Albert King: uma religião


Escrevo esse texto depois de muito ouvir Albert King, variando seus discos, entre um gole de cerveja e outro, em busca da inspiração e da parcimônia necessária para falar dele.

Impossível falar de Blues sem falar de Albert King. Figura primordial e essencial ao Blues como é conhecido atualmente, Albert King foi e ainda é a fonte de inspiração para inúmeros músicos e pessoas.

Com repertório de vastas canções calcadas no Blues, com toques sutis do Funk e do Soul, Albert King é até hoje, água de beber para o Blues.

Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix, mestres na arte das seis cordas, muitíssimo embarcaram no jeito e estilo único de Albert King fazer o Blues, tendo o primeiro inclusive, realizado um dos melhores registros de Blues de todos os tempos, o álbum In Session.

Albert King, que era canhoto e tocava sua guitarra sem inverter as cordas, dava ao seu som, o feeling que até hoje é venerado e copiado através dos seus licks entre uma passagem e outra de acordes do Blues.

A voz da Stax, que o projetou, junto à banda Booker T. & MG's, elevou o Blues à infinita potência com o compilado de singles Born Under a Bad Sign, também um dos maiores registros de Blues de todos os tempos.

O fato de Albert King utilizar com maestria em seu som elementos de Funk e Soul, gêneros tão arrebatadores na década da psicodelia, fez Albert King transcender o Blues e ir para o Rock, angariando legiões de jovens, brancos e negros, sedentos por seu som.

Tocou no Fillmore San Francisco, palco da contracultura hippie que ganhou o mundo entre 1965 e 1969, deixando outro registro magistral, o Live Wire Blues Power.

O que faz de Albert King tão especial? Em meu ponto de vista, Albert King conseguiu de certo modo, e ao mesmo tempo (junto da invasão britânica do Rock em terras estadunidenses), popularizar o Blues, unindo feeling, voz, espírito, estilo, jeito de se vestir, presença de palco, carisma e repertório único em uma única instituição musical e espiritual. 

O álbum "Jammed Together", gravado com Steve Cropper e Pop Staples, é um registro único de musicalidade que passa magistralmente pelo Blues, Soul e Funk. O tributo registrado à Elvis Presley, o disco "Blues For Elvis: Albert King Does The King's Things", é um dos maiores tributos à um dos maiores ícones do Rock e que deve ser ouvido por fãs de Blues. 

O registro "I'll Play The Blues For You" transcende gerações e é tocado até hoje por músicos mundo afora que carregam em Albert King, o espírito Blues de ser.

Albert King talvez seja o maior ícone de estúdios do Blues, gravações sem nada (ou com pouco) do que a tecnologia da época oferecia, nos permitia sentir a energia de seu som e da sua banda, num entrosamento quase que espiritual. Sopro, pianos, órgãos, baixo destacado, bateria que se faz sentir, frases faladas entre um verso e outro de suas canções tornavam seus discos de estúdio, verdadeiros shows ao vivo.

Sua obra e seu legado deixou discos incríveis, que assim como Jesus Cristo é pão para nossa alma (me perdoem os ateus por essa comparação), seu som é alimento e fonte de inspiração para quem ouve Blues. Sim, Albert King é uma religião do Blues. 

Albert King, apesar de não se considerar um King do Blues em vida, deve ser considerado sim o rei dessa tríade espiritual do Blues, composta também pelos seus co-irmãos do Blues, B.B. King e Freddie King. Seu legado deve ser espalhado para ouvidos sedentos por música e inspiração. É certo que sua obra matará sua sede de Blues. Faça de Albert King sua religião do Blues. E aí, já ouviu Albert King hoje?

Dil Genova tem 28 anos, mora em São Paulo, é um rockeiro, blueseiro, cervejeiro e Engenheiro de Software em tempo integral. Fã de Blackberry Smoke, Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, Dil escreverá sobre Blues e Rock aqui no Southern Rock Brasil sempre que puder.
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