Reflexões de um One Man Band - Geração sem heróis


"O fruto da nossa criação, uma geração sem heróis."

Os nossos descendentes primaram pela sobrevivência da sua prole, atravessar as guerras, os períodos de escassez de alimentos, as crises econômicas vivos e juntos, ajudando uns aos outros mutuamente e preservando a humanidade dentro dos corações.

Presenciaram feitos horríveis de gente que era humana também, mas que foram capazes de mostrar o pior lado da nossa espécie, do que somos capazes, a natural prática de autodestruição.

Afinal de contas, o que nos levou a esse tipo de conceito "ser humano evoluído"?

Nos iludimos com a ideia de que seria possível fazer de nossos filhos, gente bem resolvida, que não odeia, equilibrada, seres com uma maior capacidade de lidar com as suas humanidades, seres quase de luz.

A partir do momento que nós elevamos a próxima geração a um suposto nível superior, presenciamos o efeito colateral de toda essa vaidade, criamos uma geração sem heróis, que não vê os seus antecessores como referenciais de vida, de profissionais em fim, uma geração que não dará o mesmo valor ao passado.

O artista dessa nova geração observa quem fez surgir o rock e o blues aqui no Brasil com um estranho olhar, que descarta a reverência, que não vê como prioridade um respeito merecido para quem foi pioneiro, pois por intermédio deles que uma cena surgiu o que antes deles não existia.

Vou fazer dez anos de carreira, mas é muito pouco tempo comparado a maioria dos artistas nacionais que ouço, que começaram na década de setenta e oitenta por exemplo. Mas em caráter de exemplo vivido, frases como:

Bumbo e caixa nos pés, mais um violão e pronto, acho que eu consigo fazer isso.

Realmente, é simples assim, não há nada de astronômico na prática One Man Band, mas meu preparo não está em tocar vários instrumentos ao mesmo tempo e sim, estar pronto para as intempéries de uma apresentação de rua, estar pronto e disposto psicologicamente para não ser tão interessante assim numa exibição como One Man Band, além do mais One Man Band também tem dessas coisas.

Eu presenciei coisas assim, e sei de gente que passou por isso e hoje em dia, perdeu a autoconfiança que é extremamente necessária para enfrentar o público devido a uma frustração que viveu anteriormente como One Man Band numa apresentação de rua.

Uma geração que vê tudo com muita facilidade, mas que não lida bem com as frustrações, com a dor de não ser aceito, de não ser tão brilhante assim e aí, vem a depressão, o vazio, os porquês, a realidade que têm derrubado todas as falsas promessas para essa geração, todas as tentativas de fazer deles quase uns super-humanos.

Será que este é o efeito colateral de uma geração sem heróis? No meu caso, tenho heróis sim, tenho referenciais, gente que para mim vale a pena ouvir, são meus referenciais artísticos inclusive como One Man Band. Mas sou obrigado a frisar aqui que a esse tipo de comportamento é muito natural para quem é da minha geração. E isso muda completamente o jogo, me coloca num patamar mais real, que me isenta de querer me comparar com os gigantes, com gente que é grande já há muito tempo. Por isso, a minha cobrança é completamente diferente logo, as minhas frustrações também serão muito menores, a auto cobrança logicamente é muito menor.

Presencio em nossos dias duas tristes realidades: o mal-estar de quem foi pioneiro, e tem sido tratado com uma certa indiferença, com olhos de descarte. E uma geração em um estado de constante depressão, pois percebeu que muito do que tinha sido falado sobre eles, nada mais era do que um sonho lúdico de seus pais, que não tinha nada a ver com a real condição humana, que comete erros, se engana enfim, que é gente de verdade!

Ari Frello
Ari Frello é guitarrista, violonista, gaitista, cantor, compositor, produtor musical e professor de música. Está na estrada desde 2008 e se tornou conhecido por seu trabalho como "One Man Band". Já lançou três álbuns autorais e já trabalha no próximo.
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