Crônica - Blind Willie Blake


Era um negro cego. Tocava o Blues, geralmente, na esquina da rua Lemon com a rua Jefferson, em frente a um armazém. E era um homem de Deus.

Quando o ouvi pela primeira vez, eu ainda contava com dez anos. Era manhã, de um domingo quente, ensolarado, e ele cantava "John, the Revelator". Era um negro corpulento. Usava um terno garboso, embora barato, e óculos escuros com aros redondos. Pessoas depositavam moedas em uma caneca amassada, estrategicamente amarrada em um barbante, que ele puxava para recolher o fruto de seu trabalho.

Eu tinha uma moeda na mão, presente de meu tio, McTell. E não sabia o que fazer com aquela verdadeira fortuna.

Ele começou a tocar outra canção. Intrigado, prestei atenção naquela música. Era de uma poesia singela, mas executada com maestria por um verdadeiro bardo. E apesar da voz gutural, algo agressiva, aqueles eram versos serenos que exaltavam o caminho do Senhor.

Observei-o com reverência, enquanto seus dedos gordos tocavam as cordas do velho violão. Agilmente, precisos e leves.

A música chegou ao final. Eu tinha uma moeda na mão... E sabia o que fazer.

O metal retiniu no fundo da caneca e ele sorriu, dizendo:

— Que o Blues possa ajudar a libertar sua alma!

Seu nome era Blind Willie Blake e o Blues, se não libertou minha alma, pelo menos aliviou minha vida.

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