A História de Blue and Lonesome #2


Escrito por Rob Gordon

Como todo fã de blues sabe, os Rolling Stones acabaram de lançar Blue and Lonesome, seu novo álbum de estúdio e o primeiro composto apenas por clássicos do blues. No texto anterior dessa coluna, contei um pouco mais sobre a história das seis primeiras músicas do disco. Agora, é hora de falar das seis canções finais, contando um pouco do caminho que elas fizeram até pararem no disco dos ingleses.

Assim como no texto anterior, os vídeos trazem apenas as canções originais, já que nem todas as músicas de Blue and Lonesome estão disponíveis no Youtube. Mas, nessa playlist do Spotify, você encontra todas as músicas do álbum dos Stones (bem como suas versões originais). Então, sem mais demora, vamos a elas.

Ride 'Em On Down - (Eddie Taylor - 1955)

Taylor foi um guitarrista de blues de Chicago que nunca conquistou o mesmo sucesso dos grandes blueseiros da época, mas isso não diminui sua importância. Além de ter ensinado Jimmy Reed a tocar guitarra, tocou ao lado de mestres como o próprio Reed e John Lee Hooker. Para homenageá-lo, os Stones escolheram "Ride 'Em On Down", seu maior sucesso.

Mas, como era comum nas músicas da Chicago dos anos 50, a origem de "Ride 'Em On Down" nos leva direto para o Mississipi. Afinal, a canção nada mais é que uma versão - aliás, uma das muitas versões - de "Shake 'Em On Down", composta e gravada por Bukka White em 1937, pouco antes de cumprir pena na cadeia por se envolver em um tiroteio. O crédito no disco dos Stones fica para Taylor, porém, pois é sua versão que serve de base para os ingleses.


Hate to See You Go (Little Walter - 1955)

A quarta e última música do disco a resgatar a obra de Little Walter, a personalidade com mais presença no disco dos Stones. É uma versão praticamente toda fiel ao original, que brilha especialmente pela sua letra melancólica: o cantor foi abandonado pela mulher (o bilhete de despedida que ela deixou estava no chão) e só então descobriu que a ama.

A canção foi composta por Walter já em sua carreira solo, mas o ritmo de "Hate to See You Go" parece herança dos seus dias na banda de Muddy Waters. A letra amarga faz um contraponto com o ritmo acelerado e dançante da canção, e a voz insinuante do gaitista (algo que Waters era mestre) deixa a música ainda mais rica.


Hoo Doo Blues (Lightning Slim - 1958)

Lightning Slim é um dos maiores patinhos feios da história do blues. O auge de sua carreira foi nos anos 50 e ele nunca fez tanto sucesso como os astros do blues da época - mas existem críticos que o colocam como um dos maiores blueseiros de seu tempo. E sua posição como um dos maiores nomes da história do blues da Lousiana é indiscutível.

"Hoo Doo Blues" é um dos seus maiores sucessos e foi gravado em 1958. É um típico blues da Lousiana, não só pelo tema - o vodu é presença constante no blues de todas as regiões, mas os blueseiros da Lousiana pareciam gostar mais de abordar o tema - mas principalmente pelo seu ritmo preguiçoso, típico da música que se tocava nos pântanos da região.


Little Rain (Jimmy Reed - 1957)

Praticamente todas as bandas de rock inglesas dos anos 60 veneravam a figura de Jimmy Reed, blueseiro que se tornou figura-chave nos primeiros anos do blues elétrico. Os Stones, particularmente Keith Richards, reverenciavam o sujeito como um deus, e sempre incluíam alguma de suas canções nos shows que faziam durante os primeiros anos de carreira (e também em seus primeiros discos).

Assim, Reed seria quase uma presença obrigatória no disco, e os Stones escolheram um dos seus trabalhos mais delicados: Little Rain, gravada em 1957. Apesar de seu trabalho ser uma da pontes mais visíveis entre o rock e o blues, Little Rain é um blues lento, arrastado e melancólico, que usa a chuva, um dos elementos preferidos do gênero, para construir uma pequena canção de amor.


Just Like I Treat You Baby (Howlin' Wolf - 1962)

A segunda música de Howlin' Wolf em "Blue and Lonesome" foi gravada como Lado B do single "I Ain’t Supertitious". Porém, mesmo Wolf sendo um dos maiores nomes da história do blues, a canção puxa os holofotes para dois outros músicos. O primeiro é Hubert Sumlin, guitarrista da banda de Wolf e uma das maiores influências na carreira dos Stones.

O outro é Willie Dixon, um dos maiores compositores da história do blues. Compositor da Chess, Dixon, e escreveu alguns dos maiores sucessos de Muddy Waters e Howlin' Wolf. Como se não bastasse, ainda era um contrabaixista de mão cheia e participa da gravação de "Just Like I Treat You Baby", que conta com um arranjo bem próximo do rock 'n roll, mas uma alma totalmente entregue ao blues.


I Can't Quit You Baby (Otis Rush - 1956)

"I Can't Quit You Baby" ganhou fama mundial nas mãos do Led Zeppelin (é uma das muitas composições de Willie Dixon executada pelos ingleses, e uma das poucas em que eles não tiveram problemas com a justiça por não creditar o autor original). Mas aqui vale mais a pena olharmos para a versão original, que Dixon compôs para Otis Rush em 1956.

Chega a ser impressionante pensar que Rush gravou a música, que se tornou um monumento do blues, em suas primeiras sessões de estúdio. Foi um de seus maiores sucessos: com o tempo, sua obra se tornaria um monumento do blues, com um som único (que se deve ao fato dele ser canhoto, mas não inverter as cordas da guitarra para tocar com a mão esquerda). É um dos maiores guitarristas do gênero e uma das principais influências de Eric Clapton (que participa da versão dos Stones).



Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Roteirista da HQ Terapia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles. Escreve sobre Blues no Medium e Papo de Homem.
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