O Southern Rock e o racismo


Muito tem se discutido sobre o fato da bandeira confederada ser ou não um símbolo racista. Essa discussão não nos interessa muito, estamos aqui para falar de música. Mas qual o motivo de falar sobre isso aqui nesse espaço? O Southern Rock é sulista, é sinônimo de orgulho daquela parte dos EUA e a bandeira confederada foi atrelada ao estilo desde o início.

Peguei trechos do texto do Brandon P. Keith em que ele fala sobre o Southern Rock e o racismo, refutando qualquer tentativa de atrelar o estilo a atitudes racistas. Espero que seja esclarecedor.

Southern Rock e Racismo


As bandas do gênero eram uma formação cultural que demonstravam visões racialmente e politicamente progressivas, através da música. A era do Southern Rock ocorreu em um ponto de transição e interseção dentro da complexa história social do Sul, ou seja, a era pós-direitos civis, entre os anos 60 e 70. Para explicar a ideia de o Southern Rock ser uma formação cultural, é importante entender a história política do Sul, assim como o dilema do homem branco sulista no Sul pós-direitos civis. Durante o século 20, a batalha pelos direitos civis foi fortemente travada no Sul e expôs muitas das características desfavoráveis e infelizes da região – racismo ardente, intolerância, resistência a mudanças, e desprezo ao governo federal. Sulistas nascidos nos anos 40 e 50 cresceram no meio da batalha dos Direitos Civis, e isso incluía aqueles que formariam o gênero Southern Rock.

No começo do século 20, racismo e discriminação eram aspectos de vida aceitos no Sul. Mas depois da Segunda Guerra Mundial, a batalha pelos direitos civis se acelerou, e levou à decisão que foi um marco na Suprema Corte, em 1954, a chamada Brown v. Board of Education, [decisão que segregou as escolas públicas, dividindo escolas de negros e de brancos]. O movimento dos direitos civis, liderado por grupos como o NAACP, Congress of Racial Equality, the Student Nonviolent Coordinating Committee and the Southern Christian Leadership Conference [organizações que lutavam pelas minorias étnicas] rapidamente ganhou ímpeto, enquanto tentava avançar em uma batalha não violenta para assegurar a proteção dos direitos civis aos negros, e acabar com a discriminação no Sul de Jim Crow). Esses grupos advogavam em nome dos direitos civis ao organizar protestos e manifestações pelo Sul. Embora muitos dos protestos devessem ser manifestações pacíficas, os manifestantes encontraram violência da parte de muitos brancos que se opunham à causa.

Depois do assassinato do presidente Kennedy, o presidente Johnson tornou lei o Ato dos Direitos Civis de 1964, o que foi descrito como "a afirmação dos direitos civis mais dramática já feita por um Congresso Americano". O Ato dos Direitos Civis de 1964 foi um marco na legislação que, essencialmente, tornou fora da lei a segregação em instalações públicas. Ao longo dos próximos anos, mais leis pelos direitos civis foram aprovadas, incluindo o Ato do Direito de Voto, de 1965 e o Ato dos Direitos Civis, de 1968. Durante a transição dos anos 60 para os anos 70, questões raciais migraram do Sul para o Norte, enquanto muitos sulistas ajustaram a implementação dos Atos dos Direitos Civis.

Questões de direitos civis, como usar os ônibus como uma forma de segregar as escolas públicas, se tornaram parte do debate nacional, enquanto outros estados da União se adaptaram às novas leis dos direitos civis. As significantes realizações relacionadas à legislação dos direitos civis mudaram para sempre a textura social do Sul. Esses eventos tiveram um importante papel na formação do Southern Rock. A enorme mudança político-cultural que ocorreu por causa do movimento dos direitos civis forçou muitos no Sul a reexaminar suas tradições e identidades regionais. Embora aqueles do Sul tivessem um forte senso de orgulho regional, o movimento dos direitos civis expôs muitas das características desfavoráveis da região, forçando os habitantes a reexaminar o que significava ser um "sulista"

Enquanto as pessoas do Sul reexaminavam sua identidade sulista, bandas de Southern Rock surgiam e ofereciam um modo de abraçar o orgulho sulista, ao mesmo tempo que rejeitando as tradicionais opiniões racistas. Vivendo em vizinhanças pobres e inter-raciais, como muitos viveram, os músicos do Southern Rock cresceram, em sua maior parte, no meio do racismo amargo e enraizado que era tão prevalente no Sul. Contudo, por causa disso, enquanto jovens, muitos músicos de Southern Rock foram expostos a vários elementos da cultura negra, incluindo Rhythm & Blues. Talvez a empatia pelos negros seja também, em parte, porque os músicos de Southern Rock tenham sentido na própria pele a frieza do preconceito e discriminação, embora certamente não fosse nada comparado ao que os negros enfrentavam. Quando eram adolescentes e jovens adultos, os membros do Lynyrd Skynyrd e o The Allman Brothers Band eram vistos como hippies e encontraram intolerância no sul conservador, por causa dos seus cabelos longos, ao extremo de serem agredidos e perseguidos por outros brancos sulistas.

Da mesma forma, Rick Hirsch, do Wet Willie, é judeu e enfrentou a discriminação como um resultado. "(Como judeu, eu senti) o efeito direto do racismo e preconceito em mais de uma ocasião. Isso apenas serviu para aumentar minha consciência e me tornar mais forte no final, e, de fato, me permitiu agir no meu maior interesse na música que tinha sido e estava sendo criada por músicos negros," disse Hirsch.

A imagem e reputação do Sul, e, é claro, dos homens brancos sulistas, foi marcada e diminuída por causa da resistência do Sul. De acordo com o historiador Ted Ownby, os brancos do Southern Rock cresceram ouvindo muitas críticas sobre o Sul, já que muitos brancos não enfrentaram o movimento dos direitos civis com muita dignidade. Possivelmente, muito disso foi merecido, embora os sulistas possam insistir que eles estavam resistindo à intromissão do governo no estilo de vida sulista, e não resistindo aos Direitos Civis. Para concluir, a era pós-direitos civis foi um tempo de mudança nos Estados Unidos, mas especialmente no Sul, e os homens brancos sulistas se encontravam em um período caótico enquanto procuravam por identidades pessoais e regionais. Em resposta à mudança dos tempos, uma nova geração de brancos sulistas, que tinham crescido em vizinhanças inter-raciais, e de quem o estilo musical foi fortemente influenciado pelo Blues, apareceu no cenário nacional como o movimento Southern Rock, e ofereceu um caminho para que os brancos sulistas se tornassem racialmente progressivos e ainda mantivessem o orgulho pelo patrimônio sulista através da forma cultural da música.

Esta idéia pode parecer contraditória, especialmente se considerarmos o paradoxo de ser racialmente progressivo com o uso de imagens dos Confederados, duas características do Southern Rock. No entanto, as bandas de Southern Rock, como formação cultural, reconheceram a história vergonhosa do Sul e tentaram se mover em frente racialmente, ao mesmo tempo em que mantendo o orgulho daquilo que fosse honrado em relação ao Sul.

As bandas demonstraram idéias racialmente progressivas de diversas formas, a mais óbvia sendo a aberta recepção da influência de músicas negras. Isso é demonstrado mais comumente com a gravação de velhas canções do Blues, o que é conhecido no mundo da música como cover. Embora muitas bandas de Southern Rock fizessem cover de canções do Blues em algum momento, The Allman Brothers Band tinha um leque de gravações que apresentaram a uma nova geração de fãs o tradicional Blues negro. 

Nos clássicos primeiros álbuns de sua carreira, o Allman Brothers gravou diversos covers, entre eles "Trouble No More" do Muddy Waters, "Hoochie Coochie Man" do Willie Dixon, "Statesboro Blues" do Blind Willie McTell, "Done Somebody Wrong" e "One Way Out" do Elmore James, "Stormy Monday" do T-Bone Walker e "You Don’t Love Me" do Willie Cobbs. Ao longo dos 45 anos de existência da banda, esses covers sempre foram uma constante. No álbum de 1988, "Duane Allman Anthology", uma das primeiras canções do The Hourglass (a banda que se tornaria o The Allman Brothers Band), intitulada simplesmente como "BB King Medley", na qual Duane e Gregg Allman homenagearam o legendário nome do Blues, gravando um pot-pourri de sete minutos de "Sweet Little Angel/ It's My Own Fault/ How Blue Can You Get". 

Outras bandas de Southern Rock homenagearam músicos negros, fazendo covers de suas músicas, embora nada tão extenso como fez o Allman Brothers. A Marshall Tucker Band, da qual o nome era uma homenagem a um afinador de pianos negro que era dono do salão de ensaio onde a banda praticava, gravou "Everyday I Have the Blues" do Memphis Slim, mais popular na voz de BB King. Charlie Daniels gravou "Drinkin' Wine, Spo-Dee-O-Dee" do Stick McGhee. Daniels também teve uma participação na música "The Thrill is Gone" do BB King, na gravação ao vivo em 1976 do Volunteer Jam. 

A Blackfoot gravou "Rollin' and Tumblin" do Elmore James. A Molly Hatchet gravou "Long Tall Sally" do Little Richard. O Lynyrd Skynyrd gravou uma versão de "Crossroads" do Robert Johnson. Embora essa tenha sido a única música de Blues regravada pelo Lynyrd Skynyrd, a banda fez referências ao Son House, na música "Swamp Music".

É importante mencionar que as bandas de Southern Rock certamente não foram os primeiros músicos brancos a gravar música "negra". Desde as primeiras gravações de Elvis Presley, a apropriação branca da música "negra" tem sido o assunto de muitos debates acadêmicos. Alguns acadêmicos, como Nelson George, no livro "The Death of Rhythm and Blues", têm sugerido que os músicos brancos, em essência, "roubam" a música negra, enquanto outros acadêmicos, como Gilbert Rodman, no seu artigo "A Hero to Most?: Elvis, Myth, and the Politics of Race", argumentam que músicos brancos, mais especificamente Elvis Presley, transformaram "a principal corrente do cenário da música pop [que era] dominada pelo som branco de Perry e Frank Sinatra, em um monstro muito mais integrado e diverso do que jamais tinha sido antes", facilitando, assim, o surgimento e aceitação de músicos negros na principal corrente da música popular.

Nessa tese, eu estou expandindo o argumento de Rodman, para incluir a ideia de que as bandas de Southern Rock continuaram a integração da música popular ao introduzir música "negra" para um público branco. Os músicos brancos do Southern Rock estavam menos interessados em tentar reproduzir música "negra" com objetivo de vender discos para seu público, e mais interessados em prestar homenagem aos músicos do Blues, e, de fato, apresentar o público branco a esses músicos do Blues. Enquanto Pat Boone e Elvis Presley lançavam suas versões de canções "negras" ao mesmo tempo em que as originais eram lançadas, as bandas de Southern Rock gravaram músicas de Blues que eles cresceram ouvindo, as quais já tinham anos, ou mesmo décadas.

Além disso, as bandas de Southern Rock eram diferentes de Boone ou Presley, porque elas reconheciam, aberta e normalmente, a influência de músicos de Blues na sua música, e identificavam os músicos que escreveram as canções que eles interpretavam. Por exemplo, em vários discos ao vivo, incluindo "Live at Fillmore East", The Allman Brothers Band apresentaram as músicas de Blues identificando o compositor (ex.: "A próxima música é uma velha melodia de Muddy Waters").

Nos anos 60, bandas do Reino Unido, como Led Zeppelin, Rolling Stones, e Cream, também foram fortemente influenciados pelos músicos de Blues americanos, e prestaram homenagens fazendo covers de algumas músicas. As bandas de Southern Rock eram diferentes, contudo, porque elas cresceram na mesma região que as suas influências do Blues, e testemunharam em primeira mão o racismo do Sul. De acordo com Jerry Wexler, o primeiro presidente da Atlantic Records, "as bandas de Southern Rock eram saturadas no Blues porque elas não tiveram que aprender o gênero comprando Barbecue Bob, gravado em um balcão de segunda mão na Fleet Street (em Londres). Elas viveram a vida. Elas eram a "parte baixa" da sociedade agrária dos EUA, assim como eram os negros. Eles eram uns garotos pobres. Eles faziam a mesma coisa que os garotos negros faziam. Eles ouviram a exultação, a agitação da igreja negra, direto na igreja. Não pelos discos."

Enquanto jovens, Gregg e Duane Allman tinham amigos negros, tocavam em bandas inter-raciais, e mergulhavam no Blues, mesmo quando eram questionados por sua mãe por "cantar com aqueles neguinhos". Como The Allman Brothers Band, eles fizeram a mesma coisa. Duane Allman trabalhou como guitarrista contratado no Fame Studios, em Muscle Shoals, Alabama, e tinha trabalhado com músicos negros legendários, como Aretha Franklin, Wilson Picket, John Lee Hooker, King Curtis, entre outros. No Fame Studios, ele conheceu Jai Johnny Johnson (nosso simpático e amado Jaimoe), um percussionista negro, que se tornaria o baterista do The Allman Brothers Band.

Com Johnson na bateria, The Allman Brothers Band simbolizava a identidade masculina sulista que o movimento Southern Rock tentaria redefinir, para incluir ideais racialmente progressivos. Em 1973, depois da morte do baixista original, Barry Oakley, Lamar Williams foi chamado para substituí-lo, o que o tornou o segundo membro afro-americano da mais proeminente banda de Southern Rock daquela época.

Como foi mencionado antes, as bandas de Southern Rock foram influenciadas, em grande parte, pelo Blues e pelos músicos negros. Entretanto, vale lembrar que não tenha havido, talvez, uma influência musical mais instrumental para a banda do que Miles Davis. O eminente álbum de jazz de Davis, "Kind of Blue", tem sido reconhecido por ser uma influência mor no estilo improvisacional da banda, e a influência de Davis (assim como de John Coltrane) em Duane Allman e Dickey Betts é evidente nos seus longos solos improvisados. Betts prestou homenagem a Davis com a canção instrumental "In Memory of Elizabeth Reed", uma música com uma mistura sofisticada de melodias complexas e sequências furiosas. 

No encarte do álbum "Brothers and Sisters", apareceu uma foto na qual vários amigos multirraciais e membros da família da banda estavam sentados em uma varanda. Embora a banda estivesse enfrentando um tumulto interno por causa do stress que usualmente acompanha uma repentina subida para a fama e sucesso, a foto do encarte mostrava as convicções da banda por igualdade. 

As bandas de Southern Rock tentaram acabar com o abismo racial do Sul, não tendo apenas bandas inter-raciais, mas fazendo turnês e se apresentando com músicos afro-americanos. O Lynyrd Skynyrd surgiu em cena em 1973 e pouco depois se apresentou como banda de abertura para uma variedade de músicos de Blues, incluindo Dr. John, BB King, John Mayall e Muddy Waters.

Os membros do Lynyrd Skynyrd eram amigos de infância que cresceram nos bairros inter-raciais de Jacksonville, Florida. Eles frequentaram a Robert E. Lee High School, onde foram perseguidos por causa de seus cabelos compridos, pelo treinador de ginástica Leonard Skinner. Quando a banda começou a considerar uma mudança no nome, alguém em um show zombou gritando o nome do Coach Skinner (treinador Sknner), e o público reagiu positivamente, daí dando à banda seu novo nome. Diferente do Allman Brothers, o Lynyrd Skynyrd não era uma banda racialmente diversa e não incluiu covers do Blues em nenhum de seus álbuns de estúdio. Isso não quer dizer, no entanto, que eles não foram influenciados pelo Blues.

O Blues foi uma tremenda influência nas músicas originais do Lynyrd Skynyrd. A primeira música de seu álbum de estréia, "I Ain't The One", é uma música otimista, que gira em torno de um riff de guitarras funk, e estruturalmente é uma variação no padrão comum da sequência IIV-V, mas também outras características. A influência do Blues também é evidente no segundo álbum do Lynyrd Skynyrd. Em adição à música de J.J. Cale, "Call Me the Breeze", que segue a estrutura I-IV-V, "Second Helping" traz também outra canção de Blues, uma composição original chamada "The Ballad of Curtis Lowe". Na música, que incorpora slide guitar e soa muito como Blues, Van Zant conta a história de um velho homem negro que tinha uma loja no interior, e daria dinheiro ao narrador de dez anos de idade, pelo retorno das garrafas de vidro. A essência da música, contudo, está no refrão:

"Cante-me uma canção Curtis Lowe, Curtis Lowe
Eu ganhei seu dinheiro de bebida, toque sua guitarra
As pessoas disseram que ele era inútil, elas que são bobas
Pois Curtis Lowe foi o melhor cantor a jamais cantar o Blues"

O refrão da música mostra o ódio e discriminação sofridos pelos negros no Sul. Embora não houvesse um Curtis Lowe real, o protagonista da música era descrito como "inútil", termo que é remanescente das descrições odiosas que brancos racistas davam aos negros, no Sul. O jovem narrador, como representado por Van Zant, chamava os humilhadores de Lowe (supostamente brancos) de "bobos" por não reconhecerem o talento do "melhor cantor a jamais cantar o Blues". Esse é um exemplo, não só da admiração que os músicos do Southern Rock sentiam pelos músicos negros que eram influências importantes no gênero, mas também da admiração estendida aos negros com quem os músicos do Southern Rock tinha relações pessoais.

Van Zant parece insistir que aqueles que têm má vontade com os negros estão perdendo algo porque eles não reconhecem o talento genuíno e a boa vontade mesmo no mais improvável personagem. Além disso, ele mostra que esse homem, que sofria tão pouco caso de outros, foi uma figura inspiradora e influenciadora na juventude do músico ao qual o público está ouvindo. Nesse caso, Van Zant está apontando o paradoxo, ou talvez a hipocrisia, em ser um fã de Southern Rock e, ao mesmo tempo, racista.

Inversamente, o próprio Van Zant pode estar reforçando os estereótipos raciais com seu sentimentalismo de Curtis Lowe. Na música, Lowe é apresentado como um homem pobre e negro, que confia no jovem narrador por seu "dinheiro de bebida". Van Zant tenta mostrar como Lowe causou um impacto positivo na vida do jovem narrador, no entanto, ele retrata Lowe em um foco desfavorável, declarando, na canção, que quando Lowe "perdeu a vida, isso era tudo que ele tinha para perder". Além disso, Van Zant afirma que Lowe "viveu uma vida inteira tocando o Blues do homem negro". Ao descrever Lowe dessa forma, Van Zant pode estar reforçando os estereótipos raciais através do sentimentalismo de um homem pobre e negro, do qual a vida dura equivale apenas à sua importância para um jovem garoto branco. Embora não se saiba se essa era intenção de Van Zant, essa descrição de Lowe demonstra as complexidades e ambiguidades quando se lida com relações raciais sulistas. É importante notar, no entanto, que Curtis Lowe não era uma pessoa real, mas uma composição de muitas pessoas que tinham influenciado Ronnie Van Zant, um fato não visto por outros acadêmicos que analisaram essa música.

Curtis Lowe é um composto de vários pessoas que foram influências importantes para Van Zant, incluindo ícones legendários do Blues, como Robert Johnson e Muddy Waters, o amigo da família, Shorty Medlock, e o dono do armazém do bairro, Claude Hamner.

A música foi mais fortemente influenciada, no entanto, por Hammer, que era dono da Claude’s Midway Grocery, no bairro de Jacksonville onde Van Zant cresceu. Quando era criança, Van Zant fazia bicos na loja, fosse separando garrafas ou varrendo o chão, e outras várias tarefas que lhe pediam. Hammer tocava guitarra e ensinou ao jovem Van Zant alguns acordes. Como afirmou Gene Odom, "Ronnie tinha muita consciência de que muitos artistas talentosos do Blues nunca tiveram as oportunidades que ele teve, simplesmente porque eles eram negros. E então, para homenagear todos eles, junto com os homens que ele conhecia, Ronnie criou 'Curtis' como um velho homem negro com cabelo cacheado."

De acordo com o acadêmico Michael Butler, a inclusão da música no álbum "Second Helping" "demonstra que o Skynyrd aprovava uma forma de integração racial e aceitação negra que se desviava das atitudes tradicionais sulistas, o que contribuiu e refletiu na percepção de uma mudança de conceito da masculinidade branca no Sul dos anos 70."

"The Ballad of Curtis Lowe" foi uma das diversas músicas do Southern Rock sobre afro-americanos. Algumas bandas do gênero eram ainda mais específicas nas suas referências aos negros, nas suas músicas, e escreveram canções em tributo a um afro-americano que eles veneravam muito – Martin Luther King Jr. Bandas de Southern Rock que compuseram, gravaram e lançaram tributos ao líder assassinado dos direitos civis se aventuraram a sofrer reações e protestos, para não mencionar baixas vendas  de discos e baixo comparecimento nos shows, de fãs que pudessem não ser tão empáticos à causa dos direitos civis.

Na música "You Can’t Keep a Good Man Down", o Black Oak Arkansas louvava King como um "bom garoto" que "dava esperança às pessoas". Essa música, que aparece em seu disco de 1977, "10 Year Overnight Success", elogia as realizações e as proezas de King, e encoraja o público a continuar a carregar a tocha:

"Luther King foi um bom garoto, criado na pobreza
Não podia ser partido ou mesmo provocado, fez a história do Rock and roll
Deu às pessoas esperança com um grande escopo de a liberdade ser negada
Políticos sabem que a liberdade cresce, e por causa disso ele morreu."

Ao descrever King como "um bom garoto", o vocalista Jim "Dandy" Mangrum está impondo a King um termo carinhoso normalmente reservado para homens brancos sulistas. Mangrum está identificando King como alguém que é "um de nós" – ele era um bom garoto que foi criado, como muitos sulistas, na pobreza. A canção não era meramente um reconhecimento da influência de um afro-americano na vida de um músico de Southern Rock, como era "The Ballad of Curtis Lowe" – ela era um tributo a Martin Luther King Jr, o homem que se tornou a face do movimento dos direitos civis. King não era uma pessoa a quem muitos brancos sulistas se referiam afetivamente como "um bom garoto", e Mangrum correu o risco de perder muitos fãs de Southern Rock brancos, ao afirmar isso sobre King tão abertamente.

Mangrum continua creditando King por fazer a história do Rock and roll. Essa afirmação, contudo, não vem com nenhuma explicação sobre como exatamente King fez isso, o que deixa espaço para a interpretação do ouvinte. Uma possibilidade é que Mangrum está reconhecendo o impacto do movimento dos direitos civis no Southern Rock, já que a influência e inspiração de King foram sentidas pelos músicos do gênero que tinham crescido durante o movimento dos direitos civis. Ou talvez, de forma mais geral, Mangrum pode estar dizendo que o impacto de King, e do movimento dos direitos civis, foram sentidos em vários gêneros de música e/ ou cultura pop. No segundo verso da música, Mangrum chama os ouvintes a carregar a "chama da esperança", mesmo nas piores adversidades:

"Eu quero cantar para vocês esta canção, por todas as criaturas mais fracas
A chama da esperança precisa seguir, mesmo contra as piores adversidades."

Mangrum deixa claro, na primeira linha deste verso, que ele está do lado das "criaturas mais fracas", que são, supostamente, aqueles que lutam pelos direitos civis. Ao chamar aqueles que "vivem" a continuar a luta, Mangrum sutilmente reconhece o progresso feito na batalha pelos direitos civis, por aqueles que não mais vivem. Seu encorajamento para manter a luta mesmo diante de desafios sufocantes mostra claramente o seu apoio ao movimento dos direitos civis, e é, assim, outro exemplo de como os músicos do Southern Rock avançaram ideologias raciais progressivas através da forma cultural da música Southern Rock.

O Allman Brothers Band também gravou uma música sobre Martin Luther King, intitulada "God Rest His Soul". Esse tributo foi composto no começo da carreira musical de Gregg e Duane Allman, mas não foi lançado até "Dreams", uma coletânea do Allman Brothers Band, de 1989. Diferente do Black Oak Arkansas, Allman Brothers Band nunca menciona King pelo nome. Entretanto, a referência é bem clara. Na música, Gregg Allman canta:

"Um homem está deitado nas ruas morrendo, Milhares de pessoas caíram de joelhos
Alguns dias antes ele estaria pregando
Alcançando todas as pessoas ali
Mas o Senhor sabe que eu não posso mudar o que vi
Eu digo Deus descanse a sua alma
O campo de batalha de Memphis estava vermelho porque sangue jorrava da sua cabeça
Mulheres e crianças derrubadas, chorando
Pelo homem que eles tanto amavam
O sol da manhã irá nascer de novo, com todas as paixões raleando
O que iremos fazer quando a guerra chegar e estivermos morrendo
Morrendo pela causa que eu conheço"

Embora o único "chamado para a batalha" seja um aviso de que "sua paciência  (supostamente daqueles que lutavam pelos direitos civis) está raleando", a letra promete que "um outro dia irá nascer de novo". O refrão da música admite que o narrador "não pode mudar o que viu", mas pede a Deus que "descanse sua alma". Os versos da música descrevem a dor e o horror do dia do assassinato de King, enquanto a melodia é uma mistura do estilo lento e funk, remanescente dos primeiros tempos da Motown. 

Um dos grandes paradoxos da música Southern Rock é que as bandas tocam suas músicas com influência do Blues, em (às vezes) bandas inter-raciais, ao mesmo tempo em que ainda usam imagens dos Confederados para mostrar sua versão do orgulho sulista. Por exemplo, o Black Oak Arkansas e o Lynyrd Skynyrd adornaram seus palcos com bandeiras dos Confederados e interpretaram versões do hino sulista "Dixie" nos seus shows. Além disso, um poster usado em um show do Allman Brothers Band, no Winterland, em San Francisco, incluía uma foto de escravos e soldados confederados.

As bandas de Southern Rock declararam que o uso de imagens dos confederados era para mostrar seu orgulho pelo Sul, e não uma aprovação do racismo. Esta noção, no entanto, cria uma confusa dicotomia entre dois modos de identidade sulista, a qual nunca se resolve completamente na música Southern Rock, talvez nem mesmo cultura branca sulista. Enquanto os sulistas tentavam se afastar das tendências racistas do passado, a tensão criada ao tentar integrar imagens e ícones do passado com a cultura sulista contemporânea exprimia um senso de ambigüidade e uma ilusão para reconhecer as transgressões do passado. Ainda assim, isso foi algo que as bandas de Southern Rock tentaram fazer. Ao mostrar a bandeira dos Confederados, e outras imagens semelhantes, as bandas mostraram o orgulho sulista, enquanto, simultaneamente, rejeitavam o racismo, e a história desonrosa, do Sul.

Como uma formação cultural, as bandas de Southern Rock mostravam visões liberais sobre raça e política. No entanto, essas demonstrações nem sempre eram recebidas pelo público da forma como as bandas queriam. O público interpretava erroneamente o uso da bandeira como uma aprovação das visões raciais da Confederação, levando o Lynyrd Skynyrd a desistir de usar a bandeira nos seus shows, e parar de tocar "Dixie" na abertura. De acordo com a banda, a idéia de se associar a essa imagem veio, primeiramente, não deles, mas da MCA Records, como uma forma de promover e comercializar a banda. As bandas de Southern Rock, no entanto, eram obviamente cúmplices do marketing estratégico das gravadoras, que usavam aquelas imagens.

A tensão entre esses dois modos de identidade sulista afetou mesmo os principais músicos do movimento Southern Rock. Enquanto alguns consideravam a bandeira dos Confederados como um símbolo do orgulho e patrimônio sulistas, outros consideravam que ela era uma lembrança polar do passado vergonhoso do Sul. "Eu odiava o fato de que eles colocavam a 'Stars and Bars', a bandeira rebelde, atrás de tudo que o Lynyrd Skynyrd fazia", disse o baterista do Skynyrd, Artimus Pyle. "Eles não sabem que tudo aquilo era a MCA tentando vender uma banda de Southern Rock, imaginando que a bandeira dos Confederados era forma para fazer isso. As pessoas vêm a bandeira e ouvem a música e pensam que nós odiamos os negros. Isso não é verdade." Outros viam o uso da bandeira de uma forma diferente.

De acordo com Ronnie Van Zant, "no que tange a bandeira dos Confederados, nós a carregamos conosco por um longo tempo antes de fazermos qualquer coisa; ela é parte de nós. Nós somos do Sul, mas não somos fanáticos."

Para concluir, as bandas de Southern Rock demonstraram visões racialmente progressivas através da forma cultural da música, ao reconhecer abertamente a influência de músicos negros na sua música. Contudo, o uso de imagem dos confederados pelas bandas do gênero, como uma forma de mostrar o orgulho sulista, criou um paradoxo que se torna ainda mais confuso quando se considera as visões politicamente progressivas das bandas de Southern Rock. que apoiaram o candidato Democrata para as eleições presidenciais de 1976. 
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