Clássicos do Blues - Dust My Broom


Publicado originalmente no blog The Blues Never Die

Num primeiro momento, trata-se de uma releitura de "I Believe I'll Dust my Broom", de Robert Johnson - o riff que se tornou a marca de Elmore James, então, seria uma versão acelerada e distorcida do usado por Johnson mais de uma década antes. Mas aí nós chegamos a um ponto importante. Até hoje, não se sabe se o autor da canção é Robert Johnson ou Elmore James.

Sim, a fama pesa a favor de Johnson - bem como o fato de sua gravação ser de 1936. Porém, dois fatores precisam ser levados em conta: Johnson e James se conheciam e haviam tocado juntos durante a década de 1930. E, ainda mais importante: Johnson, como qualquer blueseiro, não via o menor problema em pegar a canção de outro músico e, fazendo pequenas modificações, transformar em sua, e embora conhecidíssima com Johnson é inegável que a versão de James se tornou a definitiva na longa história da canção, que traz uma letra que continua intrigando pesquisadores. Mas, para isso, é preciso voltar à versão de Johnson que, independente de ser o autor da música (existem também registros de músicas semelhantes antes de sua gravação), foi o primeiro a gravá-la.

Afinal, após a gravação de Johnson, diversas outras versões foram gravadas, normalmente com uma ou outra mudança na letra. A própria versão de Elmore James, por exemplo, incorpora alguns versos de uma gravada por Arthur Crudup em 1949. O Tema da canção claramente gira em torno de um homem abandonando sua mulher - apesar do verso final, justamente aquele que foi "roubado" da versão de Crudup, contrariar tudo o que foi dito antes.


Outra grande questão que assola fãs e pesquisadores na versão de Robert Johnson está no termo dust my broom e seu significado. Essa expressão viria do fato de que dust seria um termo muito usado durante o século 18, e que significava "ir embora rapidamente" (depois, se tornou get up and dust). Há quem diga que sua origem é bíblica: no evangelho de Mateus, existe uma passagem que Jesus diz que "se alguém não os receber nem ouvir suas palavras, sacudam a poeira [dust] dos pés quando saírem daquela casa ou cidade".

Mesmo com essa explicação aparentemente simples, a versão de Johnson, como tudo que envolve seu nome, é carregada de mistério. Mais de um pesquisador tenta conferir à letra um caráter de magia negra, com teorias que vão desde o famoso "deixar a vassoura atrás da porta" (por causa do broom) que espantaria um visitante indesejado, até ao preparo de um encantamento para matar o amante da mulher - diversos feitiços de vodu usavam algum tipo de pó [dust]. Segundo eles, Johnson afirmar que "o negro que você ama pode ficar com meu quarto" provaria apenas que ele está apenas montando uma armadilha para o sujeito.

Por outro lado, o fato dele dizer que "o negro que você ama pode ficar com meu quarto" também completa a simples ideia de "estou indo embora". Ao invés de um encantamento de vingança, seria apenas uma declaração de “que se dane" para o relacionamento. É uma interpretação que funciona.

Apenas como curiosidade: a versão de Johnson ainda traz, no final, referências geográficas impensáveis para alguém que mal colocou os pés fora do Mississipi, mas já se foi provado que os versos foram tirados de fatos da época, como a invasão japonesa na Manchúria, a Segunda Guerra entre Itália e Etiópia e a formação da Commonwealth das Filipinas.

Apesar de inúmeras interpretações, vários pesquisadores parecem tender ao sentido de que o sujeito está indo embora e pronto - algo corroborado de forma explícita por todas as versões pós-Johnson.

Mas, se a letra de Johnson desperta mais interesse, a versão de James tornou-se a definitiva e serve como base para todas as (muitas) regravações que viriam dali em diante, tamanho o impacto musical que causou à época. A primeira gravação "solo" de James se tornou um marco do blues e apresentou ao mundo, em 1951, um som distorcido que só conseguiria ser reproduzido de verdade com o rock do (final) dos anos 60 e que o consagrou como herói do blues.

Apesar de ter uma carreira longa, iniciada nos anos 30, Elmore James experimentou o sucesso de verdade somente por pouco tempo, desde as suas primeiras gravações em 1951 até a morte, de ataque cardíaco, pouco antes de embarcar para uma turnê na Europa em 1963. Nesses pouco mais de dez anos, ele deixou um legado quase incalculável, expandindo cada vez mais a guitarra do blues.

Publicado originalmente no blog The Blues Never Die
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