o Blues é um tipo de vingança (...) Você sabe que quer dizer algo, quer dar significado a algo, isso é o Blues. Todos nós tivemos duros momentos na vida e coisas que nós não podíamos falar ou fazer, então nós cantamos". (LOMAX, 1993, p. 461).

O Blues catalisa, dessa forma, a consciência de classe e a experiência herdada e compartilhada daquele grupo em torno de sua luta de classes. Apesar do Blues rural e do Delta ter o caráter individual e solitário - o cantor e seu violão -, ele se comunica com seus semelhantes através de um circuito informal de apresentações itinerantes nas festas nas plantações ou diretamente nas residências pelo o rádio ou disco. É através desse circuito que as tradições, os sistemas de valores e ideias, como diz Thompson, é transmitido e mantido, aproximando-os pela semelhança na vida cotidiana, com seus problemas, preocupações, receios e diversões.

Referências

CRUMB, R. Blues. São Paulo: Conrad Editora, 2004
EVANS, David. The development of the Blues. In: MOORE, Alan (Ed.). The Cambridge Companion to Blues and Gospel Music. New York: Cambridge University Press. 2002.
FRAGA, Alexandre Barbosa. De substantivo plural a singular: a transformação das classes trabalhadoras em classe operária. Revista Espaço Acadêmico, n. 82. mar/2008.
GRAVES, Bill. Highways. IN: KOMARA, Edward (Ed.). Encyclopedia of the Blues. New York: Routledge. 2006.
HOBSBAWM, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1990.
JAKUBS, John F.. Great Migration. IN: KOMARA, Edward (Ed.). Encyclopedia of the Blues. New York: Routledge. 2006.
LOMAX, Alan. The Land Where The Blues Began. New York: The New Press. 1993.
KARNAL, Leandro etall. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2007.
KOMARA, Edward (Editor). Encyclopedia of the Blues. New York: Routledge. 2006.
MEIRA, Júlio Cesar. A Contribuição de E. P. Thompson para os Estudos Históricos. Revista Expedições: Teoria da História e Historiografia. v.5, n. 1, p. 188-207, jan.-jul/2014.
MOORE, Allan (Ed.). The Cambridge Companion to Blues and Gospel Music. New York: Cambridge University Press. 2002.
SAVAGE-WISEMAN, Phoenix. Violence as a lyric concept. IN: KOMARA, Edward (Ed.). Encyclopedia of the Blues. New York: Routledge. 2006.
THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987.
__________. A Formação da Classe Operária Inglesa, "A maldição de Adão", vol. II, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987b.
__________. A Formação da Classe Operária Inglesa, "A força dos trabalhadores", vol. III, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987c.
__________. A Miséria da Teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1981.
__________. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras. 1998.
__________. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas, SP: Editora da Unicamp. 2001.


André Espínola é formado em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, e um grande apaixonado pelo Blues, Jazz, Folk e Rock. É editor do blog O Filho do Blues, onde escreve sobre as novidades e novos lançamentos.
Tecnologia do Blogger.