John Fogerty sozinho continua sendo o Creedence?


Algumas vezes me pego pensando se o Creedence Clearwater Revival acabou mesmo em 1972, ou se a carreira solo do líder John Fogerty serve como uma continuação da banda.

Sempre que falamos de Creedence, pensamos em um quarteto, o que é lógico. Mas existia uma peça fundamental na banda, uma peça que era o compositor, vocalista, guitarrista solo e mais o que precisasse. 

Se foi o irmão mais velho, Tom, quem começou a banda, foi o mais novo John quem os colocou no mapa das grandes bandas de todos os tempos. Logo que o Creedence Clearwater Revival terminou, John deu continuidade em sua carreira, o que acabou tornando-se praticamente uma extensão da sua antiga banda. 

Em 1973 John apareceu com uma nova banda, chamada Blue Ridge Rangers e lançou o disco de mesmo nome. O disco contém 12 faixas, todas regravações de música antigas na linha Country, Folk, Gospel, Bluegrass. O repertório tem releitura de "Jambalaya" de Hank Williams, "You're the Reason", que foi gravada originalmente 10 anos antes por Bobby Edwards, a gospel "Have Thine Own Way Lord" e as tradicionais "Workin' on a Building" e "Blue Ridge Mountain Blues". O disco fez sucesso comercial com "Jambalaya". O que muitos demoraram pra perceber é que a banda, era na verdade apenas John. Em seu rancho no Oregon ele havia gravado todos os instrumentos e optou por não usar nem mesmo o seu próprio nome no disco. 

Em 1975, John lançou aquele que é oficialmente o primeiro disco com créditos a si mesmo. O disco que leva o seu próprio nome é uma pérola pra quem gosta de estilos musicais tradicionais da Louisiana. Misturando composições próprias que vão do puro Rock & Roll até regravações de Cajun music oriundo de velhos artistas de New Orleans, o disco é uma aula pra quem quer conhecer mais sobre a música negra do sul dos Estados Unidos. Neste disco foi lançada a clássica "Rockin' All Over the World" de composição do próprio Fogerty e regravada por vários artistas. 


No ano seguinte, John gravou mais um disco que se chamaria "Hoodoo". Antes do lançamento do mesmo, foi lançado um compacto contendo duas músicas que estariam no novo disco, o lado A era "You Got the Magic" acompanhando de "Evil Thing" como lado B. O compacto vendeu pouco e não foi bem aceito pela crítica. John e o dono do selo Asylum resolveram não lançar "Hoodoo". Apesar de não ter sido oficialmente lançado e John ter pedido para a Asylum destruir as masters do disco, não é difícil de acha-lo para download. O disco seria uma continuação do anterior, porém sem tanto brilho. Mas vale muito a pena dar uma ouvida, principalmente pra quem gosta de Southern Rock. 

Depois disso, John Fogerty voltou a lançar algo novo somente 9 anos depois, mas desta vez não falhou comercialmente e nem em qualidade. "Centerfield" é um ótimo disco focado no Country com as pitadas de Swamp Rock e muita influência dos vários pais do Rock & Roll. A faixa título é até hoje um hino sempre tocada nos jogos de baseball ao redor dos Estados Unidos (principalmente pela letra que fala justamente sobre o esporte). Logo no ano seguinte, foi lançado "Eye of the Zombie". O disco não mantém o mesmo pique do anterior, tem algumas pitadas de Pop Rock dos anos 80, o que não agradou muitos fãs. Mas ainda sim contém boas composições. 

Novamente John tirou umas férias, mais 9 anos de hiato entre "Eye of the Zombie" e o sucessor "Blue Moon Swamp", mas valeu a pena esperar. John Fogerty aproveitou pra curtir a nova família (ele casou-se novamente e teve 3 filhos) e voltou revigorado para lançar um disco consistente. Se não há nenhum grande clássico em "Blue Moon Swamp", o disco também não peca com canções fracas.

Nos anos 90 ainda tem que se destacar o ótimo ao vivo "Premonition", o primeiro disco ao vivo solo de John Fogerty. Lançado em CD e VHS na época (hoje também encontrado em DVD e BluRay), o disco conta com um repertório fantástico de músicas da carreira solo e também do CCR. A banda que o acompanha é ótima (om destaque ao bom baterista Kenny Aronoff que já tocou com inúmeros artistas de diversos gêneros). John estava afiado e faz você praticamente não sentir falta dos membros originais do CCR nas clássicas canções de sua antiga banda. 


Na década seguinte foram lançandos "Deja Vu All Over Again" (2004), o ótimo "Revival" (2007) que como o nome sugere, é um resgate aos velhos tempos de Creendence. "The Blue Ridge Rangers Again" (2009) é uma continuação do primeiro lançado 36 anos antes e conta com regravações de Delaney, Bonnie & Friends, Ricky Nelson, Buck Owens, John Denver, The Everly Brothers (com participação de Bruce Springsteen) e outros grandes nomes do Country. 

O último lançamento de John Fogerty foi em 2013, o disco "Wrote a Song for Everyone" contém duas faixas inéditas e 12 releituras de composições do próprio John Fogerty da época do CCR, cada faixa com a participação de uma banda ou artista da atualidade. De Foo Fighters, Tom Morello, Kid Rock e My Morning Jacket até Keith Urban, Miranda Lambert, Bob Seger e Allan Jackson. O disco vale mais pela curiosidade. 

Em 2014 foi lançada nos Estados Unidos uma auto-biografia intitulada "Fortunate Son"

Com 72 anos recém completados (Maio de 2017), John Fogerty segue firme fazendo shows pelo mundo, agora acompanhado de seus dois filhos Shane e Tyler. John tem feito participações em shows de outros artistas como ZZ Top e do velho amigo Bruce Springsteen também. Recentemente participou da faixa título do disco Love And War do cantor country Brad Paisley.

Certamente a dinastia Fogerty vai continuar no mundo musical, seja na lembrança do saudoso Tom Fogerty, ou pelo imenso talento de John Fogerty que parece estar encaminhando bem os seus filhos.

Rafael Cafarchio-Batista tem 33 anos, é designer gráfico, nascido no grande ABC, mas morador do interior paulista. Fã de Rock clássico, country, folk, blues e tudo mais de bom que a música pode proporcionar.
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