Muddy Roots e o resgate da tradição dos festivais

Photo by Hobolight Productions

Escrito pelo Valdez e publicado originalmente no Plomo.

Desde o início do século passado, os festivais são uma das principais formas de socialização e consolidação da música folclórica norte-americana. Nas primeiras décadas do século XX, os festivais patrocinados por empresas farmacêuticas, em um formato muito próximo ao dos circos itinerantes, eram a principal forma de divulgação de artistas. Nas décadas de 1960 e 1970, uma conjuntura de fatores propiciou o crescimento destes eventos: com o combustível barato e um sistema rodoviário eficaz, os norte-americanos passaram a viajar centenas (ou milhares) de quilômetros para participar de festivais. Aliado a isso, o surgimento da cultura de camping com fins recreativos atraiu não apenas fãs de música, mas famílias inteiras para eventos que duravam de um dia a uma semana.  Esta tradição foi essencial para o fortalecimento de gêneros como o Folk e o Bluegrass. 

Com o crescimento dos festivais, muitos acabaram absorvidos e modificados pela grande indústria da música, o que acarretou na perda da substância e senso de comunidade destes eventos. Com plateias muito maiores, surgiu o distanciamento entre artistas e público, tanto físico quanto social. Em relação às mudanças físicas, por exemplo, os festivais contemporâneos criaram áreas VIP, palcos distantes e grades de isolamento. Em termos sociais, a própria existência de um público grande demais já foi suficiente para inviabilizar o contato direto entre artistas e público. O crescimento dos festivais também alterou o próprio lineup destes eventos, que passaram a priorizar grandes nomes da indústria.

Mas, para toda ação, há uma reação. Festivais de pequeno porte, geralmente compostos por artistas locais de pouco renome, sempre existiram (e resistiram). Contudo, no início do século XXI, começou a ocorrer um fenômeno mais consciente de recuperação da função dos festivais. Um dos produtos disso foi o Deep Blues Festival, criado em 2007 por Chris Johnson. O objetivo de Chris era desenvolver um espaço para artistas de Blues que, em sua opinião, não estavam recebendo o devido reconhecimento. Ao longo de quatro anos, mais de 200 artistas passaram pelos palcos do Deep Blues. Apesar do nome, o festival recebeu artistas que não se encaixavam necessariamente no Blues, como .357 String Band, Possessed By Paul James, Left Lane Cruiser, Those Poor Bastards e Scott H. Biram. 

Mesmo de maneira não deliberada, Chris Johnson plantou uma ideia que, em 2010, seria lapidada pelos irmãos Jason e Anthony Galaz: a de divisão da música não por gêneros, mas por eras e, principalmente, por ideologia. Essa ideia simples, mas poderosa, está na origem do Muddy Roots Music Festival (ou MRMF) que, em 2016, chega à sua sétima edição nos Estados Unidos, quinta na Bélgica e primeira no Brasil.


A primeira incursão dos irmãos Galaz no mundo da música se deu através da produção de camisetas de bandas. Depois, eles começaram a promover shows na Califórnia – e, posteriormente, em Nashville, quando Jason se mudou para lá. Em 2009, ele começou a se interessar por artistas que transitavam por gêneros diversos, como Blues, Rock, Punk e Bluegrass. Estas bandas não costumavam atrair grandes públicos e raramente apareciam em festivais. E, quando apareciam, estavam sempre em palcos secundários, com tempo reduzido e atenção muito menor do público.

Ainda em 2009, quando estava na plateia do festival Ink-N-Iron, Jason viu artistas como Los Duggans, Scott H. Biram e The Legendary Shack Shakers no palco secundário. Daí surgiu o embrião do Muddy Roots, um festival que, como Jason sempre repete, tem o objetivo de "trazer as bandas secundárias para o palco principal"

O nome Muddy Roots partiu de Anthony, que atualmente é responsável pelas operações do Muddy Roots na Califórnia. Inicialmente, a ideia era criar um nome que não restringisse a música a estilos, mas a uma ideia que pudesse englobar diversos gêneros unidos por alguns pontos em comum. A música "Muddy Roots", então, seria aquela originária da classe trabalhadora, que surge de maneira espontânea, distante da pompa e artificialidade dos grandes estúdios. 

A "raiz" presente no nome do festival traz dois sentidos que se complementam: primeiro, há o significado mais evidente, aquele da música de raiz; contudo, por analogia, há também um sentido de resistência: apesar de todas as adversidades do solo, a raiz triunfa e se fixa para, depois, gerar frutos. Este segundo sentido do termo, inclusive, foi utilizado pela Slowboat Films na produção do documentário "Hard Soil", que conta a história do Muddy Roots. Mas, nas palavras de Jason, "na época da criação do nome nós não percebemos que estávamos descrevendo a evolução orgânica desta música de raiz, que surge espontaneamente"

A busca pela espontaneidade, pela autenticidade, certamente é um diferencial do Muddy Roots Music Festival, mas não é o suficiente para descrevê-lo. Há uma série de fatores que formam o ethos do festival, a identidade social e cultural que o diferencia de qualquer outro evento do tipo. 

Horizontalidade 


Se a busca por artistas "secundários" é uma marca do MRMF, são os detalhes que de fato o definem. E a personalidade do Muddy Roots é um reflexo da personalidade de Jason Galaz. Embora ele seja um empresário da música, seu modus operandi é, no mínimo, incomum para profissionais desta área. Enquanto a maioria dos empresários do ramo busca capitalizar cada aspecto de um festival, mesmo que isso prejudique a experiência do público, Jason segue em uma busca romântica pela organicidade, o que pode ser percebido em pequenas atitudes. Na edição brasileira do festival, por exemplo, Jason abriu mão da venda de água, optando por construir uma fonte para oferecer água potável gratuita para o público; em todas as edições já realizadas do festival, foram disponibilizados áreas de camping e chuveiros quentes gratuitamente; o público é encorajado a levar sua própria bebida. 

Mas, para além de todos estes detalhes técnicos, há um conceito que faz com que o Muddy Roots seja o que é: horizontalidade. Jason Galaz se esforça para eliminar quaisquer barreiras entre artistas e público, sejam físicas ou sociais. Como exemplo, ele se recorda da edição de 2013, quando os membros do Black Flag (um headliner do evento) transitavam entre os shows de bandas desconhecidas. Esta ideia de horizontalidade, inclusive, foi comprada pelo público desde a primeira edição do festival. 

O ano de 2013 foi simbólico para esclarecer o ethos do Muddy Roots: enquanto o Black Flag captava o espírito de comunidade do festival, outro artista causou controvérsia ao tentar hierarquizar sua presença no MRMF. Shooter Jennings, uma das principais atrações daquela edição, anunciou que faria um meet & greet no Muddy Roots. Por 85 dólares, os fãs teriam direito a uma camiseta, uma sacola reciclável, cinco palhetas e a possibilidade de conhecer Shooter e tirar algumas fotos com ele. Assim que o meet & greet foi anunciado, o público reagiu: pagar para ter o direito de conhecer um artista foi visto como um insulto. Após as reclamações, Shooter cancelou o meet & greet, afirmando ter sido um erro de seu empresário. 

Seja no Muddy Roots ou em qualquer outro festival, a ideia do meet & greet é controversa. Para alguns fãs, o artista tem todo o direito de fazer eventos pagos para tirar fotos. Contudo, prevaleceu o entendimento de que, no Muddy Roots, isso não tem lugar. O próprio Jason vê pontos positivos na prática de meet & greet, por se tratar de uma possibilidade de fonte de renda extra para os artistas. Mas, quando todos devem ser tratados como iguais, esta é uma prática inaceitável. 

Não é raro que os festivais percam sua essência ao longo dos anos, na medida em que aumentam seu público e atraem novos interesses comerciais. Nada garante que isso não vá acontecer com o Muddy Roots. Mas, se depender de Jason e Anthony, o festival dificilmente passará por mudanças tão drásticas. Ao colocar a ideologia à frente do lucro, os irmãos Galaz criaram um terreno seguro para que a música de raiz possa se desenvolver e proliferar. O ambiente de comunidade e confraternização conquistou até mesmo artistas com décadas de experiência. Ralph Stanley, a maior lenda viva do bluegrass, se apresentou no Muddy Roots em 2015, aos 88 anos. Após o evento, ele declarou que a atmosfera era muita parecida com aquela dos festivais de bluegrass dos anos 60 e 70. E sentenciou: "Prefiro tocar em um Muddy Roots do que em mil outros festivais".

Escrito pelo Valdez e publicado originalmente no Plomo.
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