O improviso no Blues e o bluesman



Hoje quero falar sobre um tema que instigam tantos os músicos que tocam blues, quanto o publico leigo musicalmente, mas, fascinado pelo estilo musical: o improviso no blues.

O objetivo deste artigo não é debater a questão teórica e musical da arte de improvisar, e sim expor a minha visão particular quanto aos improvisos musicais no blues e a sua influencia na vida dos músicos do início do século XX. Para isso vou levar em consideração a questão histórica que nos diz que o blues foi criado por negros, miseráveis, sem perspectiva ou qualidade de vida, que trabalhavam em fazendas, e tinham pouca ou nenhuma instrução escolar.

Bem... Todos nós sabemos que existem estilos musicais onde as peças são criadas e elaboradas de tal forma, que os instrumentos que dela participam não podem em momento nenhum desviar-se do que está escrito ou programado. Caso isso aconteça o resultado é um total desastre na execução da música. Podemos dar como exemplo máximo a musica clássica, onde a disciplina em execução e concentração é total. Mas, existem gêneros musicais que se não houver improviso, o grupo não toca bem ou não dominam o estilo. Como exemplo podemos citar o jazz e o nosso maravilhoso blues.

Você já percebeu que em vários shows de um mesmo artista de blues podem ter no repertório as mesmas músicas, mas a execução é completamente distinta? Como exemplo pegue bootlegs ou discos ao vivo oficiais de The Allman Brothers, Eric Clapton, Steve Ray Vaughan e Johnny Winter só para ilustrar o que estou dizendo. Agora pegue uma mesma música que esteja em vários shows e você irá notar o que estou falando.

Eu percebi ao analisar a origem dos improvisos, que a sua importância está ligada a: personalidade, oportunidade, masculinidade, e domínio sobre o blues. Tentarei explicar o porquê de cada um destes itens:

Personalidade


Não existe no mundo blues uma ofensa maior do que um músico imitar outro músico! Esta é a lei máxima entre os músicos. Você não tem a mesma história de vida que a outra pessoa, por mais que você tenha nascido na mesma região e no mesmo ano, suas experiências são diferentes, a forma de você encarar o mundo e seus problemas é diferente, seu timbre de voz é diferente de qualquer pessoa, seu raciocínio é diferente, portanto, você não pode tocar como outra pessoa, mesmo que tenha estudado, comprado os mesmo equipamentos e tudo mais, você não é aquela pessoa! 

Quando um bluesman toca seu instrumento ou canta, ele está fazendo do seu jeito, como ele quer e como ele pensa no momento, aquilo é só dele, e acaba se tornando a sua marca registrada. Essa marca torna o músico conhecido, ele é procurado devido àquela marca, o público vem de longe para ver um show daquele bluesman, abrindo para ele oportunidades que falaremos mais a frente. Essa marca fica muito evidente no momento da improvisação, pois é a hora que o músico está livre para fazer o que quiser. Exemplos: o vibrato de B.B.King. Existem músicos fantásticos com vibratos fantásticos, mas, ninguém com o vibrato de B.B.King! As linhas melódicas de Eric Clapton, que chamavam tanta atenção que lhe rendeu o apelido de Deus da Guitarra e Slow Hand. A pegada de Steve Ray Vaughan (esse um dos mais imitados de todos os tempos!!!!), somente ele conseguia tocar daquela forma tão visceral com cordas tão pesadas! Poderia ainda citar o fraseado de Albert Collins, as composições de Muddy Waters, a voz de Howlin’ Wolf, e tantos outros! 

Mas, o que importa é a prova que a história da música já nos mostrou, onde a personalidade é fundamental e não existem dois iguais! No meio musical quando aparecem imitadores são logo ridicularizados, e o musico de blues só consegue expressão quando se livra da imitação e passa a tocar a sua linguagem. 

Oportunidade


Quando um bluesman improvisa e domina essa técnica ele é procurado pelos donos de bares, artista em passagem pela cidade, é reconhecido pela sua musicalidade, tem maior exposição, ganha prestígio no meio musical, entre outras coisas. Isso retorna em forma de dinheiro, lugares para dormir sem ter que pagar, comida de graça e outros. Ou seja, um bom improvisador tem grandes oportunidades! Quer um exemplo? Quem nunca conheceu um camarada que canta e toca bem um violão, tem uma boa lábia, é chamado para todas as festas da cidade, está sempre sentado em um bar em mesas, pessoas e dias diferentes, e parece nunca trabalhar, mas, sempre está numa boa? Ta explicado?

Masculinidade


Vou comentar este item tendo base os violeiros brasileiros. Violeiros porque na minha visão (essa é uma opinião muito particular!) os violeiros têm histórias parecidas com as dos bluesman do início do século passado, eles tocam instrumentos acústicos, usam a mesma afinação, em suas músicas falam sobre seus problemas tanto amorosos quanto financeiros, desastres ambientais, maus tratos que sofreram etc. No meio da viola existem os famosos duelos de violeiros, onde um famoso instrumentista é desafiado por outro em modas de viola e repentes. Estes encontros eram muito apreciados pela população local, e o derrotado era “humilhado” perdendo o posto de “violeiro da cidade”, este perdia inclusive as oportunidades citadas acima. Tamanha eram essas disputas que até a religião entrava no assunto!

Reza a lenda que os violeiros faziam "trato com o tinhoso" usando uma cobra coral encontrada debaixo de uma pedra atrás da igreja... Historias muito parecidas com as famosas encruzilhadas do blues, onde o bluesman fazia um pacto com o diabo trocando a sua alma pela habilidade de tocar e improvisar... Isso é assunto para muitos posts... Enfim no blues era assim que funcionava, gerando inclusive os famosos duelos de guitarra, que eram realizados em prostíbulos e bares de classe duvidosa... como se fosse uma disputa de território! Não se esqueça... Somente os machos disputam territórios... Ou era assim antigamente!

Domínio sobre o blues


Um show de blues sem improviso não é blues! O blues é um estilo musical simples em sua parte técnica, mas, o que torna terrivelmente difícil de tocar é justamente a sua limitação técnica e a necessidade do musico improvisar sobre essa limitação. Aqui é onde entra a experiência, a criatividade, a “maldade” do blues, que o musico precisar ter e "saber" para driblar todas as dificuldades, e tocar improvisos lindos que nos fazem "chorar". Isso é leigamente chamado de "sentimento". Eu já vi muitos grandes músicos que "tiraram onda" dizendo que o blues é muito fácil de tocar, muito "limitado" e se enrolaram completamente em uma jam com os amigos ou em shows, eles não conseguiram tocar no "básico" de uma pentatônica com blue note em uma progressão de I, IV e V! É meu amigo, quem improvisa bem no blues domina o blues!

Diante do exposto, podemos perceber que tocar bem o blues, e isso inclui improvisar, para aqueles pobres negros sem oportunidades na vida, era uma forma de deixar o estado de extrema pobreza, e alcançar um patamar financeiro, social e até cultural mais alto, nem que isso ocorresse somente dentro do mundo da boêmia.

Quer tocar blues? Então improvise, tenha personalidade, aproveite as oportunidades, deixe a sua masculinidade aflorar e domine o blues!
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