Alabama Shakes - Sound and Color (Review)


"Sound and Color" é o segundo álbum de estúdio do grupo americano de rock/blues Alabama Shakes. O disco foi produzido por Blake Mills e gravado no Studio Sound Emporium em Nashville, Tennessee.

Diferente de seu antecessor, o debut "Boys and Girls", "Sound and Color" incorpora à linguagem tradicional da banda uma carga de sonoridades pop pós-modernas; ouvintes de Bjork, Lorde, Florence and the Machine, Sia, e de trabalhos mais recentes do Coldplay podem se identificar facilmente com o play. Entre as inúmeras influências, percebem-se bits de indie e garage rock, blues, folk, lounge music e industrial, sutilmente conectados por arranjos de cordas e camadas de vocais lo-fi. 

Na minha opinião, ainda que não tenha agradado boa parte dos fãs do primeiro trabalho, essa experimentação funciona muito bem dentro da proposta lírica do disco, pois consegue traduzir de forma sensível os temas abordados – relacionamentos, alienação, euforia, fantasia, sonho. Bem, vamos ao disco!

A faixa de abertura, "Sound and Color", para qual a banda gravou um clipe, já sintetiza bem a vibe da obra – uma canção curta com uma cozinha solida, vocais etéreos e encadeamentos harmônicos incomuns. Pano de fundo musical perfeito para o vídeo, que mostra um astronauta em choque pelo isolamento e solidão no espaço.

"Don't Wanna Fight" traz um groove sincopado e moderno, abrindo espaço para os vocais característicos de Brittany Howard. O refrão, simples e direto, funciona bem, assim como os licks precisos da guitarra de Heath Fogg.

"Future People" se constrói sobre um riff minimalista de guitarra. A vibe “oriental” da música (sim, eles abusam das escalas chinesas) vem em contraste a um backbeat orgânico de bateria permeado de sons industriais. Uma das principais características da desconstrução que Blake Mills propõe é a fragmentação de elementos ao ponto de não serem reconhecidos – e essa formula é levada bem a sério no decorrer do disco.

"Gimme all your love" é um blues lento e marcante; Brittany cria um contraste interessante entre a interpretação das estrofes e do refrão, evidenciando a naturalidade com a qual transita entre os momentos mais calmos e mais intensos.

"This Feeling" é uma faixa acústica, que se aproxima da sonoridade mais orgânica de "Boys and Girls". O belo refrão, quase sussurrado, revela uma interessante característica presente no álbum: a preocupação com os backing vocals. Em sua maioria interpretadas pela lead singer, as linhas de apoio vocal se estendem por intervalos dissonantes, criando combinações “estranhas ao ouvido”, mas que funcionam para integrar as canções no clima desconexo do disco.

"The Greatest" traz um andamento mais acelerado, com uma intro de guitarra que poderia estar numa música do The Clash. A canção flui sem novidades, e estranhamente do meio para o fim evolui para um spiritual turbinado (com um walking bass digno de um culto gospel no Harlem) só que tocada com instrumentos elétricos, inclusive a bateria. Nada parece ocasional, e a banda parece se divertir ao chocar com combinações imprevisíveis para o formato mainstream.

"Miss You" é um blues em 12/8 que revela bastante a sensibilidade e a dinâmica da banda. Execução precisa da cozinha de Cockrell e Johnson, com belas intervenções de Brittany e Heath.

"Gemini", primeira canção composta pela banda para esse álbum, adentra mais ainda em experimentações, desenvolvendo em seus quase 7 minutos um groove sinistro, quebrado, com vocais hipnotizantes e leads cortantes de guitarra – de novo, de causar arrepios (no bom sentido) por estes elementos estarem incrivelmente conectados com a mensagem e o sentimento da música. 

"Sound and Color" é um disco ousado; a banda aposta alto em não somente romper, mas transpor o tipo de som pelo qual se tornou conhecida inicialmente, mergulhando em territórios novos, e demonstrando uma maturidade artística e musical não muito comum a um grupo que está ainda em seu segundo registro (!). Francamente, acho que daqui há alguns anos, é possível que algumas pessoas se refiram a "Sound and Color" como um disco definitivo da banda.


Rodrigo Lopes é guitarrista e compositor da banda Republique du Salem e produtor musical.
Tecnologia do Blogger.