Entendendo o Southern Rock - Parte 6

Ao longo dos anos que tenho me dedicado a difundir o Southern Rock pelo Brasil, me deparei com diversos textos que tentavam explicar o que é o Southern Rock, porém sempre esbarrava em um detalhe: os textos sempre eram superficiais. Tudo mudou em agosto de 2011, ano em que tomei conhecimento da tese "Southern Rock music as a cultural form" escrita por Brandon P. Keith em 2009. 

Essa tese foi apresentada em 2009 como cumprimento parcial dos requisitos para o grau de Master of Arts do Departamento de Estudos Americanos da Academia de Artes e Ciências da University of South Florida. O texto original pode ser encontrado aqui.

Nos próximos dias estarei publicando, íntegra, os capítulos dessa ótima pesquisa realizada pelo Brandon. A minha pretensão ao publicar esse texto, é sanar algumas dúvidas que os leitores tem com relação as origens, desenvolvimento e importância cultural do Southern Rock.

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Capítulo 4 – Os Políticos do Southern Rock


Como uma formação cultural, as bandas de Southern Rock não apenas mostraram visões raciais progressivas, elas também mostraram visões políticas progressivas através das letras e assunto das suas canções, assim como por participar ativamente da campanha presidencial de Jimmy Carter, em 1976. A forma cultural da música Southern Rock é política, na medida em que muitas canções focavam questões sociais, como injustiça racial, pobreza, controle de armas, violência doméstica, e abuso de álcool e drogas. Essas inclinações para a política liberal foi contra a tendência política que estava sendo proposta por muitos brancos sulistas, os quais cada vez mais apoiavam o Partido Republicano, mais conservador, no Sul pós direitos civis.

Para tentar entender por que as bandas de Southern Rock se rebelaram contra a tendência do conservadorismo sulista, é necessário entender o contexto político no qual o Partido Republicano subiu ao poder, no Sul. Desde o final da Reconstrução, até a metade do século XX, os Republicanos estavam quase sem poder no Sul, resultado da antipatia que os brancos sulistas desenvolveram em relação ao Partido Republicano (o partido de Abraham Lincoln, o grande emancipador), e o seu programa de direitos civis pelos negros.

Um acordo implícito entre os brancos sulistas e o Partido Democrático garantiu que os brancos sulistas continuariam apoiando o Partido, contanto que ele evitasse se dirigir às questões dos direitos civis. No entanto, começando pela administração de Truman, os Democratas fizeram uma abordagem mais favorável às questões dos direitos civis, que continuou até a administração de Johnson e a passagem dos Atos dos Direitos Civis de 1964 e 1968, e o Ato dos Direitos de Voto de 1965, assim, levando os tradicionais Democratas sulistas, que se sentiram “abandonados” pelo partido nacional, ao emergente Partido Republicano.

Esse realinhamento político foi descrito como “o legado dos Atos dos Direitos Civis”, e resultou nos brancos sulistas afluindo ao Partido Republicano, o qual era ativamente atraente aos sulistas conservadores consternados pelos avanços da integração racial. Inversamente, os negros sulistas, que tinham sido socialmente excluídos do Sul de Jim Crow, exercitaram sua recém-concedida liberdade, apoiando ativamente o Partido Democrático. A ironia surge, então, quando, durante a corrida presidencial de 1976, as bandas de Southern Rock, formadas por brancos, fervorosamente fizeram campanhas em nome do governador Democrata da Geórgia, Jimmy Carter.

Jimmy Carter

Jimmy Carter, anteriormente um fazendeiro, cultivador de amendoim, começou sua carreira política como senador do estado da Geórgia, antes de ser eleito governador, em 1970. Como governador Democrático, ele expressava visões liberais em relação à igualdade racial, e trabalhou, com muito sucesso, para alcançar as reformas ambiental, tributária, judiciária, e social. Um candidato improvável, ele expressou o interesse em concorrer às eleições presidenciais à sua mãe, ao que ela famosamente perguntou: “presidente de quê?”

Durante seu período como governador, Carter viajou o país, falando com basicamente qualquer grupo que se dirigisse a ele, e começou a organizar o apoio à sua candidatura. Por causa da reputação de malandro de Nixon, e seu envolvimento no escândalo de Watergate, Carter sabia que as eleições presidenciais de 1976 iriam focar mais no caráter do candidato do que na política. Carter era um homem profundamente religioso e baseou sua campanha na promessa de restaurar a honestidade e a integridade à Casa Branca.

No começo, Carter parecia ser um candidato improvável, mas depois das primeiras vitórias nas eleições primárias de New Hampshire e Iowa, sua campanha ganhou momentum, o que o levou a outras vitórias primárias. No Sul, Carter saiu vitorioso nas eleições primárias da Flórida, o que significava que ele era capaz de se apresentar como uma alternativa moderada a outro sulista, o governador do Alabama, George Wallace, que lançou sua terceira corrida presidencial em 1976. Depois que Carter se tornou o candidato Democrático, ele foi apoiado por Wallace, que foi promovido a um possível vice-presidente.

A força de atração de Carter sobre as bandas de Southern Rock era que ele era um sulista. De acordo com o primeiro empresário do Lynyrd Skynyrd, Gene Odom, foi o fato de Carter ser um sulista com chances razoáveis de se tornar presidente que, inicialmente, fez o Lynyrd Skynyrd de interessar pela política presidencial, apesar de que nenhum dos membros da banda era registrado para votar. Isso não sugere que a banda era apolítica; de fato, Ronnie Van Zant tinha se sobressaído nas opiniões políticas, e foi descrito pelo amigo e guitarrista Jeff Carlisi como “sintonizado com o clima político” dos anos 70.

Embora Rick Hirsch tenha descrito a inclinação política de sua banda, Wet Willie, como “liberal”, ele também argumentou que o apoio da banda a Jimmy Carter era mais uma demonstração da unidade sulista do que um apoio sobressaltado à política de Carter. “Eu acho que, dadas as circunstâncias, esse era mais o caso de ser um sulista”, disse Hirsch. “E ele estava muito próximo de casa. Afinal, Phil Walden basicamente fundou sua campanha, e ele tinha uma séria influência sobre seu clã de bandas, do qual nós, é claro, fazíamos parte. Mas se o Wet Willie fosse do Texas ou qualquer outro lugar, nós provavelmente não teríamos feito campanha por Carter”.

Como governador da Geórgia, Carter ficou amigo de Phil Walden, e de membros do The Allman Brothers Band. O governador era fã do som do Southern Rock vindo de Macon, e gostava sinceramente da música do The Allman Brothers Band. Walden convidou Carter a assistir uma sessão de gravação ao vivo, com Dickey Betts, no Capricorn Studios. Como governador, Carter recebeu e entreteve Walden e membros da banda na mansão do Governador.

Quando Carter anunciou sua candidatura à presidência, Phil Walden providenciou para que The Allman Brothers Band, The Marshall Tucker Band, e Charlie Daniels Band se apresentassem na angariação de fundos, o que ajudou a conseguir quase 600.000 dólares para a campanha.

Essas angariações de fundos possuem o crédito de ter ajudado Carter na preferência das eleições primárias, e estabeleceram Carter como um candidato presidencial viável. Outras bandas de Southern Rock também apoiaram Carter. O “Sunshine Jam”, um evento  pela campanha de Carter, aconteceu no Gator Bowl, m Jacksonville, e contou com bandas de Southern Rock, como Lynyrd Skynyrd, The Outlaws, 38 Special, Charlie Daniels Band, e Marshall Tucker Band. As bandas de Southern Rock podiam não necessariamente concordar com todas as idéias políticas de Carter, mas, para elas, ele era um sulista. Ronnie Van Zant declarou que as bandas de Southern Rock se uniram por trás de um dos seus, o que justifica porque eles apoiavam Carter sobressaltadamente.

Como tema de campanha, Carter usou a música de Charlie Daniels Band, “The South’s Gonna Do It, Again”, na qual Daniels diz ao ouvinte: “tenha orgulho, você é um rebelde porque o Sul vai conseguir de novo”. Como outro exemplo da influência do Blues no Southern Rock, a música usa a estrutura I-IV-V, interpretada com uma aceleração, ainda enfatizada com instrumentos tradicionais do country e western: um violino, uma steel guitar, e o solo de uma Fender Telecaster. No entanto, mantendo a tradição de outras canções de Southern Rock, “The South’s Gonna Do It, Again” também faz referências a lugares sulistas:

"Well, the train to Grinder's Switch is runnin' right on time
And them Tucker Boys are cookin' down in Caroline
People down in Florida can't be still
When ol' Lynyrd Skynrd's pickin' down in Jacksonville
People down in Georgia come from near and far
To hear Richard Betts pickin' on that red guitar"

"Bem, o trem para o Grinder’s Switch está saindo bem na hora
E os Tucker Boys estão cozinhando lá na Caroline
As pessoas lá na Flórida não conseguem ficar paradas
Quando o velho Lynyrd Skynyrd está chegando em Jacksonville
As pessoas na Geórgia vêm de longe e de perto
Para ouvir Richard Betts pegando aquela guitarra vermelha"

“The South’s Gonna Do It, Again” celebra a música e os músicos do Southern Rock com um refrão ambíguo que deixa espaço para a interpretação do ouvinte. Mas a questão, como colocada pelo historiador Ted Ownby permanece: “o que é, exatamente, o Sul vai fazer de novo? Lutar de novo? Se separar de novo?” Claramente, a inspiração política da música era de que o Sul se ergueria de novo, com a ascensão de Carter à presidência. A canção se tornou um hino político que celebrava o Sul, e permitia aos sulistas demonstrar um senso renovado do orgulho sulista, através do apoio a Carter, na campanha presidencial.

Em 6 de outubro de 1975, Carter apresentou The Allman Brothers Band em um show em Atlanta. O público do show não compartilhava do mesmo carinho que a banda tinha pelo candidato democrático, no entanto, e o candidato recebeu vaias e poucos aplausos. Depois que Carter venceu as eleições, Phil Walden foi convidado para o comitê inaugural do presidente, e, como resultado, muitas bandas de Southern Rock tocaram na posse, em 19 de janeiro de 1977, incluindo The Allman Brothers Band, The Marshall Tucker Band, e The Charlie Daniels Band. Ter bandas de Southern Rock se apresentando na posse do presidente parecia apropriado, já que, como foi descrito pelo crítico musical do New York Times, Robert Palmer, “as bandas de Southern Rock precederam e, talvez, ajudaram a criar o clima para Jimmy Carter."

Embora as bandas de Southern Rock tenham feito campanha em favor de Carter, assim como demonstrado por outras tendências políticas liberais, muitos sulistas naquela época não compartilhavam das mesmas visões políticas. Normalmente, o Sul era visto como a região mais conservadora do país, então, se torna uma ironia que as bandas de Southern Rock tenham mostrado visões políticas contrárias à de muitos outros brancos sulistas, durante aquela época. Na eleição, Carter obteve quase 90% dos votos dos negros, no Sul, e venceu em todos os estados da região, exceto na Virgínia. Carter venceu nesses estados, em parte, porque ele era sulista, mas também porque ele era um sulista batizado na Igreja Batista, e tinha o apoio de eleitores brancos evangélicos. Inversamente, seu oponente, o presidente Ford, obteve mais apoio dos brancos sulistas não evangélicos. A vitória de Carter nas eleições gerais foi um momento de orgulho para os sulistas, que ficaram rejubilados pela primeira eleição de um presidente vindo do Sul, desde 1848.

Como presidente, as maiores realizações de Carter lidaram com política estrangeira e relações internacionais, especificamente, os acordos de Camp David, que terminaram o conflito entre Israel e Egito. No entanto, em casa, a presidência de Carter foi manchada pelos crescentes problemas econômicos. Durante esse período, os índices de custo de vida aumentaram dois dígitos, os níveis de interesse caíram a 20 por cento, o valor das poupanças diminuiu, e o preço da carne, leite, e óleo subiram a níveis nunca antes vistos. Embora muitos dos problemas econômicos da época tenham sido o resultado de fatores que eram de difícil controle pelo governo, Carter, como presidente, foi responsabilizado por eles. Ao final deste período, Carter ainda era visto favoravelmente pelos músicos do Southern Rock. Charlie Daniels, que, anos depois, se tornaria um fiel conservador político, reconheceu que Carter “era um homem bom demais para os poderes de Washington” e quando a história julga o mandato de Carter, ela mostra que “ele foi o homem que levou a decência de volta à Casa Branca.”

Apenas dez meses depois do início do mandato de Carter, uma tragédia abalou o mundo do Southern Rock. Em 20 de outubro de 1977, um avião que levava membros do Lynyrd Skynyrd caiu em um pântano na Louisiana, a caminho de um show em Baton Rouge, Louisiana. De acordo com o relatório oficial da National Transportation Safety Board, “a possível causa do acidente era a exaustão de combustível, e perda total de força das duas turbinas, devido à falta de atenção dos pilotos, em relação ao estoque de combustível. Contribuindo com a exaustão de combustível, havia ainda um plano de vôo inadequado, e o mau funcionamento, de natureza indeterminada, da turbina direita, o que resultou em um consumo de combustível maior do que o normal.” Dentre os que morreram na queda, estavam o guitarrista Steve Gaines, o backing vocal Cassie Gaines, e o vocalista Ronnie Van Zant, assim como os dois pilotos, foram jogados para fora do avião. Os passageiros que restaram ficaram todos feridos, incluindo o empresário e amido de infância de Ronnie Van Zant, Gene Odom, o qual foi entrevistado para esta tese. Interessantemente, depois da queda do avião, foi o governador Wallace que mandou cartas de condolências aos membros sobreviventes da banda, expressando sua solidariedade sobre a perda.

Continua...
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