Uma discussão de classe e uma história do Blues no sul dos EUA #03


A terra onde o Blues nasceu: O Delta e as Relações de Produção (1926-1942) - Parte 2

A possibilidade de questionar o proprietário sobre o valor do pagamento é uma decisão bastante arriscada e evidencia mais um ato do teatro de poder. Além de não conseguir nenhum esclarecimento, há ameaças reais de retaliações como espancamentos e mesmo assassinatos, sendo o proprietário sempre protegido pelo sistema judicial.

Se o agricultor questionar algo eles ficam insultados, chamam-no de um mau Negro e os expulsa do lugar antes que ele contamine os outros. Temos ouvido falar de agricultores com pelotões que andam pela noite para bater naqueles que chamam de "imprudentes". (LOMAX, 1993, p. 96)

Essa era a realidade diária do sistema de sharecropping, tão comum a comunidade negra diante do sistema de castas do sul dos Estados Unidos: um racismo avassalador e uma exploração descarada, cuja solução que vários deles vislumbraram era apenas uma, ir embora para o norte em busca de melhores condições de vida e de trabalho ou "em qualquer lugar em que eu seja tratado como homem". (LOMAX, 1993, p. 12).

Mas o trabalho como sharecropper, apesar de ser o mais comum entre as famílias afro-americanas sulistas, não era a única atividade que exerciam. Muitos dos que não conseguiam suportar esse duro e injusto ambiente de trabalho, saiam em busca de outras oportunidades, normalmente em acampamentos de madeireiros, na construção de barragens ou na construção de ferrovias, produzindo outras formas de experiências nas suas relações de produção. Desde o século XIX os madeireiros extraíram as árvores e limparam a região pantanosa para a agricultura; os negros compunham uma parcela significativa dessa mão de obra. Ao mesmo tempo em que vivenciavam uma liberdade relativamente maior do que nas plantações de algodão, o trabalho duro e um ambiente extremamente violento faziam parte do cotidiano desses trabalhadores que viviam em acampamentos controlados pelas madeireiras com sua família ou acompanhantes. Os negros ficavam com o trabalho pesado de carregar e reparar a ferrovia da empresa, carregar as madeiras extraídas para transporte, limpar a área de exploração e carregar água. Sofriam com manobras semelhantes às dos inquilinos nas fazendas com os patrões descontando do pagamento preços exorbitantes dos produtos consumidos e muitos ficavam presos por débito.

As condições de vida nos campos de madeira, no entanto, foram separadas e desiguais. As empresas pagaram trabalhadores negros menos do que os trabalhadores brancos e às famílias negras eram fornecidas habitações inferiores. Tensões raciais, hostilidades e violência, muitas vezes entravam em erupção entre os dois grupos. O chefe do bairro da empresa impunha a paz no campo, na maioria dos casos, em vez que a aplicação da lei local (GRAVES, 2006, p. 639).

Assim como a extração de madeira foi tanto uma importante atividade econômica quanto ajudou a desenhar o cenário geográfico do sul, a construção de barragens teve um papel fundamental também na moldagem da paisagem Delta do Mississipi, porque foi através delas que conseguiram domar as enchentes periódicas do Velho Rio e assim aumentar as terras cultiváveis para o algodão. "O século de trabalho que ele custou, o abrigo que forneceu e o rico e cruel sistema que promoveu moldaram a história da região". (LOMAX, 1993, p. 212). Novamente, a maior parte (também eram utilizados imigrantes irlandeses) do trabalho foi executada pelos negros, muitos deles condenados a trabalho forçado e emprestados pela justiça. Organizados em times com a ajuda de suas mulas de carga e impulsionados pelas suas as canções de trabalho, os trabalhadores transportavam a terra, árvores e rochas para colocá-los nos diques. Muitos trabalharam até a morte.

Com certeza era o ambiente mais violento de todo o sul dos Estados Unidos. "Eles sobrecarregavam e eram mal pagos, regulando-os com pistolas e chicotadas e sempre com a presente ameaça de linchamento, contra o qual os negros não tinha estatuto jurídico no Mississipi do Jim Crow". (LOMAX, 1993, p. 217). A linha para controlar essa irascível mão de obra negra era bem mais dura e tinha que ser controlada por chicotes e diversão em clubes, nos quais a vida imprudente de jogatina, brigas, disputas por mulheres e tiroteios era o mais comum.

Apesar das vilanias que acabamos de descrever, o trabalho de diques era atraente para os homens da Delta. Anos de arar lhes tinha dado as habilidades necessárias para começar o trabalho de uma equipe de mula em qualquer tempo. No rio, o pagamento vinha uma vez a cada semana ou duas, ao invés de uma vez por ano, e em um mês um homem poderia embolsar mais dinheiro jogando e bebendo do que ele poderia ganhar em uma temporada na fazenda (LOMAX, 1993, p. 230)

Ou seja, a violência era de fato uma experiência vivida em comum pela população negra no sul dos Estados Unidos nas suas mais diversas formas e possibilidades, simbólicas ou físicas. Desde o século XIX, com a ascensão de movimentos como a Ku Klux Klan, a violência contra os negros cresceu exponencialmente.

A KKK colocava-se como uma entidade moralizante, de defesa da honra, dos costumes e da moral cristã. A prática pavorosa dos linchamentos era justificada por seus membros a partir de acusações de supostos estupros de mulheres brancas por negros (numa clara hierarquização da sociedade: a mulher, indefesa e inocente, estaria sendo vitimizada pelo negro, ser "inferior e bestial", que precisava ser combatido pelos protetores dos "bons costumes", os cavaleiros brancos da Klan). (KARNAL, 2007, p. 126)

Apesar da retração dos ataques, as ações de grupos como a Ku Klux Klan ainda continuou presente durante as primeiras décadas do século XX e os linchamentos e enforcamentos de negros foram temas em algumas canções do Blues. Tais linchamentos e enforcamentos eram o ápice do teatro demonstrando seu poder sobre a instância máxima do ser humano, a sua vida. "O ritual de execução pública era um acessório necessário a um sistema de disciplina social dependente, em grande parte, do teatro". (THOMPSON, 2001, p 49). A mais famosa e tocante canção que representa essa cena é "Strange Fruit132", poema cantado por Billie Holiday em 1939 e escrito por Abel Meeropolem 1937, sobre o chocante cenário de um enforcamento.

Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.
Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.
Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

Por vezes o teatro e o contrateatro entravam em conflito: eram os motins urbanos. Como reação ao recrudescimento dos ataques racistas, os negros reagiam contra os brancos. O mais grave motim urbano foi o de Chicago, de 1919, que teve início após a morte de um jovem negro. Depois de uma semana, 23 negros e 15 brancos morreram, além de outras centenas de pessoas feridas. Foi o primeiro que os negros não só apanharam, mas também se defenderam. A violência de Estado e do próprio sistema social vigente contra os negros e negras era tão grande que temos que considerar as ações de protesto e resistência desses negros e negras no critério do politicamente possível. A morte era uma condição muito próxima para quem resolvesse se rebelar além do socialmente aceitável.

Um movimento populacional interno também foi muito importante durante o período de desenvolvimento industrial: a grande migração de afro-americanos. A grande oferta de trabalho no Norte e a esperança de se ver livre do racismo, da violência, do Jim Crow e das precárias condições de vida, fizeram com que os negros do Sul partissem para o Norte. Em termos numéricos, Karnal (2007) aponta que "entre 1910 e 1920, a população negra de Detroit subiu de 5 mil para 41 milpessoas; (...) em Chicago, de 44 mil para 110 mil e, em Nova York, de 91,7 mil para 152 mil". (KARNAL, 2007, p. 156). Foi a chamada Grande Migração:

Uma migração rural-urbana que encarnou elementos de conflitos culturais enquanto geralmente pobres e negros rurais seguiram caminho rumo aos centros do norte metropolitano em números que afetaram as condições econômicas e as relações sociais nesses lugares, bem como as relações de trabalho agrícola em grande parte do Extremo Sul. (JAKUBS, 2006, p. 374)

Atraídos pelos empregos industriais do norte e sendo substituídos aos montes pelo processo de mecanização agrícola no Sul, os negros viam a migração como a oportunidade de melhorar de vida tanto economicamente como socialmente. O sonho de dignidade e ascensão social, no entanto, raramente se concretizou, já que a lógica da supremacia branca era inerente à sociedade norte-americana, seja nortista ou sulista, e os negros ficavam confinados em bairros e regiões periféricas das cidades, sofrendo uma segregação informal e trabalhando em serviços domésticos ou trabalhos braçais em condições precárias. "Black, Brown & White", canção de Big Bill Broonzy, com uma crítica muito mais direta do que a maioria das composições do Blues, normalmente cheia de duplos significados e mensagens indiretas, composta na década de 1920 logo após a sua chegada em Chicago mostra a realidade do mercado de trabalho racista:

This little song that I'm singin' about
People you know it's true
If you're black and gotta work for a living now
This is what they will say to you
They said if you was white should be all right
If you was brown stick around
But as you black, oh brother
Get back, get back, get back
I went to an employment office
Got a number 'n' I got in line
They called everybody's number
But they never did call mine
Me and a man was workin' side by side
This is what it meant
They was paying him a dollar an hour
And they was paying me fifty cent

Já a crise de 1929 ampliou a experiência de penúria coletiva da população negra nos Estados Unidos. Os números apresentados por Karnal (2007, p. 175) impressionam e dão conta da dimensão da crise: na zona rural, a renda nas pequenas propriedades caiu 60% e um terço dos pequenos proprietários perdeu suas terras entre 1929 e 1932. A catástrofe era geral e epidêmica. Se o desemprego e a miséria advindos da crise atingiram inclusive as massas anteriormente protegidas, pode-se imaginar a situação desesperadora que os negros (sua taxa de desemprego nas cidades nortistas era de 50%), mulheres e imigrantes vivenciaram nos primeiros anos da década de 30. A Grande Depressão bateu forte na comunidade negra. A música de Skip James, "Hard Time Killin' Floor", gravada em fevereiro de 1931, nos fornece uma desoladora ideia do cenário de miséria que os assolou nesse momento.

Hard time's is here
An ev'rywhere you go
Times are harder
Than th'ever been befo'
You know that people
They are driftin' from do' to do'
But they can't find no heaven
I don't care where they go
People, if I ever can get up
Off a-this old hard killin' flo'
Lord, I'll never get down

Por fim, a utilização de mão de obra negra e, mais uma vez, utilizando-se de presidiários negros, foi a base para a construção da rede de ferrovias por todo o sul dos Estados Unidos desde o século XIX e foi um desenvolvimento fundamental para escoar a produção das commodities (até então o Rio Mississipi era a principal via) e transformar o país de uma sociedade agrícola em uma industrial. Bill Graves (2006) apresenta alguns números interessantes que demonstram o tamanho da expansão: "Entre 1865 e 1914, a população do país triplicou e o número de milhas de ferrovias cresceu sete vezes mais. Em 1920, quase toda a população do país vivia a vinte e cinco milhas de uma linha ferroviária" (GRAVES, 2006, p. 800).

Além disso, era o principal cano de escape para os negros sulistas migrarem para os estados do norte. E foram os próprios negros, organizados em times de trabalho, que colocaram as trilhas e realizaram a manutenção de reparos. Por isso a ferrovia teve tanta importância simbólica no imaginário da comunidade negra, e com profundo impacto naturalmente no Blues.

Alan Lomax observou de perto o duro trabalho nas linhas ferroviárias. Entre o carregamento de uma pilha e outra de ferro, os trabalhadores cantavam junto várias melodias, na tradicional forma de "call and response", cantadas para aliviar o peso do trabalho, batendo seus martelos de forma sincronizada e cada música para cada atividade específica. "Eu percebi que isso era como o trabalho pesado do Extremo Sul sempre foi feito – pelo trabalho negro, não força bruta em qualquer senso, mas por hábeis artífices prosperando no calor semitropical" (LOMAX, 1993, p. 169). Mesmo com o trabalho pesado e cansativo, horas e horas colocando milhas e milhas de trilhas novas, era o emprego mais desejável disponível para os negros.

O trabalho nas ferrovias era o melhor emprego disponível para os negros no Extremo Sul. Eles tinham algum respeito de seus chefes, que precisavam de habilidosos homens e um grupo feliz para ter o trabalho feito para que os trens possam chegar a tempo. O dinheiro era firme e melhor do que em qualquer outro trabalho e uma mulher se consideraria sortuda se seu homem trabalhasse numa ferrovia. (LOMAX, 1993, p. 170)

O desenvolvimento do Delta está intrinsecamente ligado às atividades da mão de obra negra na região. Seja limpando a floresta da região pantanosa, na construção das represas para segurar as enchentes sazonais do Mississipi, seja na construção das ferrovias, seja em gangues de trabalho compulsório das penitenciárias, seja nas plantações de algodão como sharecroppers, a mão de obra negra construiu o Sul do Jim Crow, esse Sul que os oprimia, violentava e os renegava uma vida igualitária em sociedade. Essa heterogênea classe trabalhadora, cuja ascendência africana - e as condições de vida degradante, injustiças e violências a que essa ascendência estava sujeita - os unia e aproximava-os, desenvolveu mecanismos culturais de defesa e resistência baseados em características herdadas de seus antepassados africanos, nos quais podiam descarregar e lidar com a tristeza e a frustração cotidianas de suas vidas e assim tratá-las e enfrentá-las diretamente, a fim de seguir - e desejar seguir - em frente, apesar de tudo. Qualquer que seja o trabalho desenvolvido pela mão de obra negra, a tradição africana permanecia viva nas canções de trabalho, como, por exemplo, "Take This Hammer", gravada em 1942 por Leadbelly, que mostra a sarcasmo e malícia dos trabalhadores diante da presença sempre ameaçadora do capitão, uma demonstração do contrateatro impregnado de simbolismo.

Take this hammer, carry it to the captain
Take this hammer, carry it to the captain
Take this hammer, carry it to the captain
Tell him I'm gone
Tell him I'm gone
If he asks you was I runnin'
If he asks you was I runnin'
If he asks you was I runnin'
Tell him I was flyin'
Tell him I was flyin'
If he asks you was I laughin'
If he asks you was I laughin'
If he asks you was I laughin'
Tell him I was cryin'
Tell him I was cryin'
They wanna feed me cornbread and molasses
They wanna feed me cornbread and molasses
They wanna feed me cornbread and molasses
But I thurts my pride
Well, It hurts my pride

Essas demonstrações não são fatos isolados e independentes entre si, muito pelo contrário, visam dar conta de um processo vivo, intenso e orgânico em termos de experiência, identidade e consciência, dando cor à cultura, aos valores e ao pensamento.

Não se trata da observação de fatos isolados em série, mas de conjuntos de fatos com suas regularidades próprias; da repetição de certos tipos de acontecimento; da congruência de certos tipos de comportamento em diferentes contextos – em suma, das evidências de formações sociais sistemáticas e de uma lógica comum ao processo. (THOMPSON, 1981, p.58).

Dessa forma, cada vez mais o Blues vem aparecendo como frações das experiências resultantes do diálogo entre o ser social e a consciência social; situações, tratadas em termos culturais, em que comunica uma parte da consciência compartilhada entre os membros da comunidade, da situação em que os indivíduos se encontram, não livres, mas que sempre vivem sob certas condições e relações produtivas determinadas.


André Espínola é formado em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, e um grande apaixonado pelo Blues, Jazz, Folk e Rock. É editor do blog O Filho do Blues, onde escreve sobre as novidades e novos lançamentos.
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