Do Mississippi a Chicago: o apogeu da história do Blues


Escrito pelo Ricardo Romano* e publicado originalmente no site português Altamont,

No delta do Mississippi da virada do século XX, a extrema pobreza, as condições de trabalho duríssimas nas plantações e o regime de segregação racial criaram o caldo de sangue e de lama onde o Blues rapidamente prosperou. Pouco interessava que a escravidão estivesse abolida há mais de trinta anos. Para os negros que trabalhavam de sol a sol nas plantações, esfolando os joelhos e as mãos na colheita de algodão, a vida não era assim tão diferente. Tudo estava desenhado para a supremacia branca não sofrer o mínimo beliscão. A maioria das terras continuava nas mãos dos antigos donos e a nova economia de rendeiros perpetuava a velha exploração. Em teoria, a metade da colheita a que os rendeiros teriam direito no final do ano permitiria que fossem economizando um pequeno pé-de-meia, para um dia poderem adquirir o seu quinhão de terra e liberdade. Na prática, com os adiantamentos em gêneros, sementes e fertilizantes, e as contas manhosas sempre feitas pela bitola do patrão, o rendeiro acabava sempre o ano em dívida para com o proprietário. Essa eterna dívida era o seu novo grilhão. Se algum rendeiro mais ingênuo se atrevesse a questionar as regras do jogo, um linchamento, com o enforcado balançando uns dias na brisa, era sempre o mais eficaz dos corretivos. No lamento da voz, no deslizar triste das cordas da guitarra, nos bemóis do diabo, o Blues conta toda esta lúgubre história.

Mas o Blues nunca foi só sofrimento, foi sempre também catarse e esperança. No sábado à noite, depois de uma semana árdua de trabalho, a malta da faina, a maioria na flor da idade, fazia questão de se divertir um pouco nas juke joints, barracos à beira das plantações onde se podia beber whiskey barato, jogar à batota, dar uns pezinhos de dança e ouvir um bom Blues. Associamos muitas vezes este gênero a tradições ancestrais, mas foi justamente o afluxo de tantos jovens para estas plantações que permitiu o rápido florescimento do Blues.

Quem tinha algum jeito para a música encontrava no Blues a oportunidade para fugir ao inferno do algodão. Era uma vida errante, sem pouso certo, sempre rumando de terra em terra para ganhar umas magras gorjetas em esquinas e juke joints; mas pelo menos tinham um bem precioso: a liberdade. Muitos anos antes da beat generation, os Bluesman viajavam estrada fora pela América profunda, no mesmo limbo entre arte e marginalidade tão caro à "geração" de Kerouac.

Para quem era bom cristão, não havia nada de mais blasfemo do que o Blues, considerado a própria "música do diabo". A música negra americana vivia desta tensão entre o sagrado e o profano, o divino e fundamentalista gospel contra o mundano e boêmio Blues. Quando o grande Bluesman de Chicago, Howlin' Wolf, foi visitar a sua devota mãe no Mississippi, e lhe quis oferecer um bom pedaço da sua poupança, a senhora Wolf repudiou com violência esse "dinheiro do diabo". O pecado de Ray Charles foi ainda maior: no final dos anos quarenta, Ray atreveu-se a cruzar o gospel com o Blues. Os mais devotos nunca lhe perdoaram a heresia.


Aos poucos, foi-se criando uma comunidade de Bluesman, com os mais velhos iniciando os mais novos nos segredos obscuros da música do delta. Foram muitos os seus protagonistas mas, pelo seu gênio criativo e influência, teremos que destacar três nomes: Charley Patton, Skip James e Robert Johnson.

Charley Patton era um fulano pequeno e franzino mas a sua voz era possante como o caudal do rio Mississippi. Mulherengo e beberrão, a sua vida desregrada de sexo, whiskey e Blues tornou-se o modelo para todo o Bluesman que se preze. Em 1908, começa a sua vida de músico itinerante, tornando-se muito popular no sul profundo. Charley era um entertainer nato, tendo inventado os malabarismos com a guitarra mais tarde celebrizados por T-Bone Walker e Jimi Hendrix.

1926 foi um ano muito importante para a disseminação do Blues do delta: H.C. Speir abre uma loja de discos no bairro negro da cidade de Jackson, fazendo audições em busca de talentos para as gravadoras do norte. Patton é descoberto em 1929, gravando de imediato e vendendo bem. Temas como "Mississippi Boweavil Blues" dizem tudo: a sua voz rouca e pujante, a crueza da sua slide guitar e a forma percussiva como ataca a guitarra foram profundamente influentes; e a própria letra, um lamento sobre uma praga de insetos que na época dizimou as colheitas de algodão, denuncia as duras origens do Blues. Ninguém encarnou melhor a rudeza do Mississippi do que o grande Charley Patton.

O segundo gigante do delta foi Skip James. Antes de se dedicar à música itinerante, James fez de tudo na vida: trabalhou nas plantações e no contrabando de whiskey, construiu estradas e viveu da batota, levantou diques e foi pianista num bordel (um simpático eufemismo para cafetão, suspeito). Ninguém sabe ao certo a origem da alcunha de "Skip" mas a julgar por alguns dos seus ofícios mais perigosos é natural que por vezes tivesse de se "esquivar" às pressas da região. Em 1931, gravou finalmente os seus Blues melancólicos e andou uns tempos na vida nômade de Bluesman. Nunca teve grande popularidade: a sua faceta misteriosa e achatada, pouco dado a grandes boêmias, não lhe traziam muitos fãs. Como se não bastasse, a maldita da grande Depressão fez naufragar também a Paramount Records, que ainda ficou lhe devendo dinheiro. Pelas obras-primas que gravou, recebeu uns miseráveis quarenta dólares. Quando reencontra o pai e este lhe oferece um lugar como pastor numa igreja em Dallas, não pensa duas vezes. A vida consegue ser de uma ironia bem cruel: encontrara a transcendência no Blues mas é a igreja que lhe enche a barriga. Só foi redescoberto em 1964, no auge do revivalismo do Blues folk, mas a velha magia já o tinha abandonado.

Onde Patton era rude e possante, James é frágil e delicado. O som da sua guitarra é sombrio, quase etéreo, resultante de uma afinação fora do comum em ré menor e de um dedilhar ágil e melodioso. A sua voz dolente em falsete não canta, chora, numa angústia indizível, beleza e terror em partes iguais. Sentimos um frio a percorrer a espinha em "Devil Got My Woman" quando James suspira: "I'd rather be the devil, to be that woman's man". Agradecemos à mulher de Skip James a oferta da matéria-prima mais valiosa para um Bluesman: um coração destroçado.


O delta do Mississippi deu-nos ainda um terceiro grande nome: o mítico Robert Johnson. Casou-se em 1929 e, desonrando o código de ética dos Bluesman, trabalhou na plantação para sustentar a família. Mas a mulher morre ao dar à luz e a sua família responsabiliza-o pelo sucedido: "castigo de Deus por se entregar à música do diabo" é o veredito. Robert decide então abandonar para sempre a maldita colheita de algodão, dedicando-se ao Blues em tempo integral. O começo não foi o mais favorável: quando Johnson toca pela primeira vez guitarra para Son House, este não fica nada impressionado, aconselhando-o a desistir e a investir antes na harmônica. Um ano depois, quando se reencontram de novo, Son fica de boca aberta: Johnson tocava maravilhosamente.

É neste contexto que surge a lenda de que Robert, numa encruzilhada no meio do nada, à meia-noite, ofereceu a alma ao diabo em troca de se tornar um grande guitarrista. Eu acredito: tocar como ele toca, fazendo o ritmo e o solo ao mesmo tempo, como se houvesse duas guitarras, só pode ser obra do diabo. Para os mais céticos, há uma explicação mais prosaica. Johnson esteve um ano perto da sua terra natal aprendendo a tocar guitarra com o seu mentor - Ike Zinnerman. Tocavam muitas vezes no cemitério à noite, simplesmente porque era um lugar tranquilo onde ninguém os chateava. Com tão macabro local de ensaios, é natural que começassem a surgir os mais assombrosos rumores.

Dominando agora com mestria a arte do Blues, Johnson está preparado para se lançar de cabeça na vida de músico itinerante. Começa a viajar pelo sul, atuando no habitual circuito de juke joints, picnics e esquinas movimentadas. A partir de 1932, começa também a percorrer a pé as grandes cidades a norte. Era pior do que um marinheiro: em cada lugarejo tinha uma mulher, adotando nomes diferentes. Foi a sua paixão por saias e whiskey que lhe causou a sua morte em 1938. O dono de um bar, ressentido por Johnson dormir com sua mulher, envenena-lhe o whiskey. Morreu no seu auge, aos (estupidamente curtos) vinte e sete anos. Criaria jurisprudência.


Mas voltemos dois anos atrás. Em 1936, é finalmente descoberto por H.C. Speir, gravando os seus primeiros 78 rotações. Mais cosmopolita do que a maior parte dos seus colegas do Mississippi, Robert foi um dos primeiros a estudar intensivamente a obra de dezenas de Bluesman, fazendo uma apurada síntese dos seus maiores nomes. Johnson sabia que só quem assimila bem o seu passado poderia almejar o futuro, e o futuro a ele pertenceu: em temas como "Sweet Home Chicago", o gingar Bluesy que Johnson imprime ao ritmo tem uma modernidade incrível, apontando claramente o caminho para o Blues de Chicago e o rock'n'roll das décadas vindouras.

Este neto de escravos, que andou na escola apenas quatro anos, era um letrista extraordinário, com um sentido poético fora do vulgar. Atentem nesta letra: "seguia-a até à estação, com a sua mala na minha mão / é difícil continuar quando todo o teu amor é em vão/ quando o comboio começou a andar, olhei-a nos olhos / senti-me tão só que não pude deixar de chorar / todo o meu amor em vão". Oferece-se a própria guitarra que o diabo afinou a quem conseguir igualar a expressividade cinematográfica das palavras de "Love in Vain".

Nos anos 40, as coisas tornaram-se cada vez mais azedas no sul profundo. O clima de ódio racial torna-se insuportável e, com a automatização da colheita de algodão, as oportunidades de trabalho nas plantações caem abruptamente. Ao mesmo tempo, a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra gera um boom econômico sem precedentes, criando milhares de postos de trabalho nas cidades industriais. Toda esta conjuntura fez com que centenas de milhares de negros do sul migrassem para o norte e a costa oeste. Muitos foram do Mississippi para Chicago, encontrando trabalho na siderurgia, na indústria da carne e nas estradas de ferro. Claro que os Bluesman do delta - de Willie Dixon a Muddy Waters, de Jimmy Reed a Howlin' Wolf - seguem também nesta enxurrada para norte, assentando-se nos efervescentes clubes de Blues do sul e oeste de Chicago. De uma só vez, a ventosa cidade de Illinois torna-se o coração da América negra e a capital do Blues.


A vida em Chicago não é fácil. A discriminação no acesso à habitação (e ao emprego) é a regra, pelo que a comunidade negra não tem outra alternativa senão se instalar no gueto de South Chicago. As habitações  são velhas, degradadas e superlotadas. As tensões raciais são constantes (nomeadamente entre afro-americanos e irlandeses) e de vez em quando acabavam em violência. A polícia não quer saber, desprotegendo esta zona da cidade. Mas comparado com o sinistro regime de apartheid do sul profundo, South Chicago é o paraíso na terra. Aqui, todos podem votar, beber do mesmo bebedouro, comer no mesmo restaurante, sem o crivo estúpido da cor da pele a ditar as suas regras.

Desta síntese entre origens rurais e novas vivências citadinas, nasce um novo estilo de Blues: metade, rudeza e autenticidade do delta; metade, explosiva eletrificação - mais apropriado com o novo ambiente violentamente urbano de Chicago. Os conjuntos são pequenos e rudes, em contraste com o Blues sofisticado e maneirento da west coast: uma harmônica eletrificada substitui os sopros, um contrabaixo, uma bateria e uma guitarra elétrica com slide são mais do que suficientes.


Três nomes vêm à tona quando falamos da cena de Chicago: Chess Records como quartel general; Willie Dixon como o grande arquiteto nos bastidores, escrevendo as canções e forjando a sua áspera sonoridade; Muddy Waters como o homem da frente, conquistando as plateias com a sua voz poderosa e o seu porte majestoso. No final dos anos 40 e na primeira metade dos anos 50, o incendiário Blues de Chicago deu-nos clássicos em catarata, muitos deles revisitados pelas grandes bandas de rock dos anos 60. Temas como "Hoochie Coochie Man" e "Manish Boy" de Muddy Waters, "Spoonful" e "Back Door Man" de Howlin' Wolf, "Bring it On Home" de Sonny Boy Williamson e "I Can't Quit you Baby" de Otis Rush, são apenas uma pequena amostra dos anos de ouro do Blues.

Sam Phillips estava louco com este novo Blues elétrico, apressando-se a lançar na sua gravadora em Memphis grandes nomes como B.B. King e Howlin' Wolf. E dizia para os seus botões: "Se um dia eu encontrar um branco que cante como um negro, enriqueço." Palavras proféticas pois em 1954 Phillips descobre um miúdo branco chamado… Elvis Presley. E o truque de ilusionismo de Sam é tão simples como engenhoso: pega num Blues obscuro ("That’s All Right") de um Bluesman obscuro (Arthur Crudup) e põe o branquelo para cantá-lo. Resultado: a explosão do rock'n'roll. O rock tornou-se assim o filho mais famoso do Blues. O problema é que o seu sucesso foi tão retumbante que ninguém queria saber do pai.

Em 1959, o Blues leva uma nova machadada com o nascimento da Motown. O soul melódico e sofisticado da gravadora de Detroit tornou-se muito mais apelativo para a comunidade negra. Há uma razão sociológica para esta mudança de gostos. Apesar das letras dos Blues de Chicago não incidirem diretamente sobre os grilhões dos campos de algodão, o espectro do escravagismo e dos linchamentos pairava sempre sobre aqueles malditos bemóis. No momento em que os negros americanos conquistavam os seus direitos civis, e reclamavam orgulho pela cor da sua pele, o Blues evocava em demasia um tempo de humilhação que eles queriam acima de tudo esquecer. 1958 foi o último ano em que Muddy Waters marcou presença nos charts R&B. Não há coincidências.


Mas Deus escreve certo por linhas tortas. No preciso momento em que o Blues perde a popularidade no seio da comunidade negra, muitos white boys começam a apreciá-lo. No seio do circuito universitário das cidades cosmopolitas, Nova Iorque à frente, surge um movimento de revivalismo do Folk, no qual o Blues ocupa um lugar privilegiado. Os jovens esquerdistas de classe média estavam sedentos de uma música autêntica, não contaminada pela sociedade de consumo, e o Blues preenchia os requisitos. E no outro lado do Atlântico, nas ilhas britânicas, o culto do Blues era ainda maior. Bandas como os Stones, The Animals e The Who nasceram em meados dos anos 60, reciclando os velhos clássicos do Blues e devolvendo-os à América na "invasão britânica". Mais tarde, o Cream, Hendrix e o Led Zeppelin elevaram a parada com o seu Blues rock psicodélico, carregado de distorção e feedback. Sob esta nova e revolucionária forma, o Blues conquista o mainstream.

Nos anos 70 esmorece o entusiasmo mas nos eighties, à esteira do sucesso do filme "The Blues Brothers", surge um revivalismo do gênero, com os texanos Steve Ray Vaughan e ZZ Top a alcançarem algum sucesso. Mas a partir dos anos 90, o Blues cai de novo no esquecimento. Se formos espreitar a seção de Blues numa loja qualquer, contam-se nos dedos os discos editados depois dos anos oitenta. As poucas exceções provêm sobretudo dos últimos discos dos velhos Bluesman, como acontece neste momento com o grande Buddy Guy, recentemente premiado.

Será que o Blues se está a apagar como gênero vivo, deixando de refletir a vida e as aspirações das novas gerações? Será que o Blues sobrevive hoje como mera indústria da memória? Será que e a violência do delta do Mississippi, tendo sido o berço do Blues, tornou-se também o seu caixão? Eu não acredito. Mais cedo ou mais tarde, um puto levará a sua guitarra para uma encruzilhada à meia-noite e tudo começará outra vez. A minha fé no diabo é infinita.

O português Ricardo Romano escreveu esse texto para o Altamont, site de música com críticas, playlists, reportagens e festas mensais. 
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