Charley Patton: O verdadeiro pai do Blues?


A história da música americana, em especial, do Blues é carregada de histórias fascinantes, com abordagens lendárias e que levantam uma série de questionamentos acerca das origens do Blues. Escrevo isso enquanto ouço Jimi Hendrix e entre um gole de cerveja e outro, conhecendo toda sua biografia e seu dom nas pirotecnias da guitarra elétrica, me vêm um nome à mente: Charley Patton.

Quando falamos de Delta Blues, ritmo semeado nas plantações de algodão do Mississippi, ainda na escravidão americana, carregado de lamentos e incertezas dos negros que viviam nessa época, de espírito e alma que só se sentiam alegres ao cantar no meio do sofrimento, muitos lembrariam de Robert Johnson (inclusive este que vos escreve).

Famoso pela lenda de ter vendido sua alma ao diabo em alguma encruzilhada, inclusive versão atestada por Son House, outro lendário Bluesman do Delta, Johnson é talvez a maior referência das origens do Blues e dos doze compassos de lamentos que formam o ritmo. Muddy Waters considerava Johnson como o mais importante Bluesman que já existiu.


E onde Charley Patton entra nessa história? No esquecimento. Charlie Patton, que mais tarde ficou conhecido como Charley, nascido em 1891 no Mississippi (não é um ano preciso, as informações acerca do nascimento dele são escassas), negro, lapidado musicalmente por seu tutor, Henry Sloan numa das fazendas onde sua família trabalhava.

Aos 19 anos, Patton já despontava como um talento do Blues, servindo de água de beber para John Lee Hooker e Howlin' Wolf, apenas. Compôs "Pony Blues", "Banty Rooster Blues", "Mississippi Boweavil" e "Down The Dirt Road", canções que marcaram todo o estilo primitivo de Charley Patton.

Já nessa época, Charley Patton era convidado para tocar nos bares e fazendas da região. Dizia a lenda (ou a história, como preferir) que apesar da baixa estatura, Patton esbanjava estilo, musicalidade e possuía uma voz potente que atingia níveis altos de som para a época. Talvez isso fosse possível pelo consumo intenso de cigarros e whisky por parte de Patton.

Muito antes de Chuck Berry (o cara que inventou o rock'n'roll) e Jimi Hendrix, Patton já era conhecido por pirotecnias no violão. Tocava de joelhos, com o violão nas costas ou atrás de sua cabeça. Tudo em prol de servir à quem assistia suas canções. Seria Patton o verdadeiro inventor do rock? Por que toda sua história é relegada ao esquecimento? A estrela de Robert Johnson deve mesmo ser maior do que aquele que o antecedeu nas origens e raízes do Blues?


Bebo mais cervejas nesse momento em busca de reflexões que possam fazer algum sentido na história. Em minha opinião, Patton deve ter mais atenção por parte dos fãs de Blues, dos puristas aos mais radicais. O Blues em sua essência não deve ser só daquele ser carregado de ocultismo, fomentado por lendas acerca da venda espiritual ao diabo e por letras melancólicas e frias.

Patton merece ser mais visto, ouvido e por que não, questionado acerca de ser realmente o criador do rock, ou da essência rock de ser. Em suas gravações, podemos sentir que Patton era talentoso, talvez talentoso demais para sua época e visto como um ser à frente de seu tempo.

Encerro a reflexão com alguns fatos e curiosidades acerca de Patton. Há uma certa dúvida acerca de sua origem ser negra, muitos dizem que ele possuía origem indígena, com sangue de Cherokee. Outros relatos diziam que era de origem mexicana e mais outros diziam que era a união das duas coisas citadas acima.

Em 1933, quase morreu tendo sua garganta cortada numa fazenda do Mississippi. Suas gravações renderam em 2003, três Grammys sendo um deles, com o de melhor álbum de blues.

Morreu em 1934, vítima de insuficiência cardíaca. Foi casado com Bertha Lee, a filha de um capataz de uma fazenda do Mississippi. Em sua lápide foi criado um memorial, no cemitério em que foi enterrado, tendo os custos pagos por John Fogerty, dono da voz das canções do Creedence Clearwater Revival.

Charley Patton é com certeza, uma figura icônica na história do Blues e do Rock. Peço que o leitor ouça Charley Patton para entender, em partes, sobre sua importância na história da música.


Dil Genova tem 28 anos, mora em São Paulo, é um rockeiro, blueseiro, cervejeiro e Engenheiro de Software em tempo integral. Fã de Blackberry Smoke, Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, Dil escreverá sobre Blues e Rock aqui no Southern Rock Brasil sempre que puder.
Tecnologia do Blogger.