Joias raras do Blues nacional: a influencia em Luiz Melodia


O emergente cenário da MPB do fim da década de 60 trouxe à tona músicos, intérpretes e compositores heterótrofos de uma contra-cultura global. Mentes brilhantes sintetizaram Jazz, Rock, Funk, Soul e claro, Blues, nas molduras brasileiras, afim de achar sua identidade. Luiz Carlos dos Santos, talvez tenha usado o nome artístico de seu pai, Oswaldo Melodia, para apresentar ao Mundo sua pluralidade musical. A relevância de Luiz Melodia traz na bagagem: interpretações de suas músicas por Gal e Bethânia; apresentações nos festivais de Montreaux e Folcalquier; além de inúmeros prêmios por seus trabalhos.

Oriundo do Morro do Estácio no Rio de Janeiro - um dos berços do samba carioca - em seus dois primeiros discos Luiz Melodia é tórrido e pulsante com o Blues em suas influências e composições.

O excelente "Pérola Negra" (1973), demove à um simples álbum da MPB para um achado do Blues nacional. Músicos talentosos e canções sublimes trajam a estética da obra.

"Pra aquietar" inicia com riff rock'n'roll e cozinha cheia de groove. A letra mostra clareza e criatividade de Melodia com as palavras. A mesmo domínio da língua portuguesa é remontado na jazzística "Abundantemente morte", com introdução e interlúdio que lembram Hendrix em alguns momentos, é elegância pura nos seus 3min30s de duração.

"Farrapo Humano", um de seus grandes sucessos, poderia entrar para um Greatest Hits de Standards Blues sem o menor esforço. Naipes de metais charmosos, walking bass, suffle e riffs poderosos estão ali. Falar da letra cheia de lamúrias e sofrimentos e de uma guitarra solo rasgada, já definiria a faixa como um Blues inequivocamente!

"Objeto H" traz influências das clássicas Big Bands, com piano alegre e guitarra que responde a letra hora cômica de Melodia. Facilmente pode-se montar um cenário de New Orleans ao escutar suas primeiras notas.

"Maravilhas contemporâneas" de 1976, trouxe o "Poeta do Estácio" arrebatado de lirismo, e defendido por músicos mais uma vez inspirados. O resultado, tal qual seu antecessor, exprime no título sua grandiosidade. A faixa homônima logo na abertura lembra B.B King na timbragem da guitarra. As pausas típicas, repetições de versos e seus solos, fazem de "Maravilhas Contemporâneas" o mais tradicional Blues escrito por Luiz Melodia e sua banda.

"Memórias Modestas" esparrama sentimentos, bela letra acompanhada de instrumental com Hammond e metais refinados, possui guitarra tão poética quanto os versos chorados pelo Nosso "Pérola Negra".

Impossível citar blues e não falar da malandragem e trocadilhos sacanas nas composições. "Mary" abrange esse território de maneira leve e elegante, mais uma vez, os arranjos de órgão, guitarra e Metais dão vida a ótima letra. O desfecho cheio de swing, poria a música em qualquer vitrola norte americana e mexeria com as estruturas de qualquer bom apreciador de blues. Excelente música.


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Conrado Graff é guitarrista e vocalista na banda paraense Soul Blues. Ouvinte voraz de Jazz, Southern, Rock e Blues. Pesquisador informal dos estilos e artistas que moldaram música e a literatura! Professor e coordenador pedagógico secundarista nas horas vagas!
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