Uma discussão de classe e uma história do Blues no sul dos EUA #01


Hoje lançamos uma nova série no Southern Rock Brasil, Uma discussão de classe e uma história do Blues no sul dos EUA, originalmente publicada pelo André Espínola, colaborador do site, na Revista Espacialidades da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2016. 

O artigo pretende realizar um estudo através de um diálogo entre a história, o espaço geográfico e a música. Do primeiro, debatemos mais especificamente os conceitos de classe do historiador marxista inglês E. Thompson; do segundo, analisamos alguns traços marcantes do espaço geográfico, mais especificamente o sul dos Estados Unidos no início do século XX, ao redor do Delta do Mississippi, bem como a relação que esse espaço teve com as pessoas que viviam nele; por fim, observamos o estilo musical do blues e buscaremos compreender como a experiência cultural dos trabalhadores da região do Delta do Mississipi contribuiu para dar forma ao estilo entre as décadas de 1920 e 1940.

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Sumário

Parte #01 - Introdução
Parte #02 - A terra onde o Blues nasceu: O Delta e as Relações de Produção (1926-1942) - Parte 1
Parte #03 - A terra onde o Blues nasceu: O Delta e as Relações de Produção (1926-1942) - Parte 2
Parte #04 - A terra onde o Blues nasceu: O Delta e as Relações Sociais (1926-1942)
Parte #05 - Considerações finais

Introdução

Foi por meio do Blues que surgiu e proliferou um canal de comunicação importante para grande parcela dos negros norte-americanos que vivenciavam o momento de transição da primeira metade do século XX.

Antes, no entanto, temos que fazer duas considerações relevantes; a primeira se refere ao reconhecimento do impacto e da influência do Blues nas principais formas da música popular do século XX, do jazz ao rock, do gospel ao soul e do funk, através de processos de apropriação, cruzamento e fusão da música com a cultura, identidade, elementos raciais e condições sociais e econômicas; a segunda consideração que devemos fazer trata da própria origem do Blues como o conhecemos hoje, como produto da indústria cultural de massa, como um produto para ser vendido e que fosse atrativo para o grande público consumidor da comunidade negra. Esse Blues comercial é apenas a ponta do iceberg, já que certamente sofreu mudanças consideráveis diante da necessidade de adaptar-se às novas tendências e exigências comerciais e deve ter perdido elementos importantes de sua tradição popular mais autêntica e sincera, mas, como é graças a ele que temos os registros mais remotos do Blues, toda a esfera musical da análise também é a partir dessas gravações de Blues do despontar da indústria fonográfica das décadas de 20 e 30, principalmente, ou, para usar um termo da época, discos de raça ("race records"), para taxar no nome o mercado a que ele era destinado. Portanto, esses Blues não vinham carregados de uma intencionalidade histórica, na qual os Bluesmen buscavam se eternizar, mas sim como um meio de vida, de onde poderiam conseguir algum dinheiro e também servir de um canal de comunicação entre os membros da comunidade. Ou seja, em uma sociedade bastante segregada racialmente, o Blues surge como uma música da comunidade negra para a comunidade negra. "Todo negro, do Norte e Sul, que tivesse o dinheiro comprava um aparelho fonográfico. Todo jovem rapaz, cortejando sua garota no sábado a noite, trazia consigo o último hit da Paramount ao invés de uma caixa de doces" (LOMAX, 1993, p. 441).

Dessa forma, o Blues, se constitui numa fonte de grande importância para investigarmos as relações econômicas e sociais entre a população negra do sul dos Estados Unidos, dialogando com elementos da obra do historiador inglês E. Thompson, especialmente em suas contribuições sobre as noções de classe social, experiência, consciência social, teatro de poder, formas de luta, costumes, etc. Utilizando as canções de Blues como fontes históricas imprescindíveis, nas quais seus autores lidavam, dialogavam e comunicavam traços da vida individual e em comunidade, podemos problematizá-las e questioná-las acerca de como essas canções de Blues, que transitavam com constância nas residências de homens e mulheres negros(as), tanto urbanos(as) quanto rurais, representavam as suas inquietações diante do mundo, um mundo material em transformação e do qual, em muitas ocasiões, eram proibidos de desfrutar; a visão que eles tinham diante da opressão e exploração de que eram diariamente vítimas numa região extremamente racista e violenta consigo mesmos e com seus pares; as formas de vida e as formas de luta que transpareciam nas letras das canções e de que forma elas transpareciam, ou seja, de forma velada, cheia de mecanismos de autodefesa ou se críticas e percepções do mundo apareciam de forma clara e aberta.

Esse gênero musical expressou brilhantemente a condição contraditória de ser 'livre e cativo ao mesmo tempo'. As letras tocaram nas vicissitudes da exploração econômica e da discriminação racial, da solidão, das preocupações, e, sobretudo, dos desejos de escapar aos confinamentos de raça, classe e gênero. (KARNAL, 2007, p. 157)

No entanto, outras fontes escritas e depoimentos pessoais nos permitem observar características técnicas e recursos culturais bem mais remotos do que isso, movendo o discurso para além das letras e dos grandes cantores de Blues e levando-o para o sujeito histórico anônimo, na maioria das vezes invisível, mas que também reflete as relações sociais e econômicas experimentadas pelos notáveis Bluesmen. Nessa perspectiva encontram-se os trabalhos desenvolvidos pelos folcloristas e etnomusicólogos John e Alan Lomax nas suas gravações de campo para o Libary of Congress, nas décadas de 30 e 40, que serviram de base para a obra de Alan Lomax, "The Land Where The Blues Began".

O Blues, por ser um estilo bastante calcado na improvisação nas performances e na ressignificação das letras, segundo apontou Edward Komara (2006), características profundamente arraigadas na habilidade existente na transmissão oral, das comunidades de negros analfabetos e semianalfabetos no sul rural dos Estados Unidos, pode ser um canal importante para investigarmos a pressão do ser social sobre a consciência social nessas relações, como as congruências, ou seja, "as regras 'necessárias', as expectativas e os valores segundo os quais as pessoas vivem relações produtivas particulares" (THOMPSON, 2001, 262); as contradições que são reveladas pelos conflitos que afloram daquela comunidade local e ocupacional em relação aos modos de viver; e, por fim, as mudanças involuntárias, traduzidas nas transformações materiais que advém de avanços tecnológicos a estrutura produtiva, movimentos migratórios e demográficos, etc., que nos fala Thompson (2001, p. 262). É, enfim, fruto de um processo de pressão do ser social sobre a consciência social e que se deve tanto a ação humana desses sujeitos históricos como quanto a condicionamentos sociais. A luta das pessoas que compartilham essas experiências cotidianas é que constrói a consciência de que eles estão juntos diante de um mesmo sistema explorador e injusto. A classe é constituída pelas pessoas comuns em suas ações e relações sociais, ou seja, sujeitos de sua história, e não meramente como resultado de relações deterministas entre os donos dos meios de produção, os opressores, e aqueles que não o são, os oprimidos, como se os trabalhadores fossem apenas vítimas passivas desse processo. Thompson (1987), portanto, acrescentou a dimensão cultural ao materialismo histórico tradicional marxista ao falar que:

Não vejo a classe como estrutura, nem mesmo como uma categoria, mas como algo que ocorre efetivamente e cuja ocorrência pode ser demonstrada nas relações nas relações humanas (...) a noção de classe traz consigo a noção de relação histórica (...) A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses diferem (e geralmente se opõem dos seus). (THOMPSON, 1987, p.9-10)

Então, e enfim, será possível visualizar, a partir desse ritual, o Blues, a emergência de uma classe social única e coesa no âmago da população negra no sul dos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX? Ou será que os elementos ainda são insuficientes? Se o for, o que significa, então, essa manifestação cultural chamada de Blues no processo histórico de formação, de constituição de uma classe social?

Segundo Thompson (2001), "o significado de um ritual só pode ser interpretado quando as fontes (...) deixam de ser olhadas como fragmento folclórico, uma 'sobrevivência', e são reinseridas no seu contexto total". (THOMPSON, 2001, p. 238). Cabe aqui deixar registrado a especificidade de cada evento histórico e por momentos iremos os mencionar os estudos do historiador marxista Edward Palmer Thompson sobre a classe operária inglesa no século XVIII, no qual desenvolveu importantes noções de classe, experiência, consciência de classe, dentre outros. Como cada evento histórico é único no tempo, sendo moldado por sujeitos históricos que diferem no tempo e no espaço, não trata de tomá-lo como estrutura, como um sistema teórico fixo que consiste no ponto de partida para aplicá-lo na realidade. Portanto, para conseguirmos construir um panorama possível de ser analisado, de um processo histórico vivo, sendo feito por pessoas históricas que viveram naquele contexto específico, vamos primeiro analisar brevemente o ambiente físico onde essas forças atuaram, em relação ao contexto geográfico, histórico, social e econômico do Delta do Mississipi e o Cinturão Negro, no recorte histórico de 1926 até 1942, que é o período em que as canções do Blues mantinham tradições mais espontâneas e comunicativas em relação à própria comunidade negra norte-americana. Em seguida, observaremos as relações produtivas e sociais no qual essa comunidade estava inserida, percebendo suas experiências, as formas de exploração e as formas de luta, as contradições e as encenações do teatro de poder que essas relações produziam.

André Espínola é formado em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, e um grande apaixonado pelo Blues, Jazz, Folk e Rock. É editor do blog O Filho do Blues, onde escreve sobre as novidades e novos lançamentos.
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