Creedence Clearwater Revival: uma unanimidade?


Nenhuma banda, artista ou nada neste mundo é unanimidade e nem deve ser, creio eu. Filosofias à parte, eu não lembro de ter ouvido alguém dizer que a música feita pela banda Creedence Clearwater Revival não é boa.  

A banda da Bay Area foi formada em 1959 com o nome de Tommy Fogerty and the Blue Velvets, ou simplesmente The Blue Velvets. A formação sempre foi a mesma desde os primórdios, a grande diferença é que, como o próprio nome já sugeria, o líder e vocalista da banda era Tom Fogerty e não o irmão mais novo, John. O grupo gravou alguns compactos pela então pequena Fantasy Records, porém sem sucesso comercial entre 1961 e 1962 até que resolveram mudar o nome para The Golliwogs

Com o novo nome, a anda gravou mais alguns singles distribuídos na Baía de San Francisco e tocados em algumas outras rádios da Califórnia e sudoeste norte-americano. A música "Brown Eyed Girl" certamente foi a mais notável no quesito sucesso. Nesta época ficou visível também que o caçula dos irmãos Fogerty, John, havia ganhado espaço, dividindo composições e vocais com o irmão mais velho.  

No final de 1967, com um novo contrato assinado com a Fantasy e com muita vontade de estourar nas paradas, os quatro caras da Bay Area começaram a gravar o primeiro LP de suas vidas, mas logo uma pequena porém significativa mudança ocorreria na banda. John Fogerty nesta altura já estava compondo mais que seu irmão Tom e também não estava contente com o nome The Golliwogs (por considera-lo bobo e com conotação racista, já que o nome lembrava o nome registrado para um boneco polêmico do século XIX). Foi então que John reuniu os outros 3 integrantes e decidiu tomar a frente da banda, compor todas as músicas, canta-las, ficar a cargo da guitarra solo, gaita, violão, dobro (em discos futuros até teclado e saxofone), além disso a banda deveria ter em mente que bebida, drogas e mulheres deveriam ficar em segundo plano, em estúdio e no palco todos deveriam estar 100% concentrados na música (profissionalismo). Com essas propostas veio também a mudança de nome, algo mais moderno, mais forte e mais marcante. Assim os Golliwogs tornaram-se Creedence Clearwater Revival

Em maio de 1968 foi lançado o primeiro disco contendo uma versão Blues Rock de "I Put A Spell On You" do mestre do Shock Rock Screaming Jay Hawkins e o grande hit "Suzie Q". Neste disco a influência Blues sobressai ao Country. Menos de um ano depois a banda lançou outro disco, "Bayou Country", este mais mesclado entre Blues e Country. Oito meses depois o quarteto já lançava outro disco, "Green River", que definitivamente lançou a banda para muito além do oeste norte-americano. O lançamento do disco coincidiu com a participação da banda no festival de Woodstock. 

O que seguiu-se depois foram discos quase que perfeitos para os amantes do Southern Rock, em "Willy and the Poor Boys" e "Cosmo's Factory" a banda (ou melhor, John Fogerty) mergulhou de cabeça no Country mas sem perder a essência do Blues, ou seja, música sulista de primeira. A música "Fortunate Son" é até hoje um clássico com letra de protesto contra a guerra do Vietnã e em "Cosmo's Factory" a banda lançou um de seus grandes hits radiofônicos, a Country "Who'll Stop the Rain". Uma versão da música "I Heard It Through The Gravepine" de Marvin Gaye serviu para consolidar John Fogerty não só como um grande compositor, mas também como um grande arranjador. Já que a Creedence Clearwater Revival costumava regravar canções de outros artistas mas sempre dando uma nova roupagem para a música. 


Os anos 70 já haviam chegado e a banda não parava de produzir discos, "Pendulum" foi o sexto em exatos 3 anos! Neste disco fica evidente que a banda resolveu mudar um pouco o rumo e experimentar mais. É aqui que John mostra ainda mais seus dotes de multi-instrumentista. O disco contém algumas faixas que não se parecem em nada com os trabalhos anteriores da banda como a música "Sailor's Lament". Mas é também nele que contem grandes hits como "Have You Ever Seen The Rain?" e "Hey Tonight". O ponto triste deste disco é que ele marca a despedida de Tom Fogerty, que saiu por divergências com o irmão John e seguiu carreira solo. 

Aparentemente John também não estava mais interessado em continuar a banda, mas ainda deviam um disco para a Fantasy. Assim depois de uma longa excursão pela Europa, a banda que agora era um trio, entrou em estúdio para gravar "Mardi Gras", o último disco da CCR. Aqui John deu espaço para o baixista Stu Cook e o baterista Doug Clifford compor e cantar. O disco é quase inteiramente Country e é considerado pela maioria dos fãs como o mais fraco. Falta nele a guitarra base de Tom e fica evidente que Stu e Doug não tinham capacidade de compor igual a John. O disco não é ruim, mas fica um abismo de diferença entre as composições. 

Assim chegava ao fim a curta mas prolifera saga da banda da Bay Area com mais sotaque sulista. O que seguiu após "Mardi Gras" foram longas batalhas judiciais de John Fogerty contra a Fantasy que nunca repassou os verdadeiros lucros para a banda. John lançou ótimos discos solo quando não estava nos tribunais (vale a pena ouvir), Tom Fogerty gravou 6 discos solo até falecer em 1990. Doug Clifford lançou um disco solo ainda nos anos 70 e seguiu participando de jam bands com Stu Cook até criarem em 1995 uma versão quase cover de CCR com outros músicos e que sobrevive até hoje tocando em rodeios de San Antonio até Jaguariúna.


bruno.png
Rafael Cafarchio-Batista tem 33 anos, é designer gráfico, nascido no grande ABC, mas morador do interior paulista. Fã de Rock clássico, country, folk, blues e tudo mais de bom que a música pode proporcionar.
Tecnologia do Blogger.