Entendendo o Southern Rock - Parte 5

Ao longo dos anos que tenho me dedicado a difundir o Southern Rock pelo Brasil, me deparei com diversos textos que tentavam explicar o que é o Southern Rock, porém sempre esbarrava em um detalhe: os textos sempre eram superficiais. Tudo mudou em agosto de 2011, ano em que tomei conhecimento da tese "Southern Rock music as a cultural form" escrita por Brandon P. Keith em 2009. 

Essa tese foi apresentada em 2009 como cumprimento parcial dos requisitos para o grau de Master of Arts do Departamento de Estudos Americanos da Academia de Artes e Ciências da University of South Florida. O texto original pode ser encontrado aqui.

Nos próximos dias estarei publicando, íntegra, os capítulos dessa ótima pesquisa realizada pelo Brandon. A minha pretensão ao publicar esse texto, é sanar algumas dúvidas que os leitores tem com relação as origens, desenvolvimento e importância cultural do Southern Rock.

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Capítulo 3 – A Música Southern Rock como uma Forma Cultural (Continuação)


As bandas de Southern Rock tentaram acabar com o abismo racial do Sul, não tendo apenas bandas inter-raciais, mas fazendo turnês e se apresentando com músicos afro-americanos. O Lynyrd Skynyrd surgiu em cena em 1973, com o lançamento do seu primeiro álbum, Pronounced Leh-nerd Skin-nerd, e pouco depois se apresentou como banda de abertura para uma variedade de músicos de Blues, incluindo Dr John, BB King, John Mayall, e Muddy Waters.

Os membros do Lynyrd Skynyrd eram amigos de infância que cresceram nos bairros inter-raciais de Jacksonville, Florida. Eles frequentaram a Robert E. Lee High School, onde foram perseguidos por causa de seus cabelos compridos, pelo treinador de ginástica Leonard Skinner. Quando a banda começou a considerar uma mudança no nome, alguém em um show zombou gritando o nome do Coach Skinner (treinador Sknner), e o público reagiu positivamente, daí dando à banda seu novo nome. Diferente dos The Allman Brothers ou do Wet Willie, o Lynyrd Skynyrd não era uma banda racialmente diversa e não incluiu covers do Blues em nenhum de seus álbuns de estúdio. Isso não quer dizer, no entanto, que eles não foram influenciados pelo Blues.

O Blues foi uma tremenda influência nas músicas originais do Lynyrd Skynyrd. A primeira música de seu álbum de estréia, "Pronounced 'lĕh-'nérd 'skin-'nérd", “I Ain’t The One”, é uma música otimista, que gira em torno de um riff de guitarras funk, e estruturalmente é uma variação no padrão comum da sequência IIV-V, mas também outras características. A influência do Blues também é evidente no segundo álbum do Lynyrd Skynyrd, "Second Helping". Em adição à música de J.J. Cale “Call Me the Breeze”, que segue a estrutura I-IV-V, "Second Helping" traz também outra canção de Blues, uma composição original chamada “The Ballad of Curtis Lowe”. Na música, que incorpora slide guitar e soa muito como Blues, Van Zant conta a história de um velho homem negro que tinha uma loja no interior, e daria dinheiro ao narrador de dez anos de idade, pelo retorno das garrafas de vidro. A essência da música, contudo, está no refrão:

"Play me a song Curtis Lowe, Curtis Lowe
I got your drinking money, tune up your dobro
People said he was useless, them people are the fools
'Cause Curtis Lowe was the finest picker to ever play the Blues"

“Cante-me uma canção Curtis Lowe, Curtis Lowe
Eu ganhei seu dinheiro de bebida, toque sua guitarra
As pessoas disseram que ele era inútil, elas que são bobas
Pois Curtis Lowe foi o melhor catador a jamais cantar o Blues”

O refrão da música mostra o ódio e discriminação sofridos pelos negros no Sul. Embora não houvesse um Curtis Lowe real, o protagonista da música era descrito como “inútil”, termo que é remanescente das descrições odiosas que brancos racistas davam aos negros, no Sul. O jovem narrador, como representado por Van Zant, chamava os humilhadores de Lowe (supostamente brancos) de “bobos” por não reconhecerem o talento do “melhor cantador a jamais cantar o Blues”. Esse é um exemplo, não só da admiração que os músicos do Southern Rock sentiam pelos músicos negros que eram influências importantes no gênero, mas também da admiração estendida aos negros com quem os músicos do Southern Rock tinha relações pessoais.

Van Zant parece insistir que aqueles que têm má vontade com os negros estão perdendo algo porque eles não reconhecem o talento genuíno e a boa vontade mesmo no mais improvável personagem. Além disso, ele mostra que esse homem, que sofria tão pouco caso de outros, foi uma figura inspiradora e influenciadora na juventude do músico ao qual o público está ouvindo. Nesse caso, Van Zant está apontando o paradoxo, ou talvez a hipocrisia, em ser um fã de Southern Rock e, ao mesmo tempo, racista.

Inversamente, o próprio Van Zant pode estar reforçando os estereótipos raciais com seu sentimentalismo de Curtis Lowe. Na música, Lowe é apresentado como um homem pobre e negro, que confia no jovem narrador por seu “dinheiro de bebida”. Van Zant tenta mostrar como Lowe causou um impacto positivo na vida do jovem narrador, no entanto, ele retrata Lowe em um foco desfavorável, declarando, na canção, que quando Lowe “perdeu a vida, isso era tudo que ele tinha para perder”. Além disso, Van Zant afirma que Lowe “viveu uma vida inteira tocando o Blues do homem negro”. Ao descrever Lowe dessa forma, Van Zant pode estar reforçando os estereótipos raciais através do sentimentalismo de um homem pobre e negro, do qual a vida dura equivale apenas à sua importância para um jovem garoto branco. Embora não se saiba se essa era intenção de Van Zant, essa descrição de Lowe demonstra as complexidades e ambiguidades quando se lida com relações raciais sulistas. É importante notar, no entanto, que Curtis Lowe não era uma pessoa real, mas uma composição de muitas pessoas que tinham influenciado Ronnie Van Zant, um fato não visto por outros acadêmicos que analisaram essa música.

Curtis Lowe é um composto de vários pessoas que foram influências importantes para Van Zant, incluindo ícones legendários do Blues, como Robert Johnson e Muddy Waters, o amigo da família, Shorty Medlock, e o dono do armazém do bairro, Claude Hamner.

A música foi mais fortemente influenciada, no entanto, por Hammer, que era dono da Claude’s Midway Grocery, no bairro de Jacksonville onde Van Zant cresceu. Quando era criança, Van Zant fazia bicos na loja, fosse separando garrafas ou varrendo o chão, e outras várias tarefas que lhe pediam. Hammer tocava guitarra e ensinou ao jovem Van Zant alguns acordes. Como afirmou Gene Odom, “Ronnie tinha muita consciência de que muitos artistas talentosos do Blues nunca tiveram as oportunidades que ele teve, simplesmente porque eles eram negros. E então, para homenagear todos eles, junto com os homens que ele conhecia, Ronnie criou ‘Curtis” como um velho homem negro com cabelo cacheado.”

De acordo com o acadêmico Michael Butler, a inclusão da música no álbum "Second Helping" “demonstra que o Skynyrd aprovava uma forma de integração racial e aceitação negra que se desviava das atitudes tradicionais sulistas, o que contribuiu para e refletiu na percepção de uma mudança de conceito da masculinidade branca no Sul dos anos 70."

“The Ballad of Curtis Lowe” foi uma das diversas músicas do Southern Rock sobre afro-americanos. Algumas bandas do gênero eram ainda mais específicas nas suas referências aos negros, na sua música, e escreveram canções em tributo a um afro-americano que eles veneravam muito – Dr Martin Luther King Jr. Bandas de Southern Rock que compuseram, gravaram e lançaram tributos ao líder assassinado dos direitos civis se aventuraram a sofrer reações e protestos, para não mencionar baixas vendas  de discos e baixo comparecimento nos shows, de fãs que pudessem não ser tão empáticos à causa dos direitos civis.

Na música “You Can’t Keep a Good Man Down”, o Black Oak Arkansas, uma banda de Southern Rock vinda, “inacreditavelmente”, de Black Oak, Arkansas, louvava King como um “bom garoto” que “dava esperança às pessoas”. Essa música, que aparece em seu disco de 1977, "10 Year Overnight Success", elogia as realizações e as proezas de King, e encoraja o público a continuar a carregar a tocha:

"Luther King was a good ol’ boy, raised in poverty
Couldn’t be broke or even provoked, made Rock and roll history
Gave the people hope with a good full scope of freedom been denied
Politicians know that freedom grows, and because of that he died."

“Luther King foi um bom garoto, criado na pobreza
Não podia ser partido ou mesmo provocado, fez a história do Rock and roll
Deu às pessoas esperança com um grande escopo de a liberdade ser negada
Políticos sabem que a liberdade cresce, e por causa disso ele morreu.”

Ao descrever King como “um bom garoto”, o vocalista Jim “Dandy” Mangrum está impondo a King um termo carinhoso normalmente reservado para homens brancos sulistas. Mangrum está identificando King como alguém que é “um de nós” – ele era um bom garoto que foi criado, como muitos sulistas, na pobreza. A letra é significativa. Ela mostra de que forma as bandas de Southern Rock, como formação cultural, apresentavam visões raciais progressivas no Sul pós direitos civis, através da música. A canção não era meramente um reconhecimento da influência de um afro-americano na vida de um músico de Southern Rock, com era “The Ballad of Curtis Lowe” – ela era um tributo a Martin Luther King Jr, o homem que se tornou a face do movimento dos direitos civis. King não era uma pessoa a quem muitos brancos sulistas se referiam afetivamente como “um bom garoto”, e Mangrum correu o risco de perder muitos fãs de Southern Rock brancos, ao afirmar isso sobre King tão abertamente.

Mangrum continua creditando King por fazer a história do Rock and roll. Essa afirmação, contudo, não vem com nenhuma explicação sobre como exatamente King fez isso, o que deixa espaço para a interpretação do ouvinte. Uma possibilidade é que Mangrum está reconhecendo o impacto do movimento dos direitos civis no Southern Rock, já que a influência e inspiração de King foram sentidas pelos músicos do gênero que tinham crescido durante o movimento dos direitos civis. Ou talvez, de forma mais geral, Mangrum pode estar dizendo que o impacto de King, e do movimento dos direitos civis, foram sentidos em vários gêneros de música e/ ou cultura pop. No segundo verso da música, Mangrum chama os ouvintes a carregar a “chama da esperança” mesmo nas piores adversidades:

"I feel like singing to you this song for all the living underdogs
The flame of hope must carry on, even against unbeatable odds"

“Eu quero cantar para vocês esta canção, por todas as criaturas mais fracas
A chama da esperança precisa seguir, mesmo contra as piores adversidades”

Mangrum deixa claro, na primeira linha deste verso, que ele está do lado das “criaturas mais fracas”, que são, supostamente, aqueles que lutam pelos direitos civis. Ao chamar aqueles que “vivem” a continuar a luta, Mangrum sutilmente reconhece o progresso feito na batalha pelos direitos civis, por aqueles que não mais vivem. Seu encorajamento para manter a luta mesmo diante de desafios sufocantes mostra claramente o seu apoio ao movimento dos direitos civis, e é, assim, outro exemplo de como os músicos do Southern Rock avançaram ideologias raciais progressivas através da forma cultural da música Southern Rock.

O The Allman Brothers Band também gravou uma música sobre Martin Luther King, intitulada “God Rest His Soul”. Esse tributo foi composto no começo da carreira musical de Gregg e Duane Allman, mas não foi lançado até "Dreams", uma coletânea do Allman Brothers Band, de 1989. Diferente do Black Oak Arkansas, The Allman Brothers Band nunca menciona King pelo nome. Entretanto, a referência é bem clara. Na música, Gregg Allman canta:

"A man lay dying in the streets, A thousand people fell down on their knees
Any other day he would have been Preaching
Reaching all the people there
But Lord knows I can't change what I saw
I Say God Rest His Soul
The Memphis battleground was red cause blood came pouring from his head
Women and children fallin' down crying
For the man they loved so well
The morning sun will rise again with all the passions growing thin
What we gonna do when war is come and we’re dying
Dying for the cause I know"

“Um homem está deitado nas ruas morrendo, Milhares de pessoas caíram de joelhos
Alguns dias antes ele estaria pregando
Alcançando todas as pessoas ali
Mas o Senhor sabe que eu não posso mudar o que vi
Eu digo Deus descanse a sua alma
O campo de batalha de Memphis estava vermelho porque sangue jorrava da sua cabeça
Mulheres e crianças derrubadas, chorando
Pelo homem que eles tanto amavam
O sol da manhã irá nascer de novo, com todas as paixões raleando
O que iremos fazer quando a guerra chegar e estivermos morrendo
Morrendo pela causa que eu conheço"

Embora o único “chamado para a batalha” seja um aviso de que “sua paciência  (supostamente daqueles que lutavam pelos direitos civis) está raleando”, a letra promete que “um outro dia irá nascer de novo”. O refrão da música admite que o narrador “não pode mudar o que viu”, mas pede a Deus que “descanse sua alma”. Os versos da música descrevem a dor e o horror do dia do assassinato de King, enquanto a melodia é uma mistura do estilo lento e funk, remanescente dos primeiros tempos da Motown. Embora a estrutura da música não seja de uma típica progressão de Blues, a influência da música negra se torna óbvia através da voz expressiva e emocional de Gregg Allman, que dá um caráter à música através do seu estilo vocal improvisacional e sincopado, o qual, por causa do mínimo uso de instrumentos, é a essência da música. Um dos grandes paradoxos da música Southern Rock é que as bandas tocam suas músicas com influência do Blues, em (às vezes) bandas inter-raciais, ao mesmo tempo em que ainda usam imagens dos Confederados para mostrar sua versão do orgulho sulista. Por exemplo, o Black Oak Arkansas e o Lynyrd Skynyrd adornaram seus palcos com bandeiras dos Confederados e interpretaram versões do hino sulista “Dixie” nos seus shows. Além disso, um pôster usado em um show do Allman Brothers Band, no Winterland, em San Francisco, incluía uma foto de escravos e soldados confederados.

As bandas de Southern Rock declararam que o uso de imagens dos confederados era para mostrar seu orgulho pelo Sul, e não uma aprovação do racismo. Esta noção, no entanto, cria uma confusa dicotomia entre dois modos de identidade sulista, a qual nunca se resolve completamente na música Southern Rock, talvez nem mesmo cultura branca sulista. Enquanto os sulistas tentavam se afastar das tendências racistas do passado, a tensão criada ao tentar integrar imagens e ícones do passado com a cultura sulista contemporânea exprimia um senso de ambigüidade e uma ilusão para reconhecer as transgressões do passado. Ainda assim, isso foi algo que as bandas de Southern Rock tentaram fazer. Ao mostrar a bandeira dos Confederados, e outras imagens semelhantes, as bandas mostraram o orgulho sulista, enquanto, simultaneamente, rejeitavam o racismo, e a história desonrosa, do Sul.

Como uma formação cultural, as bandas de Southern Rock mostravam visões liberais sobre raça e política. No entanto, essas demonstrações nem sempre eram recebidas pelo público da forma como as bandas queriam. O público interpretava erroneamente o uso da bandeira como uma aprovação das visões raciais da Confederação, levando o Lynyrd Skynyrd a desistir de usar a bandeira nos seus shows, e parar de tocar “Dixie” na abertura. De acordo com a banda, a idéia de se associar a essa imagem veio, primeiramente, não deles, mas da MCA Records, como uma forma de promover e comercializar a banda. As bandas de Southern Rock, no entanto, eram obviamente cúmplices do marketing estratégico das gravadoras, que usavam aquelas imagens.

A tensão entre esses dois modos de identidade sulista afetou mesmo os principais músicos do movimento Southern Rock. Enquanto alguns consideravam a bandeira dos Confederados como um símbolo do orgulho e patrimônio sulistas, outros consideravam que ela era uma lembrança polar do passado vergonhoso do Sul. “Eu odiava o fato de que eles colocavam a ‘Stars and Bars’, a bandeira rebelde, atrás de tudo que o Lynyrd Skynyrd fazia”, disse o baterista do Skynyrd, Artimus Pyle. “Eles não sabem que tudo aquilo era a MCA tentando vender uma banda de Southern Rock, imaginando que a bandeira dos Confederados era forma para fazer isso. As pessoas vêm a bandeira e ouvem a música e pensam que nós odiamos os negros. Isso não é verdade." Outros viam o uso da bandeira de uma forma diferente.

De acordo com Ronnie Van Zant, “no que tange a bandeira dos Confederados, nós a carregamos conosco por um longo tempo antes de fazermos qualquer coisa; ela é parte de nós. Nós somos do Sul, mas não somos fanáticos.” Para concluir, as bandas de Southern Rock demonstraram visões racialmente progressivas através da forma cultural da música, ao reconhecer abertamente a influência de músicos negros na sua música. Contudo, o uso de imagem dos confederados pelas bandas do gênero, como uma forma de mostrar o orgulho sulista, criou um paradoxo que se torna ainda mais confuso quando se considera as visões politicamente progressivas das bandas de Southern Rock. Como será discutido no próximo capítulo, as bandas de Southern Rock mostravam visões políticas progressivas na música e nas atitudes, ao trabalhar em nome do candidato Democrático para as eleições presidenciais de 1976.

Continua...
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