Entrevista: Facção Caipira fala sobre seu novo álbum, Homem Bom


A Facção Caipira é uma das melhores bandas autorais do país, acompanho eles a muito tempo, já fui a dois shows e ter visto a evolução deles, seja na música como em popularidade, é muito gratificante.

No mês de setembro a banda irá lançar seu primeiro álbum de estúdio, "Homem Bom", gravado em 5 dias, mais precisamente 83 horas, no estúdio Estúdio Toca do Bandido no Rio de Janeiro em Setembro de 2014.

Entrevistei o Jan Santoro (Voz/Resonator), que falou um pouco sobre a gravação e produção do álbum, a cena carioca e Superstar.


Filipi Junio - O novo álbum está prestes a ser lançado, como foi a composição das faixas que integram "Homem Bom"?

Jan Santoro - O processo de composição do álbum todo ocorreu a partir de abril de 2014, eu cismei que faria 30 músicas em 30 dias no mês de abril para levarmos a diante o projeto desse novo disco – não consegui, nem a metade mas no esforço consegui 13, 14 músicas brutas sem muito detalhamento. Levei para o estúdio com os Caipiras e fizemos uma peneira para começar os arranjos do álbum, dessas ficaram 7:

"Pedrada" que montei a música a partir do riff inicial feito pelo Renan Carriço; "Tiro e Queda" que fiz fortemente influenciado por um lado Stoner da minha vida; "Ex-Fumante" foi feita em cima de um período de uma semana que eu parei de fumar pra tentar entender o sofrimento que o Renan estava tendo, ele estava sem fumar por três meses. Agora ele voltou e eu também tinha voltado, mas parei de novo – acho que é pra valer. Ela vêm de um drama meio Nelson Gonçalves, tango, muitas referências e vontade de fumar.

"Dois pra lá, dois pra cá" fiz com muita ressaca, veio com amor, mas mais pela falta dele – não sei, acho que a dor de cabeça me pressiona a compor as vezes, tocar alivia, mas não sara e ela fica ali, como um click te irritando hehe. Mas basicamente acordei cantando a melodia da parte do piano da música e perguntei para o Vinícius que tava tomando um café se ele conhecia isso de algum lugar, disse que não e comecei a montar o resto; "Levada" é o blues, não consigo fugir disso – lava a alma; "Vida de Tralha" depois que fiz o riff principal saiu rapidinho, é curioso que é uma música que tem uma modulação no refrão, eu não gostava muito até arriscar fazer; "Homem Bom" foi uma junção de riffs que fizemos juntos eu e Renan e trabalhei uma letra, uma ideia de letra que eu tinha no caderninho há muito tempo em cima disso, a ideia do trem chegando além de ser um clássico representa e dialoga bastante com o contexto da letra – ela acabou dando nome ao disco, acho que representa bem essa nova etapa da banda.

"Trapaceiro", "Comédia Romântica", e "Blues Brasileiro Foragido Americano"” são músicas que já vínhamos tocando além de "Ressaca" que também está no disco, é uma música do Daniel. Temos um total de 11 músicas, no geral acontece assim – eu ou Daniel trazemos um projeto bruto de uma música pro estúdio e vamos lapidando, improvisando nos ensaios até formatarmos direitinho como a gente quer, respeitando a opinião de cada um, ouvindo, ajudando e claro, se divertindo um bocado.

Depois somamos à produção do Felipe Rodarte na Toca do Bandido ai ficou bonito pra valer, estamos muito satisfeitos com o resultado final do álbum e com o trabalho de todos envolvidos.

Filipi Junio - E qual a diferença desse álbum para o primeiro EP de vocês?

Jan Santoro - O primeiro EP as composições são mais básicas, elas já existiam quando pegamos pra gravar – Renan tinha acabado de entrar na banda, o EP tem muito mais referência do blues, do 12 bar, do improviso, alias improvisar é uma coisa que também fazemos bem juntos – cada show vêm com uma pegada diferente, as músicas sempre tem climas diferentes de um show pro outro, vêm do improviso, da liberdade que tomamos desde o inicio baseada da segurança da linguagem musical que temos uns com os outros. Nesse álbum a pré produção esta completamente mergulhada na Facção Caipira, trabalhamos todos os arranjos juntos, botamos nossas referências, pegadas e influencias pra valer, não digo que saímos do blues, do rock, pelo contrario entramos de pé na porta com a nossa cara – é nosso álbum de estreia, agora em diante trabalhamos assim.

Filipi Junio - Fiquei sabendo que vocês gravaram as 11 músicas de "Homem Bom" em 5 dias. Como foi isso? 

Jan Santoro - Foi uma loucura, com certeza a melhor loucura de nossas vidas até agora. Chegamos no limite da entrega, da exaustão, da satisfação, da cobrança de fazer o melhor, ficamos completamente focados nesse álbum por 5 dias. Chegou ao ponto que após uma noite inteira de gravação, no dia seguinte eu tinha esquecido que gravei a faixa "Homem Bom", Rodarte riu e fomos escutar, foi incrível, estava gravado e estava lindo, olha que eu nem tinha bebido. Foi muito intenso, fizemos com muito amor, trabalho em equipe a toda hora: enquanto um dorme, um cozinha, um grava, outro ajuda, o outro filma - mas desde o inicio sabíamos que ia dar certo, que íamos conseguir, chegamos com o álbum pronto e a mão coçando pra gravar.

Filipi Junio - E como foi o trabalho de mixagem e master nos EUA? Quem foi o responsável por esse trabalho? 

Jan Santoro - Foi incrível, escolhemos com muito carinho, analisamos muito o trabalho de mixagem de muitos produtores nacionais e internacionais, conhecíamos o trabalho do Aaron Bastinelli (NY) pelo projeto da Converse, o Rubber Tracks e ele já havia trabalhado com a Canto Cego e a Kapitu, grandes amigos nossos, e gostamos muito do resultado. Ele já trabalhou com artistas como Bono, Marky Ramone, Grandmaster Flash, Matt and Kim, The Roots, Mark Foster, The Hold Steady, Lettuce, The Dillinger Escape Plan, tUne-yArds e sabe trabalhar exatamente com a identidade de cada banda – respeitando muito o que a música pede, isso encaixou exatamente com o processo em que pensamos a pré-produção, vamos fazer os arranjos de acordo com o que cada faixa pede, sem muito floreio mas sem deixar muito básico também. O trabalho do Aaron com a gente foi incrível, soube traduzir muito bem as músicas soar viva a gravação – exatamente como queríamos e nem precisamos pedir nem nada, o cara é foda

O Cris Hanzsek (Hanzsek Audio) também foi por recomendação e achamos a masterização dele muito boa, ouvimos pelo álbum "Vermelho" da Kapitu, conversamos muito e fizemos com ele. Já havia trabalhado com The Melvins, Soundgarden, Bill Frisell.

O carinho de mixar e masterizar nos EUA trouxe outra roupagem para esse álbum, ele ganhou uma textura incrível – nós escrevemos em português, temos muita referencia da música brasileira, mas também temos influencia enorme de estilos musicais internacionais. Acredito que acertamos em trazer esse aspecto também na mixagem e masterização, está tudo muito orgânico e diferente, as vezes soa como um álbum ao vivo.

Filipi Junio - Vocês integram o movimento A Cena Vive no Rio de Janeiro, um dos movimentos autorais que mais acompanho e vejo resultados. Fale um pouco sobre essa "ressurreição" do Rock no Rio.

Jan Santoro - Não acho que seja uma ressurreição, ele sempre esteve vivo, o Rock no Rio – a grande diferença é que agora estamos aparecendo e em todos os lugares, o trabalho em conjunto das bandas independentes têm escancarado portas. Estamos sempre nos reunindo e sugerindo para que todos façam o mesmo, planejamos ações em conjunto, apoiamos iniciativas, fomentamos a cultura como podemos – somos profissionais e estamos sempre buscando melhorar, o trabalho em conjunto contribui muito para isso – temos uma coletânea no Spotfy, confiram lá acenavive, o movimento tá se espalhando, está em São Paulo, na verdade está em todos os lugares é um organismo vivo, a grande diferença é que agora olhamos um pro outro com carinho pelo trabalho, não estamos competindo no mercado de trabalho, estamos apoiando uns aos outros e os resultados são incríveis – quer fazer parte da cena? É só viver a cena, estar presente nos shows, nas ações, fomentar ações, trabalhar junto é simples e muito eficiente, basta levantar, andar e produzir.

Filipi Junio - E como foi participar do Superstar na Globo? Mesmo não ganhando, vejo que ajudou demais a banda. 

Jan Santoro - Foi incrível a experiência, 2 minutos na Globo e quantidade de carinho que recebemos, de pessoas que naquele momento não faziam ideia de que existíamos, o alcance nacional – a pagina no Facebook deu um boom, ficamos no Trend Topics do Twitter por 7 horas, é tipo um negócio de assunto mais falado, eu demorei pra entender, mas foi irado! Ver a mobilização dos nossos amigos, das bandas, todos torcendo – muito amor ali envolvido. Teve o Léo Jaime, o Lucas Lima também que torceram pela gente, o comentário positivo da Sandy e do Paulo Ricardo. Foi muito bom, ficamos muito felizes pela caminhada das bandas de rock no programa – a Supercombo, a Moondogs, a Versalhe, a Scalene destruíram, foi foda. Além dos nossos amigos da Dona Zaíra, Consciência Tranquila e da Devir – torcemos muito.

Filipi Junio - Deixem um recado para seus fãs.

Jan Santoro - O álbum "Homem Bom" está vindo com tudo, colocamos muito amor nessa obra – toda etapa tem sido muito intensa e agora chegou a hora de jogar isso para o mundo. Contamos com cada apoio de vocês e ficamos muito felizes em podermos estar compartilhando essa experiência  fiquem atentos na nossa página que esse trem tá vindo ai.

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