O Grande medo do "Country Music Progressivo" e os primeiros músicos "Outlaw"

B.W. Stevenson, Ray Wylie Hubbard, Rusty Weir and Steven Fromholz. (Créditos: Judy Hubbard)

Escrito pela Angela Blair e publicado no site HubPages e traduzido para o português pelo Xandão Bueno da banda Rural Willys.

O "Country Music Progressivo" assusta.


A estrada  no negócio da música é longa, dura - e divertida! Em regra, as pessoas envolvidas são muito endurecidas, invariavelmente fortes individualistas e provavelmente os mais dedicados e direcionados indivíduos que já encontrei. Eu muitas vezes me divirto quando a imprensa salta sobre um deles - como um pato em uma joaninha - e começa a espancá-los quase até a morte em suas matérias. Embora um escândalo realmente suculento possa arruinar uma carreira, a maioria simplesmente continua a acreditar que "não existe uma má imprensa" e prossegue rolando estrada afora.

Voltando ao século passado (agora há uma referência de idade pra você), eu vivia em Austin, no Texas, e "gerenciava" a carreira do meu irmão Steven Fromholz. Na verdade, ninguém jamais "gerenciou" o Steven, era quase como capturar vento em uma garrafa, mas eu cuidava de sua agenda, viajava com ele e sua banda e enrolava com as escassas finanças que mantinham o nosso show na estrada.

Era a época do grande medo do "Country Music Progressivo", em Austin, como Steve o chamou. A Armadillo World Headqurters ficava lá e, sem dúvida, foi a casa de música mais quente de todo o Texas. Todo final de semana podia se encontrar um grande nome, ou vários, enfeitando um de seus palcos e o lugar estava sempre lotado. E uma atração adicional era jamais saber quem poderia aparecer, guitarra à mão, e se juntar apenas pela diversão.

Eram os velhos tempos, e novamente cito meu irmão, em que os "tocadores" reuniam suas guitarras e diziam "vamos tocar", e não "vamos fazer dinheiro". Os "tocadores" que se rotulavam como "Country Music Progressivo", além do meu irmão, eram o falecido Rusty Weir, Ray Wiley Hubbard, o falecido BW "Buckwheat" Stevenson, Jerry Jeff Walker, Bill e Bonnie Hearne, Gary P. Nunn, Bob Livingston, Guy Clark, Billy Joe Shaver e vários outros.

Uma vez um Outlaw; sempre um Outlaw.


Haviam alguns músicos estelares que, embora um pouco mais jovens do que os caras anteriormente mencionados, definitivamente faziam parte desse grupo. O cantor/compositor/autor Vince Bell me vem primeiro à lembrança como um dos melhores compositores e entertainers que já subiram a um palco.

Embora Michael Martin Murphy (ele então só usava o primeiro e último nome) flutuasse pra dentro e pra fora do grupo; ele definitivamente era um deles. Eles eram um grupo endurecido, absolutamente destemido, e excessivamente leais uns aos outros. Eu já vi todos eles, uma vez ou outra ao longo dos anos, ajudar a carregar o equipamento dos outros após os shows, compartilhar um dólar suado e diligentemente promover as carreiras uns dos outros.

Se alguma vez houve um pingo de inveja, crueldade ou mesquinhez, eu jamais testemunhei isso. Quando um número suficiente deles estava numa cidade para tocar juntos em uma sessão privada, todos se reuniam para mostrar  aos outros suas novas músicas. Como dito para alguém, todos eles pensavam que o rótulo "Country Music Progressivo" era totalmente estúpido e comparável a quem entrou (em um celeiro).

Foi a imprensa que cunhou esse rótulo e, em seguida começou a usá-lo à exaustão. Eu estava presente quando uma repórter muito jovem estava entrevistando Steven sobre sua aparição no filme "Outlaw Blues". Suas perguntas não foram bem pensadas e a entrevista foi se espalhando em todas as direções. Ela finalmente perguntou a opinião de Steven sobre o rótulo "Country Music Progressivo". Sem sequer respirar fundo, ele respondeu: "bem, você sabe que na raiz do termo há a palavra 'progresso'!". A mulher imprimiu isso literalmente, e jamais percebeu que tinha sido confundida tanto pelo meu irmão quanto por sua própria estupidez.

Embora o rótulo "Country Music Progressivo" nunca tenha realmente desaparecido, ele diminuiu um pouco quando Willie Nelson mudou-se para Austin e se juntou ao grupo. Willie coloria fora das linhas tão distante quanto sua música, canções e atitude, e Nashville nunca soube o que fazer com ele por causa dessas características. Os músicos de Austin o receberam de braços abertos e embora sua música não se encaixasse em nenhum estilo determinado, eles certamente tinham uma mentalidade semelhante e Willie logo se tornaria um ícone entre eles. Sua carreira estava muito mais consolidada do que a de qualquer um deles e ele gravou suas músicas, foi mentor, ajudava e promovia cada um deles sempre que podia. 

O falecido Waylon Jennings e Merle Haggard flutuavam pra dentro e fora de Austin, já que ambos eram bons amigos de Willie. Naquela mesma época, Willie lançou seu álbum "Outlaw" e a imprensa inventou um novo rótulo para Willie, Waylon, Haggard e seus amigos músicos "Country Progressivo"  de Austin. Eles, então, coletivamente, ficaram conhecidos como "The Outlaws", termo que, tendo em vista sua atitude e estilo de vida era, de longe, muito mais apropriado.

Nashville perde o controle - e $$$$$


Os Outlaws eram então (e os remanescentes ainda são), extremos individualistas, compositores e músicos brilhantes e os seres humanos mais em contato com a realidade, e todos eles estavam chateados até o último fio de cabelo de suas cabeças com o negócio da música de Nashville. Em um momento ou outro, aquela máquina da indústria musical havia maltratado a todos eles. Nashville governava com mão de ferro o negócio da música Country e lucrou enormes quantias de dinheiro em cima de cantores, compositores e músicos. Os poderosos da música mantinham "a parte do leão" em seus cofres e distribuíam migalhas aos artistas que realmente o ganhavam.

Essa foi uma das razões pelas quais Willie mudou-se para Austin; ele se recusou a continuar jogando o jogo do "você coça as minhas costas e então você coça de novo" com os magnatas da música de Nashville, embalou suas músicas e guitarras e foi para o sul! No momento em que o movimento "Outlaw" estava em plena floração, a maioria dos Outlaws já tinha estabelecido suas próprias gravadoras individuais (chamadas selos "Indie"), estavam gerenciando seu próprio negócio (com a ajuda de amigos confiáveis), cuidavam de suas próprias contas bancárias e tornaram-se, com o tempo, a sua própria entidade privada no negócio da música. Nashville gritou como um porco preso em um portão e todo o negócio da música Country sofreu uma mudança radical.

Os Outlaws não escreviam as simplórias melodias "moon, spoon, june", que tinham sido a norma na música Country até então e suas músicas possuíam mais do que três acordes. Eles escreviam de forma brilhante e prolífica. Quem não se lembra da "Up against the wall redneck mother", de Ray Wylie Hubard que Jerry Jeff Walker trouxe primeiro à luz do dia, ou da "I have to be crazy" de Steven Fromholz, gravada por Willie Nelson com Stevie nos backing vocals? Não apenas estas duas músicas, mas muitas, foram direto para as paradas nacionais e ficaram no topo por um período de tempo nunca visto anteriormente.

Muitas músicas Outlaw não poderiam verdadeiramente ser classificadas como Country, mas também não eram o Bluegrass comum, sequer Pop, e foram simplesmente chamadas de "Americana". Às vezes eram conhecidas como "música folk", Ramblin' Jack Elliot e Jon Denver eram/são ícones nesse estilo. Jon Denver foi uma das primeiras estrelas internacionalmente reconhecidas a gravar uma das músicas do meu irmão, chamada "Yellow Cat".

Muitos anos se passaram desde que os Outlaws atingiram o reconhecimento, e muita água correu sob as pontes individuais - algumas boas e outras trágicas, mas todos eles continuaram juntos e viram juntos os tempos difíceis passar. Eu sempre me senti abençoada por estar no negócio da música na época e, na verdade, sempre considerarei o bando original de músicos do Country Progressivo de Austin  como se fossem meus filhos. Eu compartilhei tempos estranhos e bem-humorados com a maioria deles, que, com o passar do tempo, tornaram-se as mais preciosas memórias.

Cowboys + Hippies = Grandes públicos


Talvez uma das coisas mais originais que aconteceram na época fosse a diversidade de público que seguia a música Outlaw. Era uma estranha mistura de intelectuais, trabalhadores de classe média, empresários ricos, garotos solteiros e casados que tentavam obter um ponto de apoio sobre a vida e outros que apenas amavam a música pro seu próprio bem

A parte mais surpreendente desta montagem de fãs de música foi a forma como os caipiras e os hippies juntaram forças e fielmente compareciam a todos os shows a que pudessem juntar dois níqueis para participar. Os caipiras usavam botas de cowboy, chapéus Stetson e eram ávidos bebedores de cerveja. Em contraste; os hippies usavam jeans desgastados, camisetas, sandálias e fumavam o ilegal "tabaco maluco" como seu vício de escolha.

Ao ser entrevistado por um repórter de Austin, meu irmão resumiu de forma sucinta toda a cena musical Outlaw. A pergunta era: "Steven, não só você, mas todos os Outlaws desenharam uma mescla de fãs que nunca foi vista no negócio da música antes. A que você atribui isso?"

Steven nunca sequer pensara sobre isso, mas respondeu imediatamente: "Bem, os caipiras estavam bebendo cerveja e os hippies estavam fumando maconha. Uma noite, o caipira deu a sua cerveja para o hippie e o hippie deu a sua maconha para o caipira e ambos gostaram, então eles disseram: "Ei, vamos beber cerveja, fumar maconha e ir ouvir boa música!"

Para dizer a verdade, isso é uma analogia bastante precisa. O negócio da música, em constante mudança, se dividiu em muitas direções desde aqueles dias e eu agora sou um "cão cinzento" vendo tudo o que aconteceu a seguir na indústria. Não vejo mais tanta generosidade entre os músicos de cima e de baixo. A maioria deles parece ser focados, intensos e muito sérios. Não há mais tantas brincadeiras dentro e fora dos palcos. Amizades próximas não são visivelmente tão evidentes, embora possam existir, mas os sinais de dólar e "eu primeiro" são muito aparentes.

Cada geração de músicos, como em qualquer outro negócio, encontra seu próprio nicho e estilo e aprende a se adaptar ao que está acontecendo depois de suficientes milhas e decepções. Steven e eu recentemente fomos ouvir um jovem cantor/compositor - que pode ser um dos mais brilhantes compositores/artistas que tínhamos visto em anos. Estávamos sentados em uma mesa, na frente do pequeno clube, quando o jovem homem no palco reconheceu Steven e convidou-o para subir e cantar. Steven graciosamente declinou, o show continuou e quando acabou; fomos aos bastidores.

O jovem absorveu nossos elogios como uma esponja agradecida, perguntou a Steven algumas questões sobre composição e começou a arrumar sua guitarra e equipamentos enquanto o visitávamos. Ele carregava seu bag de equipamentos quando nós chegamos à porta, mas teria que fazer várias viagens pra carregar tudo. Steven tinha acabado de chegar, olhou automaticamente para baixo e pegou o amplificador do jovem e eu agarrei sua guitarra. Levamos o seu equipamento para o caminhão, ajudamos a carregar e voltamos ao clube para pegar nossos casacos e sair.

Quando eu fui até o bar para pagar a conta, nosso jovem amigo músico, conversando com o gerente que tinha acabado de lhe pagar. Não havia  como não escutar a conversa e ouvi o garoto dizer para o gerente, "Você acreditaria que Steven Fromholz carregou o meu amplificador para o meu carro?  Uau, eu vou escrever essa no meu livro! Ele é meu compositor favorito."

Com uma expressão divertida o gerente respondeu: "Isso se chama classe, garoto - tome notas!" Assim que saí com a caminhonete, continuei pensando naquilo. Sem dúvida era um dos elementos que eu estava tentando encontrar - e que faltavam - em muitos dos músicos mais jovens que eu estava observando. A maioria não só não estava exibindo muita classe, mas seu foco estava  completamente errado. Apenas se apoiavam na esperança de fama e fortuna e não tinham a menor ideia.

No meu entender, não existem regras entre os músicos Outlaw, mas algumas coisas estão subentendidas: (1) shows rápidos; (2) Classe conta; (3) não fique no caminho da música; (4)  tudo diz respeito à música e; (5) vamos tocar!

Sucesso ou fracasso? Está no amor ao jogo.
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