O Blues de Frejat e Cazuza - Parte 2


1984 termina com o Barão Vermelho dividido entre o sucesso do Rock in Rio I e as crises internas que permeavam a banda. Cazuza, determinado em seguir seu mega estrelato; Frejat tentando preservar o som fluido e enraizado que destacara os grandes hits da banda. A ruptura foi inevitável.

Jagger & Richards do nosso país, não estariam mais juntos no palco até o fim da década, composições são divididas, e apenas a batuta de Guto Graça Melo (diretor artístico) e Ezequiel Neves (produtor musical) seria naquele momento o elo para os egos inflados de Cazuza e Frejat.


"Declare Guerra" (1986) foi a estreia de um Barão com uma nova voz, é cheio de parcerias, é Blues em sua faceta. "Não Quero seu Perdão" é receita anos 60 - dance a vontade - "Que o Deus Venha" é remanescente da parceria e criada em cima do poema homônimo de Clarice Lispector. "Boomerangue Blues" (presente do Renato Russo) ganhou arranjo cheio de slides e molho sabor Mississipi somente ao som do violão.

O debut de Cazuza, por sua vez, "Exagerado", foi um sucesso, músicos incríveis e compositores engajados rabiscaram suas marcas. "Mal Nenhum", (Cazuza/Lobão) é Blues moderno, com guitarras bem arranjadas. "Só as Mães são Felizes" (Cazuza/Frejat) carrega um lado Doors, que mais tarde seria substituído por levadas Jazzy de extremo bom gosto.


Os lançamentos subsequentes da dupla, no quesito comercial, traçaram caminhos distintos. "Rock'N'Geral" fracassou em vendas e se destacou em qualidade. Já Cazuza, com "Só se For a Dois" validou sua figura, cheia de talento e empatia, perante mídia e público.

O quarteto do Rio, esbanja influências blueseiras em "Agora Tudo Acabou", com excelente solo de Roberto Frejat, e mostra extrema delicadeza de arranjos bluesy em "Quem me Olha Só" escrita com Arnaldo Antunes, um deleite de elegância poética.

"A Vespa Solitária" era uma poção de influências em suas canções, e seus álbuns refletiam toda sua energia. O já bem citado "Só se For a Dois" trouxe tudo que um fã de Cazuza gostaria de ouvir, inclusive Blues. A reestabelecida parceria com Frejat exprimiu "Culpa de Estimação"; com Zé Luís, (saxofonista) a passional, áspera e sincera "Quarta-Feira" e fechando o disco com exuberância "Balada do Esplanada", chorada na companhia de um violão, é um poema de Oswald de Andrade, com toda a força do Blues nas entre-linhas. 

Apreciem a obra dessas grandes figuras e referências, e estendam as fronteiras do Blues em vários sotaques.


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Conrado Graff é guitarrista e vocalista na banda paraense Soul Blues. Ouvinte voraz de Jazz, Southern, Rock e Blues. Pesquisador informal dos estilos e artistas que moldaram música e a literatura! Professor e coordenador pedagógico secundarista nas horas vagas!
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