Faixa a Faixa: Clube de Patifes comenta Casa de Marimbondo


Os baianos do Clube dos Patifes é uma banda experiente, está a mais de 17 anos na estrada e chegou ao seu quarto álbum de estúdio, "Casa de Marimbondo".

A banda formada por Joilson Santos (baixo), Pablues (guitarra e voz), Paulo de Tarso (bateria), Luyd Andrade (guitarra), Rodrigo Borges (guitarra) e Kino Bone (Trombone), apostam nos Blues com pitadas de Rock dos anos 1950 e 1960, tudo em português e com letras muito bem feitas.

O álbum é uma pequena mostra da qualidade da cena Blues nordestina, que é disparada a melhor cena do país. Fico feliz em divulgar bandas nacionais que se preocupam com a qualidade do trabalho e de sua divulgação, sem se apegar demais aos métodos tradicionais.

A banda escreveu um textão para explicar cada uma das faixas do novo álbum. Leiam e se divirtam.




Hey Mama

Essa é uma das canções mais especiais do disco. Escrevi logo após a morte de meu pai, que aconteceu no dia de uma das festas mais populares e representativas do nordeste - O São João. Foi justamente no dia 24 de junho de 2006, em plena festa e Cruz das Almas pegava fogo, com sua saudosa batalha de espadas. Daí versos na canção como "Hey mama, hoje estou tão triste assim, naquela noite da fogueira, as estrelas se quebraram sobre mim". É uma canção de dor e saudade. Os atabaques de Tata Faraunguê, foram gravados com um sentimento de respeito à memoria, tanto do velho Lalá (meu pai), quanto de dona Marlene, minha mãe, que veio a falecer em 2011, antes da canção ser gravada. Com isso ela torna-se ainda mais especial. Luiz Caldas, fecha com chave de ouro, com seus bends e suas notas, abrilhantado e consolidando o clima da canção.

Radiola

Você precisa de que pra viver, pra sobreviver, em meio às agruras que te cercam? Radiola mostra que é preciso de pouco, muito pouco pra seguir em frente. Conta a história de uma desilusão amorosa, em que foi feito de tudo para se manter a relação, passando por cima do amor próprio. Não interessa pra ele, dinheiro, bens de valor, nem tampouco outros amores... Quer apenas sossego, que está justamente nas coisas simples o que muitas vezes não enxergamos. Nada mais justo, do que uma Radiola, pro cara poder ouvir seus discos e viajar com tranquilidade pelas histórias que sua imaginação mandar.

Baby Blues

O Blues tem das suas. Aqui temos uma canção composta há 13 anos, e só agora teve espaço para ser gravada. Paulo e Jo Capone, foram os responsáveis diretos pela escolha de Baby Blues, para o repertório do Casa de Marimbondo. No começo fui meio que contrario, mas aos poucos fui entendendo a visão dos caras e partimos para arranjá-la... Que diga-se de passagem, ficou linda. Ela fala de tormentas na cabeça e no coração, por conta de paixões que nos fazem mal e que destroem nossos dias. Mesmo com um ar melancólico, Baby Blues sugere uma volta por cima, chutando o passado e expulsando os fantasmas. Destaco o clima no especial vocal, que André T executa no meio da canção... A gente não sente falta do solo de uma guitarra ou outro instrumento qualquer.

O inquilino

Essa canção é uma tema literalmente patife, sexual e bukowskiano. O cara largado na rua, que depois de tudo e de todas já bebido, pede mais uma chance e garante que podem se acertar. Mas se repente ela não o quiser, pode se arrepender, pois já estará bem longe, em outra, sem volta. Roberto e Erasmo Carlos gostavam de escrever essas coisas, do tipo: "eu sou terrível mas preciso de você, mas se não me quiser, ficarei bem e quem perderá é você" - isso parafraseando, claro (rs). O Inquilino, é Clube de Patifes revisitando suas origens, buscando manter a fama de mal (rs).

02 de novembro

É uma homenagem direta a um amigo que se foi. Cleison, o "Bob Cley", foi o primeiro produtor a acreditar no Clube de Patifes, com quem gravamos nossa primeira demo, nos Estúdios San Clea, em Feira de Santana, nos idos de 1999. Um dia, marcamos uma reunião da banda no Mercado de Artes em Feira, para definirmos algumas ações. Era passado do meio dia, quando encontrei os caras para almoçar e conversarmos. Fui logo perguntando por Cleilson, pois não tinha notícias, fazia um tempo. Os meninos também não sabiam. A TV do restaurante estava ligada no canal do jornal local, e a repórter Madalena Braga, naquele momento anunciava morte de um empresário de Feira. Ficamos curiosos para saber de quem se tratava. Logo após o intervalo, era apresentado na tela da TV, um RG com a foto do Bob Cley e ali ficamos sabendo da morte do nosso amigo. Fui pra casa pensando naquilo tudo, e de como desperdiçamos nosso tempo com bobagens, deixando de viver certas situações, valorizando outras nem tão importantes assim. Um perdão a um pai, mãe e/ou irmão, que deixamos de lado... uma conversa, um abraço numa pessoa querida, uma falta que fazemos para aquele ou aquela que amamos, tudo isso trocado por situações que não nos preenche. Temos que valorizar cada momento ao lado daqueles que são nossos, daqueles que valem a pena pra gente. A vida é uma só e a morte sempre estará à espreita.

A balada maldita

Acho que já deu pra perceber que o Casa de Marimbondo é um disco de superação (rs). Pois então... O amor é o produto mais vendido em todos os meios mercadológicos, e a música é o maior de todos. O Clube de Patifes pode falar de amor? Essa pergunta vocês podem responder, depois de ouvir a Balada Maldita. A canção não estava prevista para entrar no disco, pois soa totalmente diferente, do que o Clube fez até aqui. Nas reuniões para fecharmos o repertório, a Balada Maldita foi sinalizada por André T, em meio as tantas canções que dispúnhamos naquele momento. É uma canção de amor mesmo, bem açucarada, mas nem tanto, já que é o "doce" Pablues quem a interpreta (rs). Acredito poder experimentarmos, nem que seja uma vez, um caminho, de certa forma, novo pra gente. Tá aí, tá gravada e vocês é quem vão dizer se a gente sabe falar de amor... Esperamos que dancem agarradinhos.

Nada acabou

Lembro que uma vez tivemos o primeiro contato com André, anos antes, onde pleiteávamos as primeiras gravações. Não conseguimos naquele momento, mas num ensaio mostramos algumas músicas pra ele e Nada Acabou foi uma das canções.  Segundo André, ela já estaria pronta pra gravar. Daí, foi uma das 3 primeiras a gravarmos no Casa de Marimbondo, entrando no EP Radiola. É uma musica forte, daquelas que te pegam pelo pé, sabe? "Já não tenho mais tempo, o meu velho barco afundou... Os brancos do meu cabelo invadiram a minha barba, diante do espelho". Diga aí vá, quem nunca quis dar a volta por cima, naquela dor de cotovelo, que reverberava no quarto, quando as luzes se apagavam? Nada acabou, baby...

Voodoo

Essa foi uma onda (rs). Uma dia tava na casa de um amigo e outros amigos e amigas se faziam presentes. Violão vai, violão vem, playlist aqui e acolá, cerveja gelaaaaaadaaaa e muita zoação. Foi uma noite divertida, não me esqueço. Lá pelas tantas, um dos amigos me confessa que estava interessado numa amiga. Só que ela não estava afim de ficar com ninguém naquela noite e só queria beber e ouvir música. O cara ficou agoniado, só faltou chorar (rs). Não me contive vendo a cena e rabisquei um textinho. A garota, curiosa que era, queria saber o que estava escrito.... Detestou o que leu (rs). Dias depois, surgiu uma melodia, mas não tinha letra. Lembrei do papel amassado no bolso da bermuda, e fui tentar adequar. Parece que foram feitos um para o outro... Letra e música, claro. Nasce ali, Voodoo!!!

Cavalo de Tróia

Música feita para os amigos da onça. Para aqueles queridos que entram na tua vida, apenas para usufruírem do que você tem e te dão as  costas no momento de sufoco. Para aqueles que fingem querer teu bem, que vão na tua casa, bebem na tua mesa, comem da tua comida, mas o sentimento que cultivam é a inveja. Preste atenção ao teu redor, e se cuida pra não cair em armadilha. O melhor presente é o de grego - um lindo, estonteante e reluzente Cavalo de Troia. Mas não desacredita das pessoas não, pois tem muita gente boa ainda por aí.

O homem mais triste do mundo

Eis que um dia li essa letra num caderno de Paulo de Tarso. Achei uma poesia das mais marcantes. Fiquei pensando: Como um cara, feliz como Paulo, pôde escrever uma letra como essa? Não quero ver ele triste nunca (rs). Tinha ali nas mãos um Blues, um bluesão. Essa foi uma daquelas canções, que a letra e a música já estavam prontas em algum lugar do universo, e só precisavam se encontrar. "O homem mais triste do mundo, Blues... O homem mais triste do mundo, soul". Do palco ao balcão, Big Town Blues e agora OHMTM... Paulo de Tarso e sua alegorias fechando essa magia que é o mundo do Clube de Patifes. Gente, não se preocupem, Paulo está bem e essa é só mais uma canção (rs), uma belíssima canção. Os headbanggers podem vir bater cabeça com o Clube, porque o peso mora ali.

O sinal

Foi composta durante as gravações e entrou no repertório do disco, como o nosso xodó, a caçula do Casa de Marimbondo. Fechamos os trabalhos, com um refrão forte e  alto astral - "É o sinal das trombetas dos novos tempos, anunciando que você está vivo, como uma criança que vê o circo chegar". Tenho muito apreço por ela. Mostrou-se uma canção de personalidade, e o melhor; funcionou bem no palco, em duas apresentações que fizemos, antes do lançamento do disco. Uma vez, mostrando as canções em fase de gravação para um grande amigo, ele me disse que tínhamos em mãos um lindo disco, mas um disco melancólico. Não sei bem se o Casa de Marimbondo soa com melancolia, mas sei que este disco, pelo menos pra gente, mostra que podemos passar por certas situações que nos afligem e sairmos ilesos, bastando-nos colocar a frente nossa fé e seguir com foco. Esperamos surpreender nossos fãs com esse trabalho, que foi feito com muito esmero e dedicação, por esse Clube de Patifes que respeita muito todos que nos incentivam e estão sempre do nosso lado. Sejam bem vindos a esse novo e revigorado Clube!!!!
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