Faixa a Faixa: Them Old Crap comenta Galeria Fantasma


A ideia do "Galeria Fantasma" veio de uma evolução da banda, expandindo caminhos além do Bluegrass/Country music, consolidando a identidade e originalidade da banda, declarada Undergrass.
A ideia do Undegrass foi inspirar-se no Bluegrass para caminhar entre mistos de caos e tristeza, em temas obscuros, sensitivos sobre o cotidiano da vida, e também o lado espiritual do ser humano.

Cuidadosamente traduzido como "Abaixo da Grama", a característica do Undergrass define o som como um "Bluegrass para espíritos"; com a dupla definição de um som underground. A nova formação trouxe influências ciganas e pos-punk para a banda, expandindo o que já se tinha iniciado com o começo da ideia do primeiro álbum, e se firmando com o lançamento do novo.

As canções são uma mistura de músicas novas, músicas antigas e modificadas, músicas experimentais e psicofonia/ psicografia de algumas delas. Contando com maravilhosas parcerias nacionais e internacionais.

1 - BREATH YOUR LIFE

O álbum abre com um Bluegrass/Western que fala sobre decisões e aproveitar a vida com coragem, e não se deixar levar por desconfianças, medo, ou algo que vá deixar você infeliz. Originalmente foi escrita para um formato Outlaw Country/Western, mas com a adaptação do cavaquinho do Lucas na introdução/lead, optei por deixá-la acústica. O curioso foi que a fusão aconteceu de forma espontânea, durante a Tour com Jayke Orvis na Europa, Lucas estava brincando com o riff que ele já tinha criado, e era o mesmo tom dessa música que eu já tinha composto, e eu só entrei tocando.


2 - SHIVER

Essa música é sobre quando eu já estava há 5 meses em tour, e não aguentava mais de vontade de ver minha família, principalmente minha filha. Escrevi essa música para ela, falando sobre o que penso quando estou em tour, um misto de medo e saudade. A parte musical veio junto com a letra, quando raramente isso acontece.


3 - SOMEONE

Quando escrevi "Someone", ela era um pos-punk ao estilo Joy Division, mas adaptei para o formato acústico logo depois de uma longa conversa com meu irmão Fernando, sobre apresentá-la ao Them Old Crap, e ele foi quem não me deixou jogá-la fora. A letra foi inspirada por um psicografia de um espírito que se via em desistência. Ele conta que tinha tudo, mas estava sem a vontade de viver, pois tudo o que ele fazia e conquistava era para os dois, e nada estava bom, nada era suficiente.


4 - CRUCIFIED BY LOVE

Quando eu viajava pela Escandinávia, passei por um parque com um cemitério no meio, e na cruz do centro dele havia um escrito "By Love". Por ser uma música escrita para minha namorada, eu fiz referência ao título "Buried Alive By Love" do HIM, mas com uma letra romantizada inspirada pelo escrito ao pé da cruz, que mostrava uma decisão própria de ser crucificado pelo amor. A sonoridade e influência dela se deve total desabafo da dor de estar longe de quem se ama.


5 - CONSTANT SORROW

Eu estava em tour em 2016, passando pela Holanda na casa de um amigo em Hilversum. Acordei com um cochicho na cabeça, e a letra foi saindo inteira em português, logo depois eu a traduzi rimada e a música veio como se eu já a tocasse há tempos. Após a letra, recebi o nome e o ano de falecimento da pessoa, e essa foi mais uma música com a letra psicografada deste álbum. A letra fala de deixar o passado para trás e aprender com os erros, próprios e os dos outros. Não se deixar levar pelo pecado de outra pessoa, e não desistir do seu modo de vida, mesmo deixando o passado pra trás. Aprendendo a não ser o mesmo, sem deixar de ser eu mesmo. Andy Gibson (steel guitar do Hank III) entrou em contato para fazer uma participação nesse som, e estamos estudando um futuro registro.


6 - BY MY SIDE

Essa música fala sobre as dificuldades de superar as diferenças. Foi inspirada nos conflitos entre nações ao redor do mundo, mas também nos pequenos conflitos diários que acontecem entre grupos ou "tribos" urbanas. Tenta mostrar que a amizade é maior que o gosto e a opinião, e que podemos celebrar juntos independente da música que se ouve ou de onde se vem. Na música misturamos Bluegrass com Baião, justamente para demonstrar que as barreiras e fronteiras são criadas para nos distanciar, e , uma vez que ultrapassamos esses muros invisíveis, compreendemos que não somos tão diferentes assim.


7 - WHISPER HELP

Recebi essa música por um espírito antigo de uma mulher chamada Maria, em 2006. Mas nunca havia encontrado um projeto certo pra tocá-la, até esse álbum. Ela fala de um encontro caloroso entre um casal que se encontra em algum ponto, onde ela está morta e ele não. Ele quer ir para o lado dela e ela não permite, mas o provoca, incitando o encontro. A washboard ficou por conta da Aline Lorenzetti da banda Turvo Pardo Paranapanema, uma washboardista de talento de uma banda maravilhosa, grandes músicos e grandes amigos.


8 - RITUALS

"Rituals" fala sobre a rotina na vida de estrada e convívio da banda. Ela foi uma das músicas que foi realmente finalizada no estúdio, com um trabalho excelente de Alexandre Bressan. Ela conta com as espetaculares linhas de violino da norte-americana Liz Sloan, que já tocou com Bob Wayne, Jayke Orvis, e atualmente com Urban Pioneers. É uma das minhas favoritas atualmente, pois expressa a entrega ao abismo, e marca a luta de um modo de vida.


9 - MAKE UP

Musicalmente, foi feita para o formato de guitarra/bateria, mas quando toquei ela acústica decidi arranjá-la para o Them Old Crap. "Make Up", fala da dificuldade da distancia de um casal, e os problemas que os dois enfrentam por ela. Solidão, medos, erros e planos, em uma conexão entre duas pessoas, onde não há o desistir.


10 - ANAJS

Em 2005/2006 eu tocava em uma banda pos-punk, e conheci o som de uma banda chamada Elegia. Um som original inspirado nas minhas bandas preferidas do estilo, com letras em português e inglês, uma atmosfera facilmente acessível, de uma profundidade complexa e espetacular. Eles influenciaram muito na minha forma de compor, escrever, me vestir e na forma de eu tocar meu instrumento. Então decidi entrar em contato com Paulo Gotoh, vocalista, pedindo permissão para registrar uma versão de uma das músicas mais impressionantes que eu já ouvi. 


11 - LEAN ON ME

Quando compus "Lean On Me", eu imaginava um hardcore ao estilo de Social Distortion, com letras fortes e pra frente, refrão marcante e difícil de tocar. Aquela música soco na cara no meio do show, e aconteceu que eu imaginei: "o que seria mais um soco na cara do que acordar a galera com um chacoalhão?" Na cena musical existe o profundo desrespeito com o trabalho dos mais novos, não existe o apoio, e a mídia, por muitas vezes, favorita um artista enlatado, de mais fácil acesso e digestão do que uma banda verdadeira e sincera, genuína. Isso aconteceu muito com a gente, e eu decidi levar isso á uma visão mais ampla, falando sobre amizade. "Lean On Me" trata de questões como preconceito, perseguição, julgamento, mas também conta com a solução simples: ajuda. Ajudar o próximo, os mais novos, quem está caído, quem está por último, compartilhar de experiências e conhecimento, ajudando todos a crescer.


12 - CALDROUN

Em todo o caminho musical que percorri, há um (pouco explorado) que me atingiu em cheio, e foi a música Celta. Essa música foi fruto de uma parceria incrível entre eu e minha madrinha Viviane. Ela tem mais de 200 poemas escritos, e uma caminhada espiritual profunda. Ela me entregou essa letra em português, e com a ajuda de uma bruxa eu a traduzi para inglês, sem perder o contexto, mas de uma forma diferente. A parte musical toca as raízes do meu instrumento, e decidi fechar com todo o toque medieval da história, com a participação de dois músicos incríveis, João Salles no acordeon e Hélcio Hell Fiddler (Terra Celta ) na nickelharp, um instrumento verdadeiramente medieval. A letra fala sobre uma bruxa que está sendo queimada na fogueira, e não compreende o porque de tanto ódio, se todos somos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Usando o caldeirão como referência a cura e a própria fogueira que a leva embora para o outro lado. A letra toda ela conta oque vê em sua volta.


13 - GUERREIROS DO SUBMUNDO

Como sempre no Them Old Crap, a música punk do álbum, falando sobre os Guerreiros do Terceiro Mundo, e as nossa dificuldades e injustiças que vivemos. Principalmente lá fora, onde as pessoas tem condições melhores de vida, as pessoas não se depararam com as realidades do nosso país, e essa música fala sobre o modo de vida de quem luta, e procura a solução para sobreviver por aqui, com garra e luta.


14 - BARUTCHA KREPUTCHA

Essa é uma música que criei em 2012, estudava em uma escola de circo em Londrina. Na escola apresentavam-se espetáculos como provas de graduação. O que escolhi foi palhaço e o tema foi uma história de um jovem casal apaixonado.  Como eu já era músico na época, criei um tema para a apresentação. O tema de um circo que chega à cidade, tendas pequenas e carroças como uma feira e ao centro a tenda principal. Uma jovem passeia feliz entre as tendas e se depara com o jovem palhaço. Toda uma história de paixão acontece e no final ela se despede e ele se vai com o circo... A música expressa paixão, o amor, a perda e a saudade. Coisas que acontecem na vida de quem vive na estrada.
* O significado de Barutcha Kreputcha é o que seu coração mandar. 
** Essa música tem uma grande importância para mim pelo os momentos que passei e por ser ensaiada com a banda umas 3 vezes. No dia da gravação do disco o Eduardo olhou para mim e perguntou, "vamos gravar?" Na hora pensei... Será!? Mas foi como algo mágico e único que a música foi gravada. Uma base e todos os riffs sendo criados encima da base. Com a incrível participação de João Salles no acordeon


15 - THEM OLD CRAP

Essa foi a primeira música depois do primeiro álbum e fala das experiências de quando eu cheguei em Londrina em 2013 pra tocar com o Them Old Crap, os amigos esperando, os shows mal pagos, mas sempre lutando pela música, e as dificuldades de uma banda lutando pela carreira.


Na minha opinião, esse álbum é uma transição pacífica entre os dois polos da banda, o lado diversão e descontração, e o lado sério, espiritual e mais complexo, que agora toma frente no trabalho, sem perder a pegada rápida e descontraída da banda, apenas evoluindo o trabalho, levando á outro nível mais profissional e questionador.

Espero que as pessoas se identifiquem com o som, e principalmente as letras, questionem, julguem, debatam, achem referências, achem um apoio e sintam cada parte desse trabalho que foi feito com tanto esforço, dificuldade, mas com todo cuidado e carinho para chegar á melhor forma, especialmente vocês.

Valorizem os artistas locais e nacionais, sua história, sua luta, e rest in peace.

Undergrass.
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