É possível criar um underground auto-sustentável?


Olá a todos, quem escreve aqui é o Bernardo Fajoses* e antes de me apresentar de uma maneira mais estendida, acho muito importante agradecer e valorizar o espaço cedido pelo Filipi Junio, que mantém o site sempre cheio de novidades, com iniciativa, mentalidade aberta e tudo isso no mais alto nível. Esta não é a primeira vez que tenho espaço por aqui, visto que em minhas empreitadas musicais sempre tiveram o respaldo e apoio do site, seja colocando uma de minhas canções da carreira solo na coletânea ou divulgando amplamente os shows que faço ao lado do bluesman australiano/britânico Gwyn Ashton, com quem toco e faço turnês dentro e fora do Brasil.

Essa coluna nasceu em um tópico no Facebook (leiam todos os comentários da discussão caso queiram se inteirar mais do assunto) onde debatíamos sobre movimentações de bandas de Southern Rock no Sul de Minas, porém o papo foi se desenrolando de uma tal maneira, que acabamos falando sobre a situação do Rock em geral no Brasil e uma das minhas respostas (que resultou no convite para escrever esse texto) é transcrita abaixo:

É possível criar um underground auto-sustentável?


Pessoal, acho que temos que saber separar algumas coisas nessa conversa, pra não parecer que alguém sabe mais ou menos que qualquer um aqui: somos o resultado das experiências as quais fomos submetidos ao longo de nossas vidas. As vezes uma pessoa com uma visão "de dentro" da industria musical tem um tipo de discurso, músicos trabalhadores tem outro, etc. Então, pra coisa não ficar muito confusa, acho que podemos lidar com alguns parâmetros aqui.

O rock não fatura mais como faturava em outros tempos, isso é um dado mundial. Olhando para o nosso país, podemos deduzir isso sem muito esforço também. O mercado caminha cada vez mais para o nicho (pequenos mercados mais segmentados) do que para o "mainstream"(o grande mercado, mais geral, por onde circula a música de massa que ouvimos nas rádios FMs, etc ). Basta sabermos onde estamos pisando. O Rock nunca foi popular no Brasil, nem quando foi popular. Basta comparar os números de vendas dos produtos de Rock nos anos 80 com de outros ritmos mais populares na época, como a Lambada. O fato de ter vendido maior quantidade do que vende hoje em dia não torna o rock de outrora mais popular, apenas demonstra que o modelo de consumo era outro. Não podemos também culpar uma "enorme força imbecilizadora" por isso. Isso existe em tudo o que é lugar no mundo todo: nos EUA é o hip hop "batidão", na Europa é a música eletrônica "para uso recreativo". Não adianta colocar a culpa no mainstream de algo que é alheio a ele. Precisamos pensar primeiro em nós mesmos, em desenvolver e tornar o underground (ou os mercados de nicho, como queira) um território mais fértil e auto-sustentável; atrativo para novos artistas, realizadores e novas empreitadas!

Acho que o problema do Rock no Brasil é estrutural e conjuntural, uma soma de fatores que pode ser resumido em: "Tem muito esperto pra pouco otário(SIC)" em breve, poderemos debater esses fatores de maneira mais detalhada e objetiva, aqui mesmo nas próximas postagens e conto com a troca de mensagens, comentários e e-mails de vocês, leitores, para tal.

Acredito, até mesmo pela posição que ocupo, que o que pode ser abordado e debatido é: vamos criar um mercado auto-sustentável ou vamos reproduzir as mesmas estruturas de dominação de mercado utilizada pelo "mainstream", só que sem dinheiro, sem organização e consequentemente sem estrutura? É sintomático isso, pois acaba produzindo uma "estrutura sem estrutura", da qual somos prejudicados e ainda assim, em muitos casos, continuamos como defensores e consequentemente cúmplices e perpetuadores deste "não-sistema".

Acredito que a primeira medida pra isso mudar de rumo é a profissionalização do meio. Acabar ao máximo com essa cultura do "mambembe" (no pior sentido) que nos cerca. Recentemente tenho colocado boa parte de meus esforços e investimentos nisto e em breve terei o prazer de convidar a todos aqui para participarem de um workshop que venho desenvolvendo com a ajuda de profissionais nacionais e internacionais da área musical independente. Sinto que essa pode ser uma pequena contribuição minha para este mercado em potencial imenso que é o nosso país, mas que para ser aproveitado por todos nós, de maneira justa e efetiva deve se profissionalizar, não apenas para atender melhor as partes envolvidas (público, produtores, técnicos e artistas), mas também para ter a autonomia necessária de pensar e colocar em prática novas soluções para nós mesmos.

Bernardo Fajoses é: músico multi-instrumentista, compositor, produtor musical e o que mais for preciso pelo Rock n' Roll. Pode ser encontrado em seu estúdio no Rio de Janeiro, onde produz incansavelmente, através do e-mail: befajoses@gmail.com ou em último caso pode ser conjurado através de um pentagrama invertido desenhado em uma mesa com uma garrafa de Jack Daniel's no meio. Ou só a garrafa de Jack Daniel's.
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