Entendendo o Southern Rock - Parte 7

Ao longo dos anos que tenho me dedicado a difundir o Southern Rock pelo Brasil, me deparei com diversos textos que tentavam explicar o que é o Southern Rock, porém sempre esbarrava em um detalhe: os textos sempre eram superficiais. Tudo mudou em agosto de 2011, ano em que tomei conhecimento da tese "Southern Rock music as a cultural form" escrita por Brandon P. Keith em 2009. 

Essa tese foi apresentada em 2009 como cumprimento parcial dos requisitos para o grau de Master of Arts do Departamento de Estudos Americanos da Academia de Artes e Ciências da University of South Florida. O texto original pode ser encontrado aqui.

Nos próximos dias estarei publicando, íntegra, os capítulos dessa ótima pesquisa realizada pelo Brandon. A minha pretensão ao publicar esse texto, é sanar algumas dúvidas que os leitores tem com relação as origens, desenvolvimento e importância cultural do Southern Rock.

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Capítulo 4 – Os Políticos do Southern Rock (Continuação)


George Wallace

O governador do Alabama, George Wallace, era um camaleão político, infame por suas idéias segregacionistas sobressaltadas. Durante sua primeira campanha para governador do Alabama, em 1958, Wallace fez campanha como segregacionista, embora ele fosse menos estridente em suas visões que seu oponente, e foi muito apoiado pelo NAACP. Sua derrota nas eleições primárias democráticas, naquele ano, para o franco segregacionista John Patterson, obrigou Wallace a adotar uma plataforma anti-direitos civis mais forte, na qual ele prometeu “nunca ser derrotado por negros novamente. Quatro anos depois, em 1962, suas visões fielmente segregacionistas o levaram a uma campanha vitoriosa pelo governo do Alabama.

Durante os anos 60, Wallace tentou bloquear a integração escolar, usando a Guarda Nacional do Alabama para deter protestantes pelos direitos civis, e afirmou publicamente sua crença do lema “segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre.” Em meados dos anos 70, Wallace suavizou sua retórica segregacionista, e adotou um enfoque moderado nas relações raciais, e um foco renovado em defender os direitos dos pobres e oprimidos, uma mudança política dirigida aos negros que haviam recém adquirido tais direitos. Essa atitude o concedeu o elogio de muitos sulistas, incluindo muitos negros sulistas, que o apoiaram em suas eleições subsequentes.

Como Carter, Wallace foi uma figura importante na política sulista, o que se refletiu na música do Southern Rock. A música mais popular do álbum de 1974 do Lynyrd Skynyrd, Second Helping, “Sweet Home Alabama”, incluiu uma vaga, freqüentemente mal interpretada, condenação de Wallace, o que é outro exemplo de bandas de Southern Rock demonstrando uma propensão à igualdade racial.

A canção foi uma resposta de Van Zant à música de Neil Young, “Southern Man”, na qual o cantor critica o Sul pelo seu conflito racial. A canção foi feita para expressar a visão de Ronnie Van Zant, de que, de acordo com o baterista Artimus Pyle, “os homens sulistas não são mais assim. Nós não temos chicotes, e não estamos chicoteando ninguém. E se alguém estiver (chicoteando), eu te ajudarei a lutar contra ele.” No segundo verso da música, Ronnie Van Zant canta:

"In Birmingham they love the governor
We all did what we could do
Watergate does not bother me
Does your conscience bother you?"

“Em Birmigham eles amam o governador
Nós todos fizemos o que podíamos fazer
Watergate não me incomoda
A sua consciência te incomoda?”

Depois da primeira linha do verso, as backing vocals femininas expressam a desaprovação da banda por Wallace, vaiando. A vaia, no entanto, é meio indistinguível na gravação original, e soa como se as backing vocals estivessem simplesmente cantando “ooh”. As vaias tinham a intenção de demonstrar a desaprovação da banda por George Wallace, embora essa referência seja mal entendida por fãs e críticos do Southern Rock. (O público também parece sentir que Montgomery, e não Birmingham seja a capital do Alabama).

Há registros de Ronnie Van Zant dizendo que “a letra sobre o governador do Alabama foi mal interpretada. O público geral não notou as vaias depois daquela linha em particular, e a mídia apanhou apenas as referências às pessoas que amam o governador. Eu não concordo com tudo que Wallace diz, eu não gosto do que ele fala sobre pessoas de cor.” O produtor do Skynyrd, Al Kooper, afirma que, embora o verso “todos nós fizemos o que podíamos fazer” seja ambíguo, ele foi feito para expressar que eles “tentaram tirar Wallace de lá”.

Apesar da tentativa do Lynyrd Skynyrd de se distanciar de Wallace, escritores, acadêmicos, críticos, e fãs, similarmente, mal interpretaram as referências ao governador Wallace, algo do qual os membros da banda vieram a se arrepender. Em um artigo sobre o Southern Rock, no jornal Popular Music and Society, Michael Butler afirma falsamente que “o Skynyrd... deu um passo a frente de qualquer outro grupo de Southern Rock ao projetar uma aderência aos tradicionais ideais raciais sulistas na sua glorificação” de Wallace em “Sweet Home Alabama”. O escritor Bruce Schulman afirma, sem precisão, que a canção foi feita para “honrar” o governador, e, de fato, que essa era a banda que “ainda amava o governador.”

O historiador Bill Malone descreveu a música como “um hino militante de louvor (ao Sul) com pelo menos uma defesa ambivalente” do governador. O acadêmico Paul Wells argumenta que a defesa do homem sulista na canção, adicionada a “uma aprovação de George Wallace na barganha, serve apenas para apoiar a visão de que o Southern Rock expressa um modo de tradicionalismo incondicional, o que mostra separação e resiste ao revisionismo ideológico e culpa política.” Essas concepções erradas refletem uma interpretação estreita da música, demonstrando que as complexidades do Southern Rock, e a tensão criada ao tentar juntar a identidade sulista tradicional com visões racialmente progressivas, são freqüentemente despercebidas por acadêmicos.

Em 1975, Wallace reconheceu o Lynyrd Skynyrd ao tornar cada membro da banda um Honorary Lieutenant Colonel [Tenente Coronel Honorário], no Alabama State Militia. Como foi apontado pelo primeiro empresário da banda, Gene Odom, “Wallace era um político habilidoso, e sob qualquer hipótese, foi sua astúcia que o motivou a homenagear o Lynyrd Skynyrd... de qualquer forma, havia muitos fãs da banda no Alabama naquela época, e Wallace imaginou que alguns deles poderiam ser eleitores.”

A banda, contudo, parecia ter uma mistura de sentimentos em relação aos títulos honorários dados a eles pelo governador. Ronnie Van Zant chamou o evento de “papo furado”, e o baixista Leon Wilkeson resumiu sua visão sobre Wallace declarando “eu apóio Wallace mais ou menos como seus americanos comuns apoiavam Hitler.” No entanto, o guitarrista Ed King apoiou Wallace por defender o Sul, e defender os direitos da classe trabalhadora sulista.

A formação cultural do Southern Rock é complexa, como mencionado previamente, no que ela tenta reconciliar dois modos de identidade sulista – um de imenso orgulho do patrimônio sulista, com um que abrange características racialmente progressivas. Não há uma resolução clara, e a tensão criada por causa disso refletiu na política do Southern Rock. Como se vê em “Sweet Home Alabama”, as bandas de Southern Rock, em comparação com o Lynyrd Skynyrd, rejeitam o racismo sulista, expressando sua desaprovação ao governador Wallace, ainda em ação e através da sua música, elas apoiaram uma política populista e mostraram se importar com os pobres e menos favorecidos.

Apesar das diferentes idéias sobre raça, entre os membros da banda e o governador, o Lynyrd Skynyrd aderiu à marca do populismo de Wallace, o qual tinha também um forte apoio dos negros no Alabama. Isso levou um crítico musical a descrever o Lynyrd Skynyrd, na revista Rolling Stone, como uma banda com um “caráter populista”. É evidente, pela análise das letras, que Ronnie Van Zant demonstrava tendências populistas e uma preocupação sincera pelos menos afortunados, independente de raça. Presente no álbum Pronounced..., a canção “Things Going On” é uma forte acusação dos políticos que, como Van Zant pensa, perderam suas prioridades. Na música, Van Zant pergunta:

“Have you ever lived down in the ghetto? Have you ever felt the cold wind blow?
If you don't know what I mean Won't you stand up and scream?
'cause there's things goin' on that you don't know
Ask them why they spend lives across the ocean ?
Ask them why they spend millions on the moon?
Well, until they make things right Lots of people gonna be uptight
They better make some changes pretty soon
They gonna ruin the air that we breathe y'all
They gonna ruin us all bye and bye
Telling all you beware I don't think they really care
Think they just sit up there and just get high"

“Você já viveu no gueto? Você alguma vez já sentiu o vento frio soprando?
Se você não sabe do que estou falando, quero dizer, você não irá se levantar e gritar?
Pois há coisas acontecendo que você não sabe
Pergunte a eles por que eles passam a vida cruzando o oceano
Pergunte a eles por que eles gastam milhões com a lua
Bem, até que eles façam as coisas certas, muitas pessoas estarão nervosas
É melhor que eles façam algumas mudanças bem rápido
Eles irão arruinar o ar que nós respiramos
Eles irão arruinar a nós todos, aos poucos
Dizendo a vocês todos que tenham cuidado, não creio que eles realmente se importem
Acho que eles simplesmente se sentam lá e ficam bêbados”

Na música, Van Zant pergunta ao ouvinte se ele ou ela alguma vez já sentiu o vento frio soprar no gueto. Claramente, a letra pode ser interpretada como se referindo às desigualdades raciais que continuaram mesmo depois que era dos direitos civis acabou. A música é um chamado à luta para aqueles que procuram acabar com as injustiças que ainda continuavam existindo no Sul, naquela época, o que foi um passo audacioso para uma banda que tentava vender discos para uma audiência que tinha encarado recentemente a batalha dos direitos civis de uma forma muito pessoal. A frustração de Van Zant é direcionada contra um governo que preferia fazer uma guerra e mandar um homem para a lua do que alimentar seus pobres, uma posição que mal se adequava aos conservadores da época. Ao incluir esta música no seu álbum de estréia, no selo da MCA’s Sounds of the South, o Lynyrd Skynyrd deu um passo muito importante, demonstrando que as bandas de Southern Rock abraçavam ideologias que confrontavam a pobreza e destituição sulistas, independente da raça.

Em 1978, a banda lançou o "Skynyrd’s First...and Last", uma coletânea com as primeiras gravações do Muscle Shoals, gravando sucessos do começo dos anos 70. Esse álbum inclui uma música notável por sua letra populista e socialmente consciente. Em “Lend A Helping Hand”, Van Zant canta:

“Oh, now when you think the times are great, take a look around
‘Cause babies are dying from disease, sleeping out on the ground.
People never see the tortured eyes from a foreign land
When you see somebody who’s down and out
Lend a helping hand, Lend a helping hand, if you can
Lend a helping hand, Do it if you can
Oh, every time you feed your face, do you bow your head?
Hunger kills each and every day, Won’t you share your bread?
If you’ve ever felt the pain inside, I know you’d understand"

“Oh, agora, quando você pensa que os tempos estão ótimos, dê uma olhada em volta
Pois bebês estão morrendo com doenças, dormindo no chão
As pessoas nunca enxergam os olhos torturados de uma terra estrangeira
Quando você vir alguém que está vagabundeando
Dê uma força, uma força, se puder
Dê uma força, faça isso se puder
Oh, toda vez que você alimenta seu rosto, você se curva?
Se você alguma vez já tivesse sentido a dor por dentro, eu sei que entenderia”

Com essa letra, Van Zant está lembrando o leitor da promessa pelos pobres e oprimidos na sociedade, ao fazer referências a doenças infantis, falta de abrigo, e fome. A canção é sublinhada pela tonalidade em notas menores em que é tocada, assim como pela batida assimétrica, que enfatiza a mensagem da música, de olhar por aquelas pessoas menos afortunadas. No segundo verso, Van Zant diz ao ouvinte que se ele ou ela alguma vez já sentiu a dor da fome, ele ou ela poderia ter uma melhor compreensão do seria viver sem comida ou sem abrigo. Van Zant dá a entender, no segundo verso, que ele entende como é a vida para aqueles menos afortunados, provavelmente por causa da sua criação humilde.

Estas questões não fazer distinção em relação a raça, e ao cantar sobre elas, Van Zant está demonstrando as visões progressivas e populistas da formação cultural que é o movimento do Southern Rock. As bandas de Southern Rock às vezes defendiam posições políticas liberais em questões sociais, tal como o controle de armas. Na música “Saturday Night Special”, do álbum de 1975, "Nuthin’ Fancy", o Lynyrd Skynyrd emprega uma questão sagrada para muitos sulistas – o controle de armas. A música é um argumento artístico persuasivo contra pistolas, na qual Van Zant canta, em diversos versos emocionantes, sobre assassinatos estúpidos, seguidos pela sugestão de que todas essas armas sejam jogadas no fundo do mar. No último verso, Van Zant canta:

"Hand guns are made for killin'
Ain't no good for nothin' else
And if you like your whiskey
You might even shoot yourself
So why don't we dump 'em people
To the bottom of the sea
Before some fool come around here
Wanna shoot either you or me
Then, in the chorus:
It’s a Saturday night special
Got a barrel that's blue and cold
Ain't no good for nothin'
But put a man six feet in a hole"

“Pistolas são feitas para matar
Não são boas para mais nada
E se você gosta do seu whisky
Você devia até atirar em si mesmo
Então, por que não as descarregamos, povo,
No fundo do mar
Antes que algum bobo volte aqui
E queira atirar em você ou em mim”

Depois, no refrão:

“É um especial de sábado à noite
Tenho um barril que é azul e frio
Não é bom para nada
Mas põe um homem sete palmos abaixo do chão”

A afirmação de Van Zant, de que pistolas são feitas para nada além de matar, e deveriam ser descartadas, gira em torno dos advogados em favor do porte de armas, no sul, que lembram com carinho do seu direito constitucional de carregar armas. Além disso, Van Zant foi registrado declarando que armas deveriam ser jogadas fora. De acordo com o primeiro empresário, Gene Odom, Van Zant acreditava que todas as armas de pequeno calibre, conhecidas como “especial de sábado à noite”, não poderiam ser disparadas com precisão, o que as tornava inúteis para caça e inadequadas para autodefesa. Ao sair fortemente em favor do controle de armas, Van Zant expressa uma visão política liberal que corria o sério risco de afastar, se não enfurecer, fãs conservadores de Southern Rock. Mas esta era uma visão que Van Zant, obviamente, sentia tão fortemente, que ela queria correr o risco.

Continua...
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