O futuro do Blues


Esse é um texto que eu li no site Blues Brasil, achei relevante e pedi a autorização do Jhansen R. Machado para publicar aqui no Southern Rock Brasil. Leiam e opinem:

Nada de futurologia! Sejamos racionais e analíticos.

Para onde vai o Blues?

Desde há muito tempo, ao menos para os que gostam e acompanham o vai e vem da música e dos diferentes estilos musicais, terá sido possível observar que muitos estilos musicais (todos?) tiveram seu momento de ápice e depois caíram numa espécie de limbo onde estão fadados a uma situação incômoda: lembrado/gostado, mas por cada vez menos pessoas ou por um particular grupo de pessoas, e portanto muito provavelmente pouco tocado e pouco ouvido por novos públicos.

É provável que você tenha gostado muito, como eu, das bandas "dos anos 70" ou das músicas "anos 80"… e lamente que "não se faz mais música como antigamente". Mas é claro que não. Aquela inocência e aquele romantismo - se cabem as palavras - não existem mais.

O chato é que saber disso e ter a consciência do que se passou com outros gêneros musicais não serve como garantia de resolução ou de impedimento para que o mesmo não aconteça com o Blues. E se o fato de saber que há uma correnteza que abarca muitos estilos (mercado musical), e nela se busca extrair (no mau sentido) sempre o máximo - afinal, não é surpresa que haja uma espécie de obsolescência programada para os estilos e cantores, e para a "criação" de novos ídolos também, vide "Lana Del Rey" - eu e você que gostamos de Blues podemos ao menos contar com uma vantagem: o Blues, como as próprias emoções que o originaram, é intenso e marcante. Para que ele esteja sempre vivo, precisamos alimentá-lo um pouco e mantê-lo visível tanto quanto possível.

Agora, COMO faremos isso?

A história segue seu curso, modas vem e vão, e creio que o melhor modo de manter vivo esse gênero musical é difundindo, mostrando, ouvindo e estimulando novas leituras e novos artistas, abrindo-se para coisas novas, com o incentivo ao maior número possível de artistas, sejam negros, brancos, azuis ou de qualquer cor e/ou formação musical, ou mesmo sem formação nenhuma… afinal, quantos daqueles velhos e consagrados intérpretes de Blues você acha que tinham essa tal "formação" musical?

Não se trata de desvirtuar o Blues, em nenhum momento, mas e sim de permitir e estimular cada vez mais e mais artistas para que se empenhem na perpetuação e na evolução do Blues no Brasil. Por isso defendo a diversidade de iniciativas, de tentativas de aproximar o Blues de todas as pessoas: porque dores, amores, alegria e tristeza são coisas do ser humano de qualquer raça, e deixar o Blues numa redoma de vidro, para ser visto "como era" e para ser relegado à execução apenas por músicos considerados "blueseiros" ou por músicos "genuínos" é o meio mais fácil e rápido de condená-lo ao esquecimento. A continuar desse jeito, logo, logo teremos que visitar um museu para ouvir Blues.

De forma resumida, o que busco é que mais e mais pessoas se interessem, ouçam, cantem e toquem Blues. Se serão bons nisso, se terão sucesso ou se serão reconhecidos como artistas "geniais" é outro papo, é coisa que a seleção natural se encarrega de fazer quando há pluralidade artística. Do contrário estaremos sempre condenados a (sobre)viver de espasmos e de lançamentos esporádicos, ou a ficar ouvindo as mesmas coisas.

Neste ponto, não custa lembrar e perguntar: Onde estão os festivais de música? Onde está o incentivo à produção/criação artística? E não estou falando de coisas pontuais como criar um "blog" que custe um milhão de reais.

O fato é que sem essa cultura, sem esse costume, sem essa dinâmica de criação e desenvolvimento artísticos contínuos não vamos muito longe, e não sabemos direito nem para que lado vamos. É saudável e necessário que haja competição, sim, de valores artísticos e mesmo entre artistas de um mesmo "ramo" para aguçar criatividades, críticas e assim levar essas artes e especialmente a música para outros quintais que não os de sempre onde o grosso da população não tem acesso a essas novidades, e principalmente porque nos locais onde normalmente se promovem/exibem/apresentam as artes, a pecha de sofisticação e de "coisa culta" normalmente a eles associados acaba por dificultar ainda mais o acesso. Ou o preço é elevado ou as pessoas têm vergonha de ir e de se sentir deslocadas, ou nem mesmo sabem como e quando ir. Facilitando/incentivando e mostrando a todos: e com isso, quem sabe, conseguiríamos estimular a grande maioria da população - que tem quase exclusivamente a programação aberta da TV de sábado e domingo como as opções disponíveis de entretenimento - a buscar formas de lazer menos passivas e que poderiam contribuir para o surgimento / desenvolvimento de uma cultura artística (e cultura geral, claro) acessível porque seria próxima, constante e, logo, passível de ser assimilada e gostada.

Sei que pareço utópico. Afinal, em um país onde nem uma educação decente é garantida, que dirá investir ou incentivar arte?

É por isso que, dentre as várias bandas que vejo buscando seu espaço local e artistas de renome que continuam na estrada, saúdo iniciativas como a de Cris Carcará (ver post), que clama a criação/difusão de um "Blues universitário", que falaria das dores, amores, dúvidas, alegrias e incertezas daquele público, ou do ator Hugh Laurie (Dr. House) que se declarou um apaixonado por Blues desde sempre e lançou um CD de Blues.

Cris leva o Blues para um meio onde a ebulição e energia próprias das universidades talvez possam oxigenar o gênero e angariar mais ouvintes e quem sabe mais artistas, e Hugh, com seu imenso capital carismático e mundialmente reconhecido por seu talento colocam o gênero em evidência e, quero crer, o leva a muitos que o desconheciam.

E assim, espero, novos caminhos poderão se abrir!
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