Algo sobre blues (uma homenagem a Celso Blues Boy)


O relógio avançava e uma luz intrusa adentrava o quarto, sorrateira, pela janela aberta. Meus olhos cansados, fixos no teto. Era madrugada e uma solidão insólita preenchia todo aquele vazio, absurdo. Vencido pela insônia, sentei-me na cama, sobre um lençol amarrotado, quente e úmido de suor. Olhei pela janela e a violenta cidade estava à vista. Contemplei-a por instantes, com certa indiferença.

Ao lado da cama, o violão surrado. À meia luz, contemplei-o. Inevitavelmente, o violão, ao meu alcance. “Que diabos!”. Estendi uma mão e, segurando o braço do velho instrumento, senti suas cordas frias, de aço. Meus dedos as afagaram como se passeassem pelo corpo de uma mulher. Sem resistir, puxei-o para junto de meu peito.

Lembro-me que havia um LP do B.B. King em qualquer canto daquele quarto. Além disso, um misto de sentimentos, indecifráveis. Naturalmente, pois, comecei minha odisseia pelos calabouços de minha alma.

A mente me ditava alguns acordes. “Em algum quarto escuro, ela deve estar, entre vinhos e rosas, inebriada e feliz.”, esse foi um dos muitos pensamentos que me vieram, desconexos. Quando dei por mim, toda aquela solidão ganhou forma, palpável, audível. Um blues, cujas notas ecoaram pelo quarto e saíram pela janela, ganhando a noite. Ganhando o mundo.

Lá fora, a cidade, violenta. Não me é possível especificar o alcance daquela maldita canção. Lembro-me somente da luz intrusa adentrando pela janela. Uma luz pálida, feia. E minha voz, acompanhada por aqueles acordes profanos, ressoando pelos quatro cantos daquela noite. Sobretudo, pelos quatro cantos da minha alma.

Anderson Lobo
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