Chess Records: a energia que moveu o Blues eletrificado


Quando os Estados Unidos recebeu a magnífica invenção da eletricidade, em meados de 1880, mudou-se todo um rumo da história e anos mais tarde, revolucionaria a música com o advento da guitarra elétrica, dos amplificadores, transistores de potência, rádio e TV. Também caminhavam sobre o mesmo trilho o avanço das gravações de música, com a tecnologia fonográfica partindo do fonógrafo, mais conhecido como gramofone e dos vinis de 7 e 12 polegadas, quase no final da década de 40. Em meio ao avanço de toda essa tecnologia, desencadeado pelas I e II Grandes Guerras, uma família judia de sobrenome Czys mudava-se para os Estados Unidos, fugindo do massacre judeu que começava a acontecer na Europa. Em 1928, chegavam na cidade de Chicago e também mudavam seu sobrenome para Chess.

Desde 1920, Chicago atraía muitos negros que vinham do sul em busca de uma vida melhor na cidade grande, sendo uma grande exportadora de talentos musicais que vinham do Delta eletrizar seu Blues na metrópole de Illinois. Os negros que vinham do sul ganhavam mais dinheiro trabalhando nas fábricas do que nas plantações de algodão. Curiosamente, muitos trabalhavam nas fábricas na montagem de máquinas agrícolas, cuja contribuição para a emigração dos negros do sul fosse fortíssima. Em Chicago, os negros faziam-se ouvir e eram ouvidos, tinham seus direitos civis representados, inclusive, tendo um jornal: o Chicago Defender. Eis aí, um maná de oportunidades para músicos vindo do Sul mostrar seu som nos diversos bares, bordéis e juke-joints da região. 

Os irmãos Lejzor e Fiszel, rebatizados em terras estadunidenses de Leonard e Phil, respectivamente, se aventuravam na cena musical negra do sul de Chicago, onde fundaram um "bar" chamado Macomba Lounge. Sabendo de todo movimento musical que ali acontecia, Leonard e Phil se associaram à um pequeno selo independente, chamado Aristocrat Records, cujo controle acionário passariam à obtê-los posteriormente e rebatizando a gravadora para Chess Records, já em 1950. O que seria mais natural para os irmãos Chess do que vender discos de artistas negros que tocavam em seu clube?

Phil Chess, Muddy Waters, Little Walter e Bo Diddley nos estúdios da Chess
Com olhar clínico, os irmãos Chess conseguiram captar toda a atmosfera e energia que embalava Chicago e a música negra na década de 1950, contribuindo incrivelmente para a evolução da história da música americana. Em 1947, recomendado pelo pianista Sunnyland Slim, entra pelas portas da gravadora um certo homem negro, conhecido como Muddy Waters. Lançando seu compilado de "I Can't Be Sastified" e "I Feel Like Going Home", o sucesso foi imediato. Com um toque de modernismo proporcionado pela guitarra elétrica de Muddy, o som conseguia fazer a ponte do som eletrificado que vinha do Norte com o canto lento que vinha do Sul.

Mais tarde, lembraria Muddy do sucesso imediato que essas canções fizeram: "No dia do lançamento do disco, ao voltar do trabalho, eu ouvia as pessoas tocando-o em todos os lugares no meu bairro. Escutei até uma canção vinda de muito alto e pensei que tinha morrido." Após voltar do Delta em 1949, Muddy, acompanhado de um talentoso gaitista chamado Little Walter, um guitarrista chamado Jimmy Rogers e um baterista chamado de Baby Face Leroy, surgia outra gravação que se embalaria como uma das mais emblemáticas do século XX: "Rollin' Stone".

Era o início de uma revolução no Blues, onde os irmãos Chess emolduravam o som progressivamente, instrumento após instrumento com o objetivo de reproduzir em estúdio o que uma banda fazia ao vivo. Embalados no sucesso de Muddy Waters, Little Walter e Jimmy Rogers também começaram a imprimir seu som ao selo Chess Records. As experiências que ocorriam em estúdio, como a câmara de eco (que utilizava a acústica de cerâmica dos azuleijos de banheiro) e a vontade de ferro de Leonard Chess eram uma das chaves de sucesso da Chess Records e em especial, de Muddy Waters, que em 1954, ganhou projeção nacional com a ilustríssima canção "Hoochie Coochie Man".

Da esquerda para a direita, D.J. McKie Fitzhugh, Little Walter, Leonard Chess e fãs em uma loja de discos de South Side Chicago, promovendo o novo álbum do Little Walter, "Juke", por volta de 1952. Cortesia dos Arquivos da Família Chess.
"Hoochie Coochie Man" era assinada por Willie Dixon, talvez o maior pilar da Chess depois de Leonard Chess. Devido ao analfabetismo de Muddy, Dixon cantava as letras das canções para Muddy no banheiro de um clube. Numa sinergia, Muddy na mesma hora encontrava um riff de guitarra para a canção. Nascia a canção que colocaria a Chess e o novo som de Chicago nas paradas de sucesso por muito tempo.

Posteriormente, chegava em Chicago e residia sob o mesmo teto de Muddy, Howlin' Wolf. Lapidados sob as canções de Dixon, vestidos como reis de Chicago e sendo a maior referência de som na cidade, Chess percebeu o poder que tinha em mãos: era hora do desenvolvimento do rock'n'roll na Chess. Viria à seguir, a virilidade de Chuck Berry, transformando todo aquele som que rolava em um marco pra história da música. 

Com esse quarteto de ferro nos anos 1950, sob as bençãos de Dixon e os cuidados de Leonard Chess, a gravadora viria à se tornar o maior símbolo do Blues eletrificado de Chicago e suas gravações transcenderiam gerações e gerações até os dias atuais. Passaram pela Chess diversos nomes de calibre como Etta James, Koko Taylor, Little Milton, Laura Lee e Robert Lockwood Jr. Já na década de 1960, a Chess viria à ampliar seu leque musical, gravando jazz e gospel. Enfrentando uma crise financeira, Leonard Chess vendeu sua gravadora por seis milhões e meio de dólares. Phill Chess viria à morar no Arizona e Leonard viria à falecer logo após a venda do selo em 1969, vítima de ataque cardíaco. Tombado patrimônio cultural da música, o estúdio permanece em seu lugar até hoje. Os irmãos Chess, junto com todo seu empenho, podem e devem ser considerados a maior força-motriz do Blues eletrificado, deixando um legado que não pode ser mensurado. A Chess Records revelou o som que revolucionaria toda uma história.

Dil Genova tem 28 anos, mora em São Paulo, é um rockeiro, blueseiro, cervejeiro e Engenheiro de Software em tempo integral. Fã de Blackberry Smoke, Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, Dil escreverá sobre Blues e Rock aqui no Southern Rock Brasil sempre que puder.
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