Os primórdios do Eagles


Falar sobre o Eagles não é uma tarefa fácil. Muitos gostam, outros tantos consideram uma banda vendida. Particularmente eu estou na turma que gosta. Mas neste texto vou atentar-me à criação da banda e aos dois primeiros discos que são de fato puramente Country.

A banda não foi formada como muitas, não eram amigos de adolescência que se juntaram pra fazer música. Certamente cada um deles vieram a tornar-se instrumentistas com o sonho de ser rock star, assim como 10 em 10 jovens que gostavam de música nos anos 60 queriam ser os Beatles ou os Stones! Mas quando montaram a banda, embora não fossem músicos famosos do grande público, todos os quatro já tinham bagagem. 

O principal líder da banda era Glenn Frey, nascido na industrial cidade de Detroit, Frey começou a integrar bandas de rock nos anos 60, até que no final daquela década conheceu seu conterrâneo Bob Seger. Bob já tinha uma banda profissional e já estava gravando seu primeiro disco "Ramblin' Glambin' Man", no qual Glenn Frey participou tocando violão e fazendo backing vocal em algumas faixas. Ainda em 1969, Frey mudou-se para a Califórnia, aonde foi apresentado a J.D. Souther (compositor e que ficaria famoso pelo super grupo setentista Souther-Hillman-Furay Band). Frey e Souther tornaram-se grandes amigos e parceiros de composições. Através de J.D. Souther, Frey também conheceria Linda Ronstadt e Jackson Browne. Linda e Jackson se tornariam famosos também na década seguinte e assim como Souther, seriam essenciais para a história do Eagles, mesmo que nenhum tenha sido membro da banda. 

Vivendo na ensolarada Califórnia justamente na época musical mais criativa, Frey logo ficou conhecido por sua potência vocal, alcançando notas altas e com uma melodia quase que perfeita, depois de gravar um disco com o amigo J.D. Souther em um duo Folk/Country chamado Longbranch Pennywhistle, Frey conheceu Don Henley baterista texano que havia tocado em bandas Country, Bluegrass e Dixieland em sua terra natal até rumar para a Califórnia e gravar um disco com a banda Shiloh, produzido por ninguém menos que Kenny Rogers. Frey e Henley estavam trabalhando para a mesma gravadora e foram recrutados para cair na estrada em turnê pelos Estados Unidos na banda de apoio de Linda Ronstadt. Nesta turnê nascia o embrião do que viria a ser o Eagles. 


De volta a Los Angeles, os dois começaram a compor juntos (J.D. Souther e Jackson Browne embora seguindo suas carreiras solo, continuavam trabalhando em composições com Frey). Frey e Henley foram apresentados ao baixista Randy Meisner, membro original da banda Poco e que havia sido baixista e backing vocal da banda de Ricky Nelson, e o guitarrista e banjista Bernie Leadon, ex-Flying Burrito Brothers. Assim, o quarteto estava formado. Um super-grupo para quem vivia a realidade da cena musical de Los Angeles, mas ainda quatro desconhecidos para o mundo. 

O primeiro disco auto-intitulado foi produzido por Glyn Johns, produtor renomado que havia trabalhado com Stones, Faces, The Who, Steve Miller Band e outros nomes famosos da época. Apesar de estar acostumado a trabalhar com bandas mais roqueiras, Johns teve uma percepção importante a respeito dos quatro membros do Eagles, eles não eram apenas bons instrumentistas mas também tinham técnica vocal, o vocal dos quatro além de funcionar bem separados, funcionavam muito bem em conjunto, dando assim versatilidade sonora à banda que poderia viajar desde o Country Rock marcante da época, até o Country mais tradicional e o Folk estilo Crosby-Stills-Nash-Young, por exemplo. Desta forma o primeiro disco foi lançado em 1972 e foi muito bem aceito, não apenas na Califórnia, mas em todo o território americano e além dos oceanos, como na Inglaterra por exemplo e Austrália (pais aonde a banda é cultuada até hoje).

O disco conta com clássicos como "Take It Easy" (composição iniciada por Jackson Browne mas nunca terminada até Glenn Frey leva-la para estúdio, finaliza-la e transforma-la em um hino da banda), "Peaceful Easy Feeling" e "Witchy Woman" também tornaram-se bem aceitas pelo público e pela crítica.


Depois de uma turnê os integrantes já se reuniram para gravar o segundo disco e aproveitar o bom momento. Assim, em 1973 foi lançado "Desperado", o segundo disco da banda, no qual é visível o talento de cada integrante. O disco foi idealizado por Frey para ser um disco conceitual sobre Outlaws mas com uma analogia à história de vida deles mesmos e do ponto de vista que eles tinham sobre a indústria musical na época, já que era muito comum os músicos ficarem com quase nada (ou em alguns casos, nada) dos lucros dos próprios discos, mesmo quando reclamados na justiça. A ideia era mostrar como os músicos sentiam-se marginalizados na época. A contra capa do disco simboliza bem a ideia. Enquanto vemos uma ótima reprodução da icônica foto da Gang Dalton capturada, morta e colocada em frente a um saloon para servir de exemplo do que aconteceria à aqueles que insistiam em infligir as leis, a foto simboliza também a batalha gravadoras contra músicos. Na arte da contra capa pode-se notar que os quatro integrantes da banda, além dos amigos e também músicos J.D. Souther e Jackson Browne, representam a Gang de foras da lei abatida, e os que são vistos em pé como homens da lei são o produtor Johns, o fotógrafo e outros que trabalhavam para a gravadora simbolizando perfeitamente a ideia conceitual do disco.

Apesar do disco contar com belas baladas Country e Country Rock de primeira, a recepção da crítica foi negativa em muitos casos, e as vendas caíram bastante em relação ao primeiro. Hoje "Desperado" é considerado Cult e importante no contexto da cena Country Rock da época. 

A partir daí, com o gênero Country Rock em decadência comercial os Eagles foram tomando um rumo mais Arena Rock. Nos discos seguintes ainda pode-se notar influência Country e Folk, mas sem a pureza dos dois primeiros trabalhos. Em 1975, Bernie Leadon deixou a banda por não sentir-se confortável com o rumo mainstream que a banda havia tomado. No lugar dele, entrou para a banda o ex-James Gang, Joe Walsh, um aclamado guitarrista de Hard Rock com influência Blues e Country. A banda continuou tecnicamente muito boa, mas ai já é outra história.

Pra quem gosta de Country Rock puro, o auto intitulado "Eagles" e "Desperado" são a melhor opção.

Rafael Cafarchio-Batista tem 33 anos, é designer gráfico, nascido no grande ABC, mas morador do interior paulista. Fã de Rock clássico, country, folk, blues e tudo mais de bom que a música pode proporcionar.
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