J. B. Lenoir - O blues político

Com sua guitarra, um belo modelo semi-acústico, ele atira acordes quentes, em um ritmo contagiante, algo rock and roll. Sua voz, aguda, ecoa: "Well I feel so good. I don’t know what to do". Trajando um smoking personalizado de zebra, ele se agita e dispara: "I so glad I know what’s on your mind...". Seu nome, J. B. Lenoir.

Lenoir foi um bluesman, nascido no Mississippi e atuante em Chicago, contemporâneo a gente como Willie Dixon e Muddy Waters. Guitarrista, cantor e compositor, Lenoir é dono de uma obra bela e seu blues é lembrado por tratar de temas tão diversos quanto a Guerra do Vietnã, o racismo e a luta pelos direitos civis dos negros.

Nascido em março de 1929, em Monticello (Mississippi), J. B. recebeu, desde criança, a influência de caras como Blind Lemon Jefferson. E como tantos outros bluseiros, deixou a sombria vida das lavouras sulistas para tentar a sorte em lugares menos opressores.

Estabelecido em New Orleans, a partir de 1944, trabalhou com Sonny Boy Williamson II e Elmore James. Mudou-se em 1949 para Chicago, onde teve contato com Big Bill Broonzy, em cuja banda atuou como guitarrista. Broonzy o introduziu na cena do blues da cidade e J. B. começou a tocar em clubes noturnos e conheceu gente como Memphis Minnie e Muddy Waters.

Ao longo da década de 1950, Lenoir gravou para vários selos (J.O.B., Chess, Parrot). E teve sua obra relativamente conhecida. Mas, ficou esquecido até meados da década de 1960, quando foi redescoberto por ninguém menos que Willie Dixon.

Lenoir chegou a excursionar pela Europa, em 1965, participando do American Folk Blues Festival, um festival itinerante que rodava alguns países europeus. Porém, antes de ter seu nome devidamente reconhecido, teve sua vida abreviada, em 1967, aos 38 anos. Vítima de um acidente de carro, não foi atendido como deveria, o que o levou a complicações que o levaram a um ataque cardíaco.

Sua morte foi profundamente lamentada por John Mayall, quem compôs a canção/ode "The death of J. B. Lenoir":

"A car has killed a friend down in Chicago, thousand miles away
A car has killed a friend down in Chicago, thousand miles away
When I read the news, night came early in my day
J.B Lenoir is dead and it’s hit me like a hammer blow
J.B Lenoir is dead and it’s hit me like a hammer blow
I cry inside my heart that the world can hear my man no more"

A obra de J. B. é marcada por interpretações carismáticas e composições marcantes. Entre seus maiores sucessos estão canções como "Let's Roll", "Mama Talk to Your Dayghter" e "The Mojo". Porém, a despeito de sua figura descontraída, grande parte de sua obra trata de temáticas sérias, ligeiramente diferentes das que costumamos ouvir em outros blues. Não por acaso, Lenoir é lembrado pela grande sensibilidade com que abordava questões sociais, políticas e raciais.

Em "Eisenhower Blues", por exemplo, Lenoir alfineta a política econômica do governo do então presidente dos EUA. Já a questão da guerra é tratada em canções como "Korea Blues" e "Vietnam Blues". Nessa última, há um relato emocionante da controversa Guerra do Vietnã:

"Vietnam Vietnam, everybody’s cryin' about Vietnam
Vietnam Vietnam, everybody’s cryin' about Vietnam
These lonely days are killing me down in Mississippi,
nobody seems to give a damn (…)"

Levando-se em consideração a efervescência dos movimentos pelos direitos civis da época, várias de suas canções denunciam o racismo e a vida sofrida dos negros que viviam nos estados sulistas. Em "Alabama Blues" J. B. desabafa:

"I never will go back to Alabama, that is not the place for me,
I never will go back to Alabama, that is not the place for me,
You know they killed my sister and my brother,
And the whole world let them peoples go down there free."

"Born Dead", para as pedras chorarem, é lamentosa. Esse blues, intimista, é marcado por um clima pesado:

"Lord why was I born in Mississippi,
when it's so hard to get ahead
Why was I born in Mississippi,
when it's so hard to get ahead
Every black child born in Mississippi
you know the poor child is born dead"

Definitivamente J. B. Lenoir escreveu, com méritos, o nome nas páginas amareladas da história do blues. Um legítimo cronista de seu tempo e seu povo, cujos blues devem ser ouvidos com atenção e alma.

Para conhecer um pouco mais sobre J. B. Lenoir, assista ao documentário "The Soul of a Man" (que tem Martin Scorsese como produtor). O filme, utilizando-se de uma narrativa altamente poética, faz um apanhado sobre o blues de Lenoir e o de outras duas outras figuras lendárias: Blind Willie Johnson e Skip James.

Anderson Lobo
(poetaandersonlobo.blogspot.com)
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