Entendendo o Southern Rock - Parte 4

Ao longo dos anos que tenho me dedicado a difundir o Southern Rock pelo Brasil, me deparei com diversos textos que tentavam explicar o que é o Southern Rock, porém sempre esbarrava em um detalhe: os textos sempre eram superficiais. Tudo mudou em agosto de 2011, ano em que tomei conhecimento da tese "Southern Rock music as a cultural form" escrita por Brandon P. Keith em 2009. 

Essa tese foi apresentada em 2009 como cumprimento parcial dos requisitos para o grau de Master of Arts do Departamento de Estudos Americanos da Academia de Artes e Ciências da University of South Florida. O texto original pode ser encontrado aqui.

Nos próximos dias estarei publicando, íntegra, os capítulos dessa ótima pesquisa realizada pelo Brandon. A minha pretensão ao publicar esse texto, é sanar algumas dúvidas que os leitores tem com relação as origens, desenvolvimento e importância cultural do Southern Rock.

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Capítulo 3 – A Música Southern Rock como uma Forma Cultural


Como uma formação cultural, os músicos de Southern Rock demonstraram idéias racialmente progressivas através da forma cultural da música. Isso foi feito de diversas formas, a mais óbvia sendo a aberta recepção da influência de músicas negras no Southern Rock. Isso é demonstrado mais comumente por bandas de Southern Rock gravando velhas canções do Blues, o que é conhecido no mundo da música como cover. Embora muitas bandas de Southern Rock fizessem cover de canções do Blues em algum momento, The Allman Brothers Band tinha um leque de gravações que apresentaram uma nova geração de fãs de Southern Rock à tradicional música do Blues negro. 

No seu álbum de estréia, em 1969, The Allman Brothers Band, a banda, de mesmo nome, incluía uma versão de “Trouble No More”, de Muddy Waters, seguida de uma versão de “Hoochie Coochie Man”, de Willie Dixon, no seu segundo álbum, "Idelwild South". The Allman Brothers deu um passo incomum, ao lançar seu terceiro álbum como um disco ao vivo, chamado "Live at Fillmore East". Neste álbum, a banda incluía quatro covers ao vivo de músicas do Blues: “Statesboro Blues”, do Blind Willie McTell; “Done Somebody Wrong”, do Elmore James; “Stormy Monday”, do T-Bone Walker; e “You Don’t Love Me”, de Willie Cobbs. (Nos anos 90, o lançamento em CD desse álbum incluiu ainda mais covers do Blues, não lançados previamente no álbum original).

Esta tendência continuaria em álbuns subsequentes. O lançamento de "Eat a Peach", em 1972, incluía covers ao vivo de “One Way Out”, de Elmore James, e “Trouble No More”, de Waters. O álbum "Win, Lose, or Draw", de 1976, incluía um cover de outra melodia de Muddy Waters, chamada “Can’t Lose What You Never Had”. Álbuns posteriores incluíam versões ao vivo de covers de Blues. Por exemplo, figurou no álbum de 1988, "Duane Allman Anthology", uma das primeiras canções do The Hourglass (a banda que se tornaria o The Allman Brothers Band), intitulada simplesmente como “BB King Medley”, na qual Duane e Gregg Allman homenagearam o legendário nome do Blues, gravando um pot-pourri de sete minutos de “Sweet Little Angel/ It’s My Own Fault/ How Blue Can You Get”. Por fim, The Allman Brothers Band enfrentou uma série de separações na banda e mudanças pessoais no final dos anos 70 e nos anos 80, e não gravou mais nenhum cover do Blues até "Shades of Two Worlds", de 1991, que incluía “Come On in My Kitchen”

Outras bandas de Southern Rock homenagearam músicos negros, fazendo cover de suas músicas, embora nada tão extenso como fez a The Allman Brothers Band. A banda The Marshall Tucker Band, da qual o nome era uma homenagem a um afinador de pianos negro que era dono do salão de ensaio onde a banda praticava, gravou “Everyday I Have the Blues”, de Memphis Slim, no seu álbum de 1974, "Where We All Belong", uma canção que se tornou popular na voz de BB King. Charlie Daniels gravou “Drinkin’ Wine, Spo-Dee-O-Dee”, de Stick McGhee, no seu álbum de 1972, "The John, Grease and Wolfman". Daniels também teve uma participação na música “The Thrill is Gone”, de BB King, na gravação ao vivo em 1976 do Volunteer Jam, um festival anual do qual participavam uma variedade de músicos e bandas. Blackfoot, a única banda de Southern Rock que era liderada por um nativo americano – Ricky Medlocke – gravou “Rollin’ and Tumblin”, de Elmore James, no seu álbum ao vivo, "Highway Song Live", de 1982. Em 1981, Molly Hatchet gravou “Long Tall Sally”, de Little Richard, no álbum "Take No Prisoners". O Lynyrd Skynyrd gravou uma versão de “Crossroads”, de Robert Johnson, no seu álbum ao vivo "One More for the Road", de 1976. Embora “Crossroads” tenha sido a única música de Blues regravada pelo Lynyrd Skynyrd, a banda fez referências ao músico do Blues Son House, na música “Swamp Music”, do seu segundo álbum, "Second Helping".

O Wet Willie prestou homenagens às influências musicais negras, regravando canções como “Shout Bamalama”, de Otis Redding, “Keep A Knockin’”, de Little Richard, “It Hurts Me Too”, de Elmore James, e “Grits ain’t Groceries”, de Little Milton, que apareceram no segundo álbum da banda, "Wet Willie II", e “That All Right”, de Arthur Crudup, que apareceu no terceiro álbum da banda, "Dripping Wet Live".

É importante mencionar que as bandas de Southern Rock certamente não foram os primeiros músicos brancos a gravar música “negra”. Desde as primeiras gravações de Elvis Presley de “Big Mama”, “Hound Dog”, de Thornton, à gravação de “Tutti Frutti”, de Little Richard, por Pat Boone, a apropriação branca da música “negra” tem sido o assunto de muitos debates acadêmicos. Alguns acadêmicos, como Nelson George, no livro "The Death of Rhythm and Blues", têm sugerido que os músicos brancos, em essência, “roubam” a música negra, enquanto outros acadêmicos, como Gilbert Rodman, no seu artigo "A Hero to Most?: Elvis, Myth, and the Politics of Race", argumentam que músicos brancos, mais especificamente Elvis Presley, transformaram “a principal corrente do cenário da música pop [que era] dominada pelo som branco de Perry e Frank Sinatra, em um monstro muito mais integrado e diverso do que jamais tinha sido antes”, facilitando, assim, o surgimento e aceitação de músicos negros na principal corrente da música popular.

Nessa tese, eu estou expandindo o argumento de Rodman, para incluir a ideia de que as bandas de Southern Rock continuaram a integração da música popular ao introduzir música “negra” para um público branco. Os músicos brancos do Southern Rock estavam menos interessados em tentar reproduzir música “negra” com objetivo de vender discos para seu público, e mais interessados em prestar homenagem aos músicos do Blues, e, de fato, apresentar o público branco a esses músicos do Blues. Enquanto Pat Boone e Elvis Presley lançavam suas versões de canções “negras” ao mesmo tempo em que as originais eram lançadas (Boone gravou “Tutti Frutti” e “Long Tall Sally” no mesmo ano em que Little Richard as gravou – 1956; a versão de Presley de “Hound Dog” foi lançada em 1956, três anos depois de “Big Mama”, de Thornton), as bandas de Southern Rock gravaram músicas de Blues que eles cresceram ouvindo, as quais já tinham anos, ou mesmo décadas. The Allman Brothers Band gravou “Statesboro Blues” em 1971, mais de quarenta anos depois que ela foi escrita por “Blind” Willie McTell; o Lynyrd Skynyrd gravou “Crossroads” em 1976, quarenta anos depois que ela foi gravada pela lenda do Blues, Robert Johnson.

Além disso, as bandas de Southern Rock eram diferentes de Boone ou Presley, porque elas reconheciam, aberta e normalmente, a influência de músicos de Blues na sua música, e identificavam os músicos que escreveram as canções que eles interpretavam. Por exemplo, em vários discos ao vivo, incluindo "Live at Fillmore East", The Allman Brothers Band apresentaram as músicas de Blues identificando o compositor (ex.: “A próxima música é uma velha melodia de Muddy Waters”).

Nos anos 60, bandas do Reino Unido, como Led Zeppelin, Rolling Stones, e Cream, também foram fortemente influenciados pelos músicos de Blues americanos, e prestaram homenagem fazendo cover de algumas músicas. As bandas de Southern Rock eram diferentes, contudo, porque elas cresceram na mesma região que as suas influências do Blues, e testemunharam em primeira mão o racismo do Sul. De acordo com Jerry Wexler, o primeiro presidente da Atlantic Records, “as bandas de Southern Rock eram saturadas no Blues porque elas não tiveram que aprender o gênero comprando Barbecue Bob, gravado em um balcão de segunda mão na Fleet Street (em Londres). Elas viveram a vida. Elas eram a “parte baixa” da sociedade agrária dos EUA, assim como eram os negros. Eles eram uns garotos pobres. Eles faziam a mesma coisa que os garotos negros faziam. Eles ouviram a exultação, a agitação da igreja negra, direto na igreja. Não pelos discos.”

Enquanto jovens, Gregg e Duane Allman tinham amigos negros, tocavam em bandas inter-raciais, e mergulhavam no Blues, mesmo quando eram questionados por sua mãe por “cantar com aqueles neguinhos”. Como The Allman Brothers Band, eles fizeram a mesma coisa. Duane Allman trabalhou como guitarrista contratado no Fame Studios, em Muscle Shoals, Alabama, e tinha trabalhado com músicos negros legendários, como Aretha Franklin, Wilson Picket, John Lee Hooker, e King Curtis, entre outros. No Fame Studios, ele conheceu Jai Johnny Johnson, um percussionista negro, que se tornaria o baterista do The Allman Brothers Band.

Com Johnson na bateria, The Allman Brothers Band simbolizava a identidade masculina sulista que o movimento Southern Rock tentaria redefinir, para incluir ideais racialmente progressivos. Em 1973, depois da morte do baixista original, Barry Oakley, Lamar Williams foi chamado para substituí-lo, o que o tornou o segundo membro afro-americano da mais proeminente banda de Southern Rock daquela época.

Como foi mencionado antes, as bandas de Southern Rock foram influenciadas, em grande parte, pelo Blues e pelos músicos negros. Entretanto, vale lembrar que não tenha havido, talvez, uma influência musical mais instrumental para a banda do que Miles Davis. O eminente álbum de jazz de Davis, "Kind of Blue", tem sido reconhecido por ser uma influência mor no estilo improvisacional do The Allman Brothers Band, e a influência de Davis (assim como de John Coltrane) em Duane Allman e Dickey Betts é evidente nos seus longos solos improvisados.

De acordo com Dickey Betts, “muitas das nossas idéias dos arranjos de guitarra vêm da forma como (Miles Davis e John Coltrane) tocavam seus instrumentos juntos”. Betts prestou homenagem a Davis com a canção instrumental “In Memory of Elizabeth Reed”, uma música com uma mistura sofisticada de melodias complexas e sequências furiosas. Como uma base para a música, Betts usou “All Blues”, de Davis, da sua obra prima do jazz, "Kind of Blue", a qual, propositadamente, é identificada como a música preferida de Duane Allman.

No encarte do álbum "Brothers and Sisters", apareceu uma foto na qual vários amigos multirraciais e membros da família da banda estavam sentados em uma varanda. Embora a banda estivesse enfrentando um tumulto interno por causa do stress que usualmente acompanha uma repentina subida para a fama e sucesso, a foto do encarte mostrava as convicções da banda por igualdade. Da mesma forma, a banda Wet Willie, de Mobile, Alabama, colocou uma foto do guitarrista Ricky Hirsch segurando um jovem garoto afro-americano, na parte de trás do seu segundo álbum, "Wet Willie II", e uma foto do Reverendo Pearly Brown, um guitarrista de Blues cego e afro-americano, no seu terceiro álbum, "Keep on Smilin’". As raízes do Wet Willie são mergulhadas no Blues e ritmos afro-americanos e na música gospel. Os fundadores da banda, Jimmy e Jack Hall, eram irmãos que cantavam na Igreja Batista que frequentavam em Mobile, Alabama, e aprenderam a tocar gaita escutando os músicos de Blues Jimmy Reed, Little Walter e Slim Harpo. O guitarrista Rick Hirsch cresceu ouvindo músicos como Muddy Waters, Elmore James, BB King, e Howlin’ Wolf, e reconhece que, enquanto um jovem, seu estilo musical era fortemente influenciado por tipos como Ray Charles, Curtis Mayfield, Marvin Gaye e James Brown. Como outras bandas de Southern Rock, o Wet Willie aprovava a igualdade racial, prestando homenagem às influências musicais negras que o inspiraram.

Enquanto The Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd foram influenciados pelo Blues, o Wet Willie foi fortemente influenciado por outro gênero musical, o funk. O guitarrista Rick Hirsck descreveu o Wet Willie como uma banda “funk and roll”, uma descrição adequada para a banda.

Isso também se torna evidente quando vemos as canções “negras” que o Wet Willie escolhia pra fazer covers, e a forma como eles as gravavam. “O Wet Willie era diferente porque nós produzíamos versões muito mais brutas desses covers do que, digamos, Elvis ou Pat Boone”, de acordo com Hirsch. “Nós éramos bem Rock and roll, e se você ouvir a forma como tocamos “That’s Alright Mama”, no disco Drippin’ Wet, isso se torna visível rapidamente”.

Embora o Wet Willie seja, ao que tudo indica, uma banda de Southern Rock, sua música incorpora elementos de funk, Rhythm & Blues, mais do que qualquer outra banda no gênero. Canções como “Baby Fat”, “Keep on Smilin’”, “Airport”, “Country Side of Life”, e “Lucy Was in Trouble”, poderiam facilmente entrar na categoria de outras músicas funk dos anos 70, de bandas como Sly and the Family Stone ou The Ohio Players. Contudo, o Wet Willie não negligenciou suas raízes sulistas, e cantou sobre o Sul em “Dixie Rock”. Na música, Jimmy Hall anuncia:

"So gimme some nasty pickin Some Blues on a black guitar
Don’t you dig that Dixie, lady? No matter who you are
You can hear me down in Alabama We’re playing down in Tennessee
From Georgia to Louisiana, They’re dancing to the boogie beat
Of that Dixie Rock and that Dixie Roll
Got a real good beat and a whole lotta soul"

“Então me dê um pouco de coisas sujas Um pouco de Blues em uma guitarra preta
Você não curte isso Dixie, lady? Não importa quem você é
Você pode me ouvir lá no Alabama Nós estamos tocando lá no Tennesse
Da Georgia a Louisiana, Eles estão dançando a boogie beat
Daquele Dixie Rock e aquele Dixie roll
Ele tem uma grande batida e muita alma”

Na música, Hall admite a influência da música black naquelas do gênero Southern Rock, ou como ele mesmo chama, “Dixie Rock”. Ao pedir “um pouco de coisas sujas, um pouco de Blues em uma guitarra preta”, e depois declarando que o Dixie Rock tem “uma grande batida e muita alma”, Hall está reconhecendo a contribuição da música black no Southern Rock. Mas ele também está reconhecendo que a influência negra no Southern Rock é evidente na música – das notas da guitarra na menor escala pentatônica (também chamada de escala Blues), até os vocais uivantes e estridentes de Gregg Allman, a influência da música negra pode ser ouvida no Southern Rock. Esse tipo de música, à qual Hall se refere como “Dixie Rock”, pode ser ouvida ao longo do Sul, e nos típicos lugares de Southern Rock, Hall identifica especificamente esses lugares sulistas na música. Além de fazer cover de canções de composição afro-americana, reconhecer a contribuição da música black no Sul e suas músicas, e incluir negros nas capais frontais e traseiras dos seus LP’s, o Wet Willie, como os The Allman Brothers Band, era uma banda inter-racial – a backing vocal Ella Brown era negra, assim como era o baterista, T.K. Lively, que se juntou à banda em 1978.

Continua...
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