Uma discussão de classe e uma história do Blues no sul dos EUA #04


A terra onde o Blues nasceu: O Delta e as Relações Sociais (1926-1942)

Para compreendermos o impacto da experiência da classe trabalhadora no Blues, após termos analisados as experiências decorridas dos aspectos de destaque nas relações entre as estruturas produtivas, é necessário agora nos determos nos costumes e nas relações sociais da comunidade negra consigo mesma e como esse grupo social passou a ter consciência do que significava as relações em que estavam inseridos. Como já foi visto, a violência era algo sempre presente na vida deles, mesmo quando não acontecia, a própria ameaça dela era constante. Além da violência que os afro-americanos sofriam no presente, não se pode ignorar que estas eram gerações que provavelmente tinha alguém ou ouvido histórias de alguém da família do tempo da escravidão.

Suprematistas brancos eram implacáveis em seu terror. Eles linchavam, atiravam, afogavam, bombardeavam, incendiavam, batiam, e enterravam qualquer um que ameaçasse sua opinião de uma sociedade racialmente dividida. Ninguém estava a salvo de homens esta ameaça - eles violentamente matavam homens, mulheres e crianças de todas as faixas da vida. Eles matavam porque os negros se atreviam a votar, ir à igreja, pregar contra a injustiça, a vestir o uniforme militar dos Estados Unidos, caminhar por uma rua, ou usar um banheiro público (GRAVES, 2006, p. 795)

Então a violência é um traço marcante nas relações sociais da comunidade negra do Sul dos Estados Unidos, seja na relação conjugal entre homem-mulher, entre pais e filhos, entre crianças ou entre pares adultos. Replicavam a violência que recebiam diariamente, talvez como um processo inconsciente de proteção, de preparação para a vida lá fora, tanto em termos de branco contra negros quanto negros contra negros. Thompson disse que "a vida 'pública' emerge de dentro das densas determinações da vida 'doméstica". (2001, p. 235), mas o contrário também pode ser verdadeiro. Em via de mão dupla, a vida doméstica é influenciada pela vida pública. É um paradoxo de uma cultura tradicional que é ao mesmo tempo rebelde, como Thompson observou também na Inglaterra do século XVIII (1998, p. 19).

Outro traço marcante dessas relações sem dúvida é o trato com a sexualidade de uma forma totalmente despudorada, que aí demonstra o choque entre patrícios e plebeus. Ao mesmo tempo em que a relação dos "plebeus" com a sexualidade era aberta, baseada numa enraizada tradição africana que tem o prazer sexual como um presente divino, a comunidade negra tinha que criar códigos, caso contrário eram repreendidos pelos senhorios brancos de "alta" respeitabilidade, os "patrícios". Segundo Lomax (1993, p.85-86), o princípio Calvinista do sul escravagista, que dizia que sexo e procriação eram sinônimos e nenhum deles estava relacionado ao prazer físico, apresentava um grande desafio à liberdade sexual dos afro-americanos e, portanto, expressões, metáforas, códigos, foram criados para representar a ativa prática sexual.

Paralelo à sexualidade, desenvolveu-se no seio da comunidade negra uma forte tradição religiosa, sobretudo para as mulheres. Havia um conflito ininterrupto entre o sagrado e o profano. O profano foi representado pelo Blues, enquanto que, para fala do sagrado, surgiu um novo estilo, o gospel. Apesar da separação, a linha entre os dois era muito tênue e, apesar de aparentemente inconciliáveis, muitos músicos do Blues destacaram-se também por tocar gospel ou até mesmo tornaram-se pastores, como Son House e Skip James.

A fé cristã foi imposta aos escravos pelos seus mestres brancos, que, com o tempo, respondendo muitas de suas perguntas e aliviando os seus sofrimentos pela promessa da pós-vida, passou a abraçá-la. No início do século XX, a Igreja Batista era a mais forte e que contava com mais fiéis na região sul do Delta do Mississippi e que continua até hoje. Segundo Lomax (1993, p. 70), inclusive, a Igreja era certamente a principal instituição a vida do Delta. Era o centro de encontro oficial para os negros que viviam na plantação e, além do seu papel religioso, era lá onde eles mantinham relações de comunidade, onde encenavam os atos do contrateatro, discutindo sobre seus problemas, organizando atividades em comum. Plenamente autorizado pelo proprietário da plantação, era lá onde eles exerciam integralmente sua sociabilidade, sem preocupar-se com as questões de cor. Tal como as feiras sazonais inglesas do século XVIII de que nos fala Thompson (1998), as igrejas batistas frequentadas pelas famílias afro-americanas nos Estados Unidos forneciam "um nexo cultural, além de um grande centro para informações e troca de novidades e boatos" (THOMPSON, 2001, p. 44). Claro que, diferentemente das feiras inglesas, aqui esse nexo cultural era permeado pelo sagrado e intermediado pelo reverendo da igreja.

Havia encontros durante toda a semana e nos Domingos, que poderiam durar o dia inteiro e adentrar na noite. Esses encontros eram bastante cheios, especialmente por mulheres, pois elas eram não apenas o centro da sociedade respeitável, mas também teatros comunitários nos quais principalmente as mulheres poderiam se livrar de seus problemas em um ambiente de apoio comunitário. Elas o chamavam de ficar "feliz", "aclamando". (LOMAX, 1993, p. 70).

Subir ao altar para contar seus problemas, suas preocupações, suas aflições para a comunidade que compartilha, muitas vezes, esses mesmos sentimentos dá um senso muito claro de comunidade, fortalecendo seus laços, um apoiando o outro. Eles pregavam gritando, "shouting", cantando e dançando, em um transe religioso, em que o pregador e os fiéis que estão presentes no culto interagem constantemente em exclamações jubilosas de fé e amor.

As pregações, feitas por Reverendos que tinham uma importância grande na comunidade, falavam de grandes problemas do dia a dia, tanto o econômico, em relação ao atraso do pagamento feito pelo dono da terra, quanto o fator racial, decorrente das leis de segregação racial, personalizada por Jim Crow. Alan Lomax (1993, p. 73) nos fala de uma pregação do Reverendo Savage, chamada "Pagamento no Paraíso". No discurso, o Reverendo Savage utiliza-se de toda a simbologia da religião para ligar com os fatos frustrantes e sofridos da vida dos seus ouvintes.

Mas nem todos caíam no "conto do vigário". Segundo os depoimentos recolhidos por Lomax, no entanto, para alguns membros da comunidade a figura do Reverendo era visto com desconfiança, como um enganador e muitas vezes como hipócrita, porque dispunha de privilégios - e se apegava a eles - que a grande maioria da população negra do Delta nem sonhava em ter. Além disso, havia casos de pastores que dormiam com as mulheres de seus fiéis e eram também suspeitos de ter uma relação ambígua com a classe dominante branca, já que aproveitava do fato de ser o principal chefe da comunidade para entregar os nomes das pessoas que exaltavam além da conta. A música "Preachin' Blues", gravada por Son House serve para ilustrar com ironia essa contradição que os Reverendos encarnavam no Delta. Era o Blues como ferramenta de auto-regulação da própria comunidade diante de um membro que não se comportou de acordo com os preceitos morais locais.

Yes, I'm gonna get me religion
I'm gonna join the Baptist Church
Yes, I'm gonna get me religion
I'm gonna join the Baptist Church
You know I wanna be a Baptist preacher
Just so I won't have to work

Nesse momento vale destacar o papel da mulher do Delta. Segundo os testemunhos recolhidos por Lomax no Delta, elas representavam não apenas o centro do núcleo familiar, muitas vezes destroçado pela vida desregrada dos seus homens, ou apenas fazendo o serviço doméstico, como também desempenhavam uma função fundamental no trabalho nas plantações, carregando as crianças pequenas com elas. 

A preparação para a vida sexualmente ativa está presente nos diversos jogos de criança que Alan Lomax viu no distrito de Coahoma. Estes jogos preparavam as crianças e futuras mulheres a cortejar - e serem cortejadas, a escolher aquele que elas querem beijar – ao invés de serem escolhidas - e serem corajosas e maliciosas para se proteger das situações adversas com todos os topos de manobras. "As tradições se perpetuam em grande parte mediante a transmissão oral, com seu repertório de anedotas e narrativas exemplares". (THOPMPSON, 1998, p. 18). Era a própria preparação para a vida do Delta. "Muitos dos jogos treinavam competências físicas, mas seu principal foco era a prática das habilidades sociais, com o namoro sendo a preocupação central". (LOMAX, 1993, p. 88).

A vida sexual começava muito cedo. Aos treze, quatorze anos as meninas já estavam casando. Os exemplos dessa liberdade e apetite sexual são incontáveis e certamente é o assunto mais frequente na literatura do Blues, uma verdadeira obsessão para os seus poetas, eles mesmos que quebraram o tabu do tema do sexo na música popular. "Com a transmissão dessas técnicas particulares, dá-se igualmente a transmissão de experiências sociais ou da sabedoria comum da coletividade". (THOMPSON, 1998, p. 18). Talvez o mais icônico da extensa lista é "Traveling Riverside Blues", de Robert Johnson, gravada em 1937, que utiliza a metáfora para a ejaculação.

Now you can squeeze my lemon 'til the juice run down my...
(spoken: 'til the juice rune down my leg, baby, you know what I'm talkin' about)
You can squeeze my lemon 'til the juice run down my leg
(spoken: That's what I'm talkin' 'bout, now)
But I'm goin' back to Friars Point, if I be rockin'to my head

Esse núcleo familiar aparentemente matriarcal, com a mulher sendo a chefe da família, além de sofrer a violência do sistema econômico e social em que estava inserida, com a possibilidade real de ver os pais e membros de sua comunidade sendo linchados, maltratados, quando não era abandonada com vários filhos, frequentemente sofria com a violência doméstica e a vida desregrada de seus parceiros. Mas esse machismo não era aceito facilmente e havia casos frequentes de revide por parte da mulher. Elas revidavam por quaisquer meios que estivessem em suas mãos. A icônica ilustração de Robert Crumb (2004), no seu livro "Blues", retrata uma cena cotidiana da vida doméstica da briga um casal; com extrema violência de ambos os lados, numa discussão que começou por causa de querelas igrejeiras - o homem não tem a mesma ideia que a mulher sobre a igreja (aqueles "bando de hipócrita fofoqueiro" - e sobre a divisão do trabalho em casa - a mulher reclama que ele deveria cuidar dos filhos, ao invés disso ele fica "sentado aí dedilhando esse violão" (CRUMB, 2004, p. 49) - a mulher coloca o homem para fora de casa debaixo de pancada. Há vários casos de músicas de Blues que foram mortos por mulheres. Os mais famosos são Robert Johnson e Robert Nighthawk, que morreram envenenados. Valorizando o pouco de liberdade de que dispunham, os homens negros geralmente não aceitavam o controle por parte da mulher ao mesmo tempo em que temiam encontrá-la com outros homens. O revide por parte da mulher implica necessariamente uma agressão anterior. E o que não falta no Blues são testemunhos dessas agressões. A música que mais traduz esse espírito violento e misógino é "Me And The Devil", de Robert Johnson.

Me and the devil, was walkin' side by side
Me and the devil, ooh, was walkin' side by side
I'm goin' to beat my woman, until I get satisfied

Na vida privada existia um verdadeiro ciclo de violência. A própria educação familiar era construída à base de agressivos castigos e punições físicas muito duras, muitas crianças saíam de casa para fugir dos severos espancamentos por qualquer travessura cometida. Na verdade, a educação que recebiam era uma réplica do que encontrariam no mundo lá fora.

Nenhuma criança, certamente não um músico de Blues, vindo de uma infância rural do Delta perdeu a picada quente do interruptor, a palma da mão dura, o chicote. Todos tinham fugir disso como se o diabo estava atrás deles. Todos, no final, havia se rendido, e tinha sido cruelmente castigado muitas vezes, engolindo a sua ira, mas ainda está dizendo "Sim, senhora", a sua mãe, e 'Sim, Senhor, Charley' para os patrões brancos. (LOMAX, 1993, p. 93).

Na esfera da diversão e entretenimento não era diferente. Foi nesse fórum de descontração, energia, fuga, romance, jogos, bebida, desabafo, fúria, conflitos, tudo isso regado por muita música e dança, que culminavam todos os aspectos da vida da comunidade negra em uma panela de efervescência cultural. Vários estabelecimentos como bares (juke-joints, barrelhouse), tavernas, clubes, festas em casas alugadas e até mesmo piquenique nas cabanas das plantações recebiam a classe trabalhadora negra e serviam como lugares perfeitos para as reuniões de sábado a noite para renovar as energias, tirar toda a carga nas costas acumulada pela dura semana de trabalho.

Se a Igreja era o espaço social para as senhoras respeitáveis da comunidade se encontrar e descarregar as tensões do dia a dia, no auge do Jim Crow, esses bares eram o ponto de socialização para os negros em busca de ação e música, no caso, a música do diabo, o Blues. Era o lugar deles e a barreira de "separados, mas iguais" das leis Jim Crow estavam em pleno vigor para ambos os lados, como dizia a sinalização de um bar em Memphis: "Este lugar é para pessoas de cor. Nenhum branco servido. Desculpe". (LOMAX, 1993, p. 4). Tem de todos os tipos: os que iam em busca de dançar e paquerar, ocasionando inclusive episódios frequentes de brigas de bar por mulher ou algum desentendimento qualquer que acabavam em morte. Sobre a Inglaterra que estava estudando, Thompson disse:

Em um certo sentido, a cultura plebeia é do povo: uma defesa contra as intrusões da gentry e do clero: consolida aqueles costumes que servem aos interesses do povo: as tavernas são suas, as feiras são suas, a rough music está entre seus meios de auto-regulação. (THOMPSON, 1998, p. 22)

Com todo respeito às especificidades históricas, se fossemos grosseiramente transferir essa assertiva para o cotidiano da cultura plebeia da população negra, seria que os juke-joints (bares) são seus, as igrejas batistas são suas, e o Blues está entre um dos seus meios de auto-regulação.

Por fim, o humor e ironia eram recursos frequentes no Blues. Através de recursos retóricos como jogos de palavras, duplo sentido, apelidos, e sátiras ou ironias diante de problemas sérios, os músicos do Blues comunicavam-se com seu público que percebiam e, principalmente, identificavam-se com a ironia e a contradição da própria vida que levavam. Big Bill Broonzy traduziu esse sentimento perfeitamente na sua canção "Just a Dream (On My Mind)", gravada pela primeira vez em 1939.

It was a dream, just a dream I had on my mind
It was a dream, just a dream I had on my mind
And when I woke up, baby, not a thing could I find
I dreamed I went out with an angel, and had a good time
I dreamed I was satisfied, and nothin' to worry my mind
But it was just a dream, just a dream I had on my mind
And when I woke up, baby, not an angel could I find
(…)
I dreamed I was married, and started a family
I dreamed I had ten children, and they all looked just like me
But that was a dream, just a dream I had on my mind
And when I woke up baby, not a child could I find


André Espínola é formado em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, e um grande apaixonado pelo Blues, Jazz, Folk e Rock. É editor do blog O Filho do Blues, onde escreve sobre as novidades e novos lançamentos.
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