O Trato


Era meia-noite.

-Você tem um belo violão! - ele me disse. Tinha modos polidos e voz calma. Usava um terno branco e sapatos engraxados.

- É meu único bem... além da alma... - a noite era completa e uma lua inchada iluminava a encruzilhada deserta. Quatro caminhos partiam em linha reta daquele ponto e se perdiam nas entranhas da noite. Lembro-me de um vento frio, levantando poeira e levando algum aroma de medo ao meu âmago.

Ele me dirigiu um sorriso sedutor, sabia que eu iria até o fim. A aba de seu belo chapéu não permitia que eu contemplasse seus olhos, mas, se bem me lembro, eles brilhavam em um tom rubro.

- Você quer tocar o Blues, garoto?

- É tudo que quero.

- Pagará o preço?

Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e nos sentamos sobre uma pedra. Ofereci-lhe o violão.

Ele afinava as cordas, enquanto o observava, hipnotizado. Uma atmosfera opressora penetrava meus pulmões.

Então ele tocou o Blues. Eram acordes, como jamais havia ouvido. E eram mãos ágeis, as que percorriam o instrumento.

- Bom negócio! - ele me entregou o instumento e, sem anunciar, se levantou.

Não fui capaz de dizer mais nada. Apenas o observei desaparecer nas trevas da noite. Fiquei estático por algum tempo, que não posso precisar. E só então tomei coragem para arriscar alguns acordes.

Acho que amanhecia quando coloquei o violão nas costas e deixei a encruzilhada. Algumas pessoas passaram por mim, quando seguia pela estrada, que me levaria ao norte. Lançavam olhares para mim, como quem olha para um pobre diabo. Mal sabiam, a verdade...

Anderson Lobo (http://prosaseoutrasprosas.blogspot.com.br/) 
Arte: Robert Crumb
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