O Blues de Frejat e Cazuza - Parte 3


O fim dos anos 80 se aproxima e a produção musical da dupla segue em grande escala, a assinatura "Cazuza/Frejat" já era imortal naquele momento, e ambos seguiam flertando com grandes nomes do Rock/MPB nacional.

O ano de 1988 registra dois álbuns excelentes desses artistas e suas bandas. "Carnaval" é aula de Hard/Rock rifador com o suor, arrogância e caretas que merece o estilo. "Ideologia", um dos mais vendáveis discos de Cazuza, merece dois destaques, "Vida Fácil", bluesy balança quadris com uma letra formidável, e "Blues da Piedade", um dos maiores sucessos de sua carreira. Em andamento atípico do blues tradicional, a trinca, música/letra/solo, traduz o necessário para compreensão desse clássico.

A sequência de trabalhos do Barão continua calcada no Hard/Rock direto com "Calada da Noite" e "Barão ao Vivo", e repousando em belas versões, lançam "Acústico MTV". "Supermercados da Vida", todavia, retoma um Barão cheio de blues em suas composições, "Azul Azulão" inicia com groove shuffle e guitarra que arde em devoção aos mestres, "Fogo de Palha", acompanhada do Dobro/Ressonator reclama do amor - Nada é mais blues que isso - "Comendo Vidro" com letra Nonsense tem arranjo sofisticado no melhor Jazzy proposto pela banda!
Cazuza, vivendo sob custódia do HIV, compõe, grava e produz ciclicamente, seu registro ao vivo, "O Tempo não Para" é sucesso. "Burguesia" é um enxovalho de ótimas canções, seus companheiros de produção e arranjos, afiados, destilam Blues em prol do disco. "Nabucodonossor" tem solinho Chukck Berry na introdução e "Garota de Bauru" tem pitadas blues com Walking bass de bom gosto.

"Cartão Postal" é uma das regravações do Disco, slow blues original de Rita Lee/Paulo Coelho tem clima típico, com guitarra respondendo às intervenções da voz, já fraca, porém rasgada e emocionante de Cazuza!

"Por aí" de 1991, póstumo, uma espécie de lado E/F de "Burguesia" tem excelentes destaques. "Hei Rei" (Cazuza/Frejat) tem clima Country/Blues com guitarras que emulam com beleza um lap steel. "Cavalos Calados" original de Raul Seixas, tem clima mórbido de despedida e quando emendada com "Summertime" (marcada na voz de Janis), elevam a influência bluseira do artista.

Frejat continua trabalhando e em 1994 lança "Carne Crua" com os Barões. "Guarde essa canção" é doce, "Seremos Macacos outra vez" é Rock and Roll puro e o "Inferno é aqui" tem riff Jimmy Page com texturas de teclados Booggie Woogie em alguns momentos, e duelo guitarra/teclados. É blues na alma.
Os subsequentes lançamentos, tanto para a obra do Barão Vermelho, quanto para os álbuns solo de Roberto Frejat, caracterizam artistas alinhados com o Pop, e remetendo, em alguns casos, a um Frejat que busca uma carreira que venha amadurecer ao melhor estilo Roberto Carlos romântico. 

Desse novo traje musical, vale destacar "Trapaça da dor" do bem quisto "Sobre nós 2 e o resto do mundo", a faixa tem sotaque Latin Blues com Carlos Santana tocando o coração de Frejat nos solos e acordes. Linda canção.

A referência desses grandes artistas para a música nunca foi novidade, a coletânea proposta nessa coluna, procurou traduzir uma linguagem diferente do grande Xeque músico/cultural de Frejat/Cazuza/Barão Vermelho e todos os artistas/parceiros que emolduraram suas marcas anacrônicas na MPB.


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Conrado Graff é guitarrista e vocalista na banda paraense Soul Blues. Ouvinte voraz de Jazz, Southern, Rock e Blues. Pesquisador informal dos estilos e artistas que moldaram música e a literatura! Professor e coordenador pedagógico secundarista nas horas vagas!
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