Nove canções


Era um quarto alugado, em um hotel barato. Meu tio, um caça-talentos das cidades do Sul, falara-me sobre um certo negro que costumava tocar nas jook joints do delta.

Ele chegou, antes do crepúsculo. Trazia seu violão, surrado, quase imprestável. Apertou a mão do meu tio e me lançou um olhar enigmático.

- Trouxe meu sobrinho, para conhecer seu blues! - meu tio disse e então apontou para um uma bag sobre a mesa - Use aquele instrumento!

Ele sorriu. Seus dentes eram brancos, belos como jamais havia visto. Apertou minha mão com força e foi ter com o violão que estava dentro da bag. Era um Stella, novo.

- Um belo violão, chefe!

Tudo era marcado pelo improviso. O microfone fora instalado em um canto do quarto. Meu tio dizia que aquele tipo de gravação captava toda a alma do músico.

Ele bebeu de uma garrafa de whisky de milho, cortesia da gravadora. Afinou o instrumento e se sentou de frente ao microfone. Brincou alguns acordes, no que pude perceber um pouco da sua técnica apurada. O técnico de som, um homem gordo, o instruiu sobre como proceder.

- Quando a luz azul acender, você começa...

Não me recordo de muitos detalhes daquela sessão. Mas jamais me esquecerei da maneira contundente, como aquela música tomou conta da minha cabeça. Sua voz rouca tinha algo de lascívia, acompanhada por aqueles acordes sensuais. A mão direita dedilhava freneticamente pelo aço daquelas cordas, enquanto a esquerda, ágil, percorria o braço do Stella como uma aranha.

- Nunca ouvi nada parecido! - meu tio olhou para o técnico, sorrindo - Vamos ganhar algum dinheiro com esses blues!

A sessão durou boa parte da noite. Ele bebia algumas doses entre uma e outra gravação. E sua voz parecia ficar melhor a cada dose.

Gravou nove canções, algumas tradicionais, mas a maioria de autoria própria. Não soube quanto ele recebeu, mas foi uma ninharia, segundo meu tio me confidenciou.

Ao terminar, ele não escondia uma expressão de contentamento. Sorriu-me antes de ir. E sumiu na noite.

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