Entendendo o Southern Rock - Parte 3

Ao longo dos anos que tenho me dedicado a difundir o Southern Rock pelo Brasil, me deparei com diversos textos que tentavam explicar o que é o Southern Rock, porém sempre esbarrava em um detalhe: os textos sempre eram superficiais. Tudo mudou em agosto de 2011, ano em que tomei conhecimento da tese "Southern Rock music as a cultural form" escrita por Brandon P. Keith em 2009. 

Essa tese foi apresentada em 2009 como cumprimento parcial dos requisitos para o grau de Master of Arts do Departamento de Estudos Americanos da Academia de Artes e Ciências da University of South Florida. O texto original pode ser encontrado aqui.

Nos próximos dias estarei publicando, íntegra, os capítulos dessa ótima pesquisa realizada pelo Brandon. A minha pretensão ao publicar esse texto, é sanar algumas dúvidas que os leitores tem com relação as origens, desenvolvimento e importância cultural do Southern Rock.

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Capítulo 2 – As Bandas de Southern Rock como Formação Cultural


No livro “The Sociology of Culture” (A Sociologia da Cultura), o teórico social Raymond Williams discute o conceito de formações culturais. Williams usa o termo para descrever grupos de artistas que compartilham o mesmo estilo e “pano de fundo” e trabalham juntos para atingir objetivos comuns, artísticos ou políticos. Williams identifica o produto artístico dessas formações como formas culturais.

Williams escreve que “formações dos mais modernos tipos podem ocorrer, tipicamente, em pontos de transição e interseção dentro de uma história social complexa, mas os indivíduos que uma vez compõem as formações e são por elas compostos possuem uma gama mais complexa de posições, interesses, e influências diversos, alguns dos quais são resolvidos (mesmo que ao menos temporariamente) pelas formações, outras das quais continuam como diferenças internas, como as tensões, e, freqüentemente, como a base para subseqüentes divergências, separações, rompimentos, e tentativas de novas formações.”

Essa descrição se aplica à formação cultural das bandas de Southern Rock, ou aquilo que se chama de movimento Southern Rock. As bandas do gênero eram uma formação cultural que demonstrava visões racialmente e politicamente progressivas, através da forma cultural da música do Southern Rock. A era do Southern Rock ocorreu em um ponto de transição e interseção dentro da complexa história social do Sul, ou seja, a era pós-direitos civis, entre os anos 60 e 70. Para explicar a ideia de o Southern Rock ser uma formação cultural, é importante entender a história política do Sul, assim como o dilema do homem branco sulista no Sul pós-direitos civis. Durante o século 20, a batalha pelos direitos civis foi fortemente travada no Sul e expôs muitas das características desfavoráveis e infelizes da região – racismo ardente, intolerância, resistência a mudanças, e desprezo ao governo federal. Sulistas nascidos nos anos 40 e 50 cresceram no meio da batalha dos Direitos Civis, e isso incluía aqueles que formariam o gênero Southern Rock.

No começo do século 20, racismo e discriminação eram aspectos de vida aceitos no Sul. Mas depois da Segunda Guerra Mundial, a batalha pelos direitos civis se acelerou, e levou à decisão que foi um marco na Suprema Corte, em 1954, a chamada Brown v. Board of Education, [decisão que segregou as escolas públicas, dividindo escolas de negros e de brancos]. O movimento dos direitos civis, liderado por grupos como o NAACP, Congress of Racial Equality, the Student Nonviolent Coordinating Committee and the Southern Christian Leadership Conference [organizações que lutavam pelas minorias étnicas] rapidamente ganhou ímpeto, enquanto tentava avançar em uma batalha não violenta para assegurar a proteção dos direitos civis aos negros, e acabar com a discriminação no Sul de Jim Crow). Esses grupos advogavam em nome dos direitos civis ao organizar protestos e manifestações pelo Sul. Embora muitos dos protestos devessem ser manifestações pacíficas, os manifestantes encontraram violência da parte de muitos brancos que se opunham à causa.

Depois do assassinato do presidente Kennedy, o presidente Johnson tornou lei o Ato dos Direitos Civis de 1964, o que foi descrito como “a afirmação dos direitos civis mais dramática já feita por um Congresso Americano”. O Ato dos Direitos Civis de 1964 foi um marco na legislação que, essencialmente, tornou fora da lei a segregação em instalações públicas.

Ao longo dos próximos anos, mais leis pelos direitos civis foram aprovadas, incluindo o Ato do Direito de Voto, de 1965 e o Ato dos Direitos Civis, de 1968.

Durante a transição dos anos 60 para os anos 70, questões raciais migraram do Sul para o Norte, enquanto muitos sulistas ajustaram a implementação dos Atos dos Direitos Civis.

Questões de direitos civis, como usar os ônibus como uma forma de segregar as escolas públicas, se tornaram parte do debate nacional, enquanto outros estados da União se adaptaram às novas leis dos direitos civis. As significantes realizações relacionadas à legislação dos direitos civis mudaram para sempre a textura social do Sul. Esses eventos tiveram um importante papel na formação do Southern Rock. A enorme mudança político-cultural que ocorreu por causa do movimento dos direitos civis forçou muitos no Sul a reexaminar suas tradições e identidades regionais. Embora aqueles do Sul tivessem um forte senso de orgulho regional, o movimento dos direitos civis expôs muitas das características desfavoráveis da região, forçando os habitantes a reexaminar o que significava ser um “sulista”. 

Enquanto as pessoas do Sul reexaminavam sua identidade sulista, bandas de Southern Rock surgiam e ofereciam um modo de abraçar o orgulho sulista, ao mesmo tempo que rejeitando as tradicionais opiniões racistas. Vivendo em vizinhanças pobres e inter-raciais, como muitos viveram, os músicos do Southern Rock cresceram, em sua maior parte, no meio do racismo amargo e enraizado que era tão prevalente no Sul. Contudo, por causa disso, enquanto jovens, muitos músicos de Southern Rock foram expostos a vários elementos da cultura negra, incluindo Rhythm & Blues. Talvez a empatia pelos negros seja também, em parte, porque os músicos de Southern Rock tenham sentido na própria pele a frieza do preconceito e discriminação, embora certamente não fosse nada comparado ao que os negros enfrentavam. Quando eram adolescentes e jovens adultos, os membros do Lynyrd Skynyrd e o The Allman Brothers Band eram vistos como hippies e encontraram intolerância no sul conservador, por causa dos seus cabelos longos, ao extremo de serem agredidos e perseguidos por outros brancos sulistas.

Da mesma forma, Rick Hirsch, do WetWillie, é judeu e enfrentou a discriminação como um resultado. “(Como judeu, eu senti) o efeito direto do racismo e preconceito em mais de uma ocasião. Isso apenas serviu para aumentar minha consciência e me tornar mais forte no final, e, de fato, me permitiu agir no meu maior interesse na música que tinha sido e estava sendo criada por músicos negros,” disse Hirsch.

A imagem e reputação do Sul, e, é claro, dos homens brancos sulistas, foi marcada e diminuída por causa da resistência do Sul. De acordo com o historiador Ted Ownby, os brancos do Southern Rock cresceram ouvindo muitas críticas sobre o Sul, já que muitos brancos não enfrentaram o movimento dos direitos civis com muita dignidade. Possivelmente, muito disso foi merecido, embora os sulistas possam insistir que eles estavam resistindo à intromissão do governo no estilo de vida sulista, e não resistindo aos Direitos Civis. Para concluir, a era pós-direitos civis foi um tempo de mudança nos Estados Unidos, mas especialmente no Sul, e os homens brancos sulistas se encontravam em um período caótico enquanto procuravam por identidades pessoais e regionais. Em resposta à mudança dos tempos, uma nova geração de brancos sulistas, que tinham crescido em vizinhanças inter-raciais, e de quem o estilo musical foi fortemente influenciado pelo Blues, apareceu no cenário nacional como o movimento Southern Rock, e ofereceu um caminho para que os brancos sulistas se tornassem racialmente progressivos e ainda mantivessem o orgulho pelo patrimônio sulista através da forma cultural da música.

Esta idéia pode parecer contraditória, especialmente se considerarmos o paradoxo de ser racialmente progressivo com o uso de imagens dos Confederados, duas características da música Southern Rock. No entanto, como será discutido no próximo capítulo, as bandas de Southern Rock, como formação cultural, reconheceram a história vergonhosa do Sul e tentaram se mover em frente racialmente, ao mesmo tempo em que mantendo o orgulho daquilo que fosse honrado em relação ao Sul.

Continua...
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