Narigolim na Estrada - Wanee Festival - Segundo dia


Essa é a segunda parte da série Narigolim na Estrada, que retrata algumas partes da viagem do Richard Zimmer, baixista da banda Cartel da Cevada, pelo Sul dos Estados Unidos.

19/04/2012, quinta-feira, Wanee Festival

A noite no Wanee era muito fria, principalmente pra gente que não foi preparado pra isso. Rolava uma chuvinha e a manhã era nublada. E pra completar era a hora de tomar aquele banho gelado. Mas era só imaginar o que estava por vir que isso tudo era motivo de sorrisos.

Curioso eram alguns chuveiros que ficavam numa espécie de caçamba de caminhão e divididos por boxes onde tu tinha que primeiro se ensaboar, e depois ficar segurando uma espécie torneira/alavanca pra sair água gelada do chuveiro. Ou seja, banho em doses homeopáticas. Uma maravilha. Era muito engraçado ouvir a cada esguicho que saía das dos chuveiros os gritos: "Oh my God!" ou "Son of a b...". Existiam os banhos nos banheiros mesmo, com água o tempo inteiro ligada e essas coisas, mas normalmente tinham mais filas, e a água era igualmente gelada. Segundo relato da Gabi, ela tomou uma vez banho quente, mas foi no final dos shows, não na manhã.

Até levantar mesmo, arrumar um pouco melhor as coisas, algum tempo já tinha passado. De almoço fizemos uma super massa com molho que havíamos comprado no Walmart. Refeição de campeão.

Massuda típica de acampamento, não importa onde esteja

Era dia de Mushroom Stage. Bom, esse lugar é fantástico. A vibração do lugar é incrível. O palco fica num lugar todo fechado por árvores. Na frente tem um espaço pro pessoal curtir o show de pé, pulando, plantando bananeira, etc. E depois tem uma subida, estilo as praças porto alegrenses, onde ficam as árvores. Ou seja, onde tu estiver vai conseguir ver o show bem direitinho, a não ser que fique atrás de uma árvore. O pessoal aproveita as árvores e coloca suas redes pra curtir o show, ou muitas vezes, dormir. Lycras esticadas em cima do palco pra fazer sombra dão um ar de psicodelia, que junto com os duendes e os incansáveis bambolês... bah.

Vista de fora do Mushroom stage

Vista de dentro (não é do mesmo momento da foto acima)

Vista noturna
A função começou às 14:30 com uma banda chamada Bonnie Blue, mas não vimos. Chegamos no meio do show do Bobby Lee Rodgers Trio. Figuraça que ia fazer mais uns dois shows no Wanee, além daquele. O som é uma mistura entre rock, blues, jazz, mais um monte de coisa. Não curti muito, mas não tava ruim. E a banda tem uma humildade cativante. Valeu pela ambientação.

Um pouco antes das 17:30 Ray Manzarek (tecladista do Doors) subiu no palco e começou a se ajeitar. Às 17:30 começava o show dele com o Roy Rodgers, um guitarrista americano de Delta Blues. Os dois fizeram um disco (aliás, QUE DISCO!) em 2011, chamado "Translucent Blues". Havia baixado o disco, me apaixonado e estava esperando ansiosamente pra esse show, que imaginava que seria basicamente o disco mais alguma coisa de cada um deles. E pra constar, não curto Doors.

Ray Manzarek & Roy Rodgers Band
O show começou com a primeira música do disco, "Hurricane". Bom, dali pra frente foi basicamente o disco inteiro, com (pelo que lembro) duas intervenções do Ray Manzarek. Numa ele fez só o piano de uma música do Doors, e deu um discurso sobre as drogas, o espírito do Wanee e dos anos 60. Climão de nostalgia e alegria. Eu que não conhecia a música senti isso. E em outro momento, mais pra finaleira, a banda tocou "Riders of the Storm".

Show muuuito bom, músicos excelentes e um repertório muito legal. Foi impressionante ver um show de um cara da importância dele tão de perto e sem um empurrão. Bom registrar que a tarde foi extremamente ensolarada. Inclusive dando na moleira dos velhos no palco.

Foi mais ou menos nessa hora que recebemos a informação mais baixo astral da viagem inteira: Levon Helm havia falecido. Ex-baterista, vocalista e mais um monte de coisa do The Band, morreu de câncer. Bom, mas bola pra frente.

Final de tarde era hora do show do filho do homem, o Devon Allman’s Honeytribe (Dé-von Al-man Rã-ni Trai-bi). Outro show em que estava com bastante expectativa. Na frente do palco já tinha bem mais gente, e o clima parecia mais animado. Deve ser efeito da "noite".

Devon Allman's Honeytribe
A banda consiste num power trio que ele canta e toca guitarra, onde baixo e batera tem muito espaço, fazendo várias partes instrumentais só os dois. Eu conheço um disco deles (eles tem dois), o "Space Age Blues", que gosto pra caralho e conheço todos sons. Bom, acho que eles tocaram umas 3 do disco. Mas mesmo sem conhecer muito do repertório o show foi muito bom. Muita energia da banda e bastante interação com o público, que respondia bastante. Muitas jams. Nesse show rolou um cover bem conhecido, "Midnight Rider" do Allman Brothers, que levantou muito o público. Outra coisa muito legal desse show foi um cartaz de tamanho real do Gregg Allman andando pelo público, até o Devon ver o cartaz e dizer: "Olha! É meu pai. Chega ser meio assustador".
Junto com o Freaky Gregg
Logo que acabou o show a banda foi numa tenda de venda de discos. Apareci por lá e tirei umas fotos com os caras que foram extremamente simpáticos e felizes por um maluco do Brasil ter ido lá falar com eles.

Com os caras
Depois disso fomos bater um rango. Comi uma espécie de sanduíche de carneiro com pão sírio. Espetacular. Recheado ao melhor estilo do Speed. A carne do bicho derretia na boca e o tempero extremamente simples e muito bom. No final do lanche rolou aquela sensação de prazer que o cara chega ficar meio mole. Sim, a fome foi o maior tempero, mas outro dia repeti e tava igualmente bom. Pena não ter foto.

De volta ao Mushroom Stage. Às 21h começou o show do HotTuna Eletric. Essa banda foi formada em 1969 quando o Jeffersno Airplane fez uma pausa porque o vocalista tava mal da garganta. O resto da banda decidiu continuar fazendo um som e a ideia deu certo. O que era pra ser um projeto de verão virou uma banda que até hoje está fazendo shows e gravando discos.

O som é um rock bem na manha. Nada de muita distorção, viradas malucas de bateria. Coisa dos hippies americanos dos anos 60. Os velhos tocam e entendem muito. Fazem muitas jams. Transformam músicas de 3 minutos em músicas de 8 ou 9 minutos com muita facilidade. Não curti tanto pelo fato de não sentir as músicas mudarem muito a dinâmica. Elas ficam longas, mas mantém sempre a mesma levada. Para quem gosta de Bob Dylan e Grateful Dead eu aconselho, e muito.

Hot Tuna Eletric
Para fechar o dia rolou show do Conspirator. Banda de música eletrônica, mas ao vivo. Fazem tudo na hora, inclusive jams e tudo mais. A gente deve ter assistido uns 4 minutos e foi embora. Realmente não é minha praia, nem da Thais e nem da Gabi.

Fomos pras barracas tomar a saidera e ir pro colchão inflável. O grande dia estava para chegar!
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