A importância renegada do Blues Rock para o Blues


O leitor deve estar se perguntando: mas que raios de título é esse? Convido o leitor a tratar de uma abordagem diferenciada, não menos polêmica, sobre o Blues Rock e a importância desse sub-gênero da árvore genealógica que é o Blues.

Afinal, caras como Joe Bonamassa, Kenny Wayne Shepherd, Henrik Freischlader e outros merecem mais atenção por parte da ala purista do Blues? Digo que sim e explico nos parágrafos abaixo as razões para ao menos, reconhecermos a mínima importância que nomes como os citados acima, possuem na música.

Minha história com o Blues começou quando eu tinha 11 anos de idade, até nessa época, era fã fervoroso (ainda sou) de Pink Floyd e Titãs, tendo inclusive, discos de vinis dos citados. Através de um amigo, fui apresentado ao músico que mudou por completo minha vida e definiu os rumos do meu gosto musical pelo Blues: Jimi Hendrix.

A versão de "Red House" tocada em Woodstock, com todo aquele som melancólico e com uma musicalidade incrível me fez querer conhecer mais sobre o Blues. O leque se ampliou de tal maneira, que quanto mais eu procurava saber sobre o Blues, mais coisas me apareciam. Logo, sons de Buddy Guy, B.B. King, Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan, Led Zeppelin para além de "Stairway to Heaven" e o próprio Hendrix tornaram-se uma constante em minha vida.

Jimi Hendrix, junto com boa parte da nata musical sessentista (leia-se Cream, Janis Joplin, The Doors, Grateful Dead, Mountain, Creedence Clearwater Revival e outros), surgiu para o mundo como um músico do rock. Aquela sonoridade revolucionária pra época, o colocou como o rei da guitarra elétrica. E Hendrix foi a minha porta de entrada para o Blues.


Rory Gallagher, um Bluesman de primeira grandeza, veio ao mundo da música através do rock com o The Taste ainda nos anos 60. Gary Moore, mestre das Blues Ballads e dono de um feeling primoroso no Blues, tornou-se conhecido através do Thin Lizzy. Muddy Waters tornou-se ícone venerado graças ao empenho do movimento britânico do rock encabeçado, em grande parte, pelos Rolling Stones e por Eric Clapton.

Na década de 80, quando tudo parecia estar morrendo para o Blues, muito pela invasão do Glam Rock, Punk Rock, Hard Rock e do Metal (em especial do Trash e da N.W.O.B.H.M, leia-se a A Nova Onda Britânica do Heavy Metal), eis que um furacão do Texas surge para abalar as estruturas do Blues com riffs poderosos e um feeling nunca visto antes. Stevie Ray Vaughan tornou-se um ícone marcante na história do Blues, elevando o Blues Rock à infinita potência.

E todos eles, de alguma maneira, atiçaram minha curiosidade sobre a história do Blues, as raízes, a essência e o estado de espírito que o som proporcionou à mim. Mais do que nunca, o Blues atualmente é mais acessível do que muitos anos atrás mas ainda torna-se restrito para poucos. Afinal, qual destino terá o Blues dentro de algumas décadas que virão?

Carregando a bandeira do Blues sob a virtuosidade da guitarra elétrica (tal qual Hendrix um dia o fez), Joe Bonamassa tem tornado o Blues mais conhecido entre a juventude, adotando novas roupagens ao Blues tradicional, reverenciando ídolos passados, lançando mais e mais álbuns com Blues de qualidade mas que ainda é visto como uma "pulga atrás da orelha" dos puristas do gênero.

Negar a contribuição de caras como Bonamassa (em especial) para o Blues, muito por ele não ser um Blueseiro em essência, ser branco, virtuoso demais ou não ter a voz do Blues é como negar a importância que a chuva tem nos tempos de seca. Afinal, a juventude atual que ainda não conhece o Blues, possuindo todo o acesso de informação em níveis insanos, iria se interessar por um Blues com solo de guitarra ou pelo single "Hoochie Coochie Man" de Muddy Waters? Aposto uma cerveja com o leitor que a primeira opção é a escolha dos mais jovens.

O cenário evolutivo do Blues, cada vez mais aponta o Blues Rock como sendo o início de uma saga de conhecimento musical. Duro dizer, o Blues tradicional não atraí jovens e faz parecer que está morrendo. E é aí que entra o papel de músicos do Blues Rock: manter a chama do Blues acesa.

O Blues Rock, bem como o Blues tradicional, é tocado em bares, PUB´s, praças e festivais mundo afora, por inúmeros músicos competentes, de figuras desconhecidas até outras mais famosas ou excêntricas, com discos gravados ou sem discos, sem chance nas grandes rádios pois sabemos bem, Blues não é rentável para as grandes corporações que se rendem ao pop. Por isso, é de suma importância, ao fã do Blues, apoiar o cenário Blues Rock mesmo não sendo o seu sub-gênero predileto. De fato, "Hoochie Coochie Man" é mais charmosa que "Stop!" (de Joe Bonamassa) mas não chama tanta atenção para novos ouvintes.


A bandeira do Blues Rock é muito maior do que enxergamos e seu impacto talvez não possa ser medido. É importante apreciarmos mas sem esquecermos das raízes e do legado musical do Blues, que sempre vai existir. A missão do ouvinte de Blues é de tornar o gênero acessível, tornando o mundo da música menos comercial possível. Leitor, pergunte-se à si mesmo, para quantas pessoas você apresentou o Blues? Qual o esforço feito para tornar o acesso agradável à essas pessoas? Quantas delas gostaram e passaram à saber mais sobre o gênero? Quantas dessas pessoas podem ser consideradas jovens?

Tenho feito isso através do Blues Rock, indicando à amigos e familiares, tão habituados à música comercial e de certo modo, tem dado algum resultado. A missão não é fácil, lapidar pessoas à um gênero totalmente desconhecido e incompreendido para elas, é tão difícil quanto aprender uma nova linguagem.

Em uma situação hipotética, ao meu ver, nesse ritmo desenfreado da fragmentação da música digital, me leva à crer num possível domínio do Blues Rock no cenário musical Blues dentro de algumas décadas. Afinal, para cada disco de Blues tradicional lançado atualmente, surgem três ou quatro discos de Blues Rock nas profundezas fonográficas da música.

Entendo também, que o Blues Rock deve apresentar o Blues tradicional, deve também, mais do que nunca, se adotar do feeling e beber da tradição das raízes Blues para que ela nunca seja esquecida e largada ao tempo e ao legado. O Blues deve se renovar sempre com o olhar voltado ao seu passado.

Atualmente, podemos citar muitos artistas que fazem do Blues Rock um som único, enraizado em passados distantes mas imprimindo estilo próprio. Seasick Steve, com toda aquela aparência de fazendeiro, coloca em seu som, o tempero e a atitude do Rock no meio de peças Country e Delta Blues, tornando-se um ícone e único no que faz. Jack White, talvez um dos nomes mais relevantes do cenário Blues Rock, faz o mesmo com seu som, impossível não ouvir suas músicas sem lembrar das referências do Blues do Delta. Joe Bonamassa, Jack White, Seasick Steve, Kenny Wayne Shepherd, Warren Haynes com a Gov´t Mule, Henrik Freischlader, Gary Clark Jr., John Mayer em tempos áureos e outros músicos de menor referência, mas tão competentes quanto os citados, fazem do Blues Rock algo único e prazeroso.

Deixo esse texto para que o leitor reflita e possa debater sobre os rumos do Blues no futuro e possam continuar fazendo dele uma das razões para viver!

Dil Genova tem 28 anos, mora em São Paulo, é um rockeiro, blueseiro, cervejeiro e Engenheiro de Software em tempo integral. Fã de Blackberry Smoke, Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, Dil escreverá sobre Blues e Rock aqui no Southern Rock Brasil sempre que puder.
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